2 TERRITÓRIO E CAPACIDADE TECNOLÓGICA: bases teóricas para o conceito de
2.2 Desenvolvimento territorial
2.2.3 Diferenciando local, regional e territorial
Várias experiências e estudos apontam para uma ampla gama de discussão sobre o tema desenvolvimento. Para Delgado; Leite (2011), o território apresenta-se como a escala adequada para empreender políticas públicas diferenciadas. Analisando os obstáculos e as soluções para a construção de estratégias de desenvolvimento, esses autores salientam que essa escala ultrapassa a dinâmica local reafirmando a maior abrangência da escala territorial sobre a local. Já Benitez; Leitão (2012), abordam desenvolvimento local como um processo endógeno que tem por base os recursos, oportunidades e capacidades locais. Por sua vez, Castro e Morrot (1996) conceituam desenvolvimento sustentado por seus aspectos ambientais, relacionados à avaliação integrada dos processos produtivos e ambientais, à estratégia ambiental empregada e à conservação e utilização dos recursos naturais, e os aspectos antrópicos, relacionados aos componentes políticos, sociais e culturais do ambiente, objetivando compreender os processos produtivos de maneira mais ampla.
Os termos ―local‖, ―regional‖ e ―territorial‖ se aproximam e se fundem nas discussões conceituais. Observa-se claramente essa ―tônica‖ entre os autores que tratam do tema. Na visão de Freitas; Freitas; Dias (2012), no Brasil a diversidade regional possibilita o surgimento de diferentes processos de desenvolvimento rural, a partir de distintos arranjos existentes nos meios de vida, nas lógicas produtivas, estilos e trajetórias, o que resultaria em diferentes modos de funcionamento do território. Já Veiga (2002), baseado nos argumentos de Sforzi, salienta que o desenvolvimento local existe quando uma indústria e a população local
possuem uma área comum de interação social e econômica. O autor entende que a substituição da expressão "desenvolvimento regional" por "desenvolvimento territorial" permite uma referência mais abrangente, englobando o "local", o "regional", o "nacional" e até o "continental". Esse autor acredita que a retórica do desenvolvimento territorial é superior à do desenvolvimento local, embora ambas estejam distantes de superar as divisões práticas setoriais e a integração espacial, cidade - campo. Como uma noção recente, carrega imprecisões e ambiguidades. Muito além da discussão semântica de como se tem adjetivado o substantivo "desenvolvimento", é preciso avançar na percepção da relevância da dimensão territorial no processo objetivo de desenvolvimento. Xavier et al (2013), abordando aspectos da análise metodológica do desenvolvimento regional, apontam para o estabelecimento de um canal entre os agentes econômicos e o território, conhecendo os recursos disponíveis na região.
Evidencia-se que o desenvolvimento relacionado ao espaço, seja ele local, rural, regional ou territorial, envolve ações em busca de resultados (XAVIER et al, 2013). Há que se diferir ―desenvolvimento territorial‖, como resultado almejado, do ―processo de desenvolvimento territorial‖, que envolve as ações e propostas para seu alcance. Por esses motivos, Schneider (2010) avalia a necessidade de geração de um corpo conceitual próprio, que interaja com o Estado e atores que propõem e executam políticas públicas e ações para o desenvolvimento territorial ou rural. O desenvolvimento regional pressupõe promoção, mudança de condição do território, da região e sua população. Não se trata apenas de mudança na infraestrutura, nos aspectos tecnológicos, produtivos e econômicos. Falar em desenvolvimento territorial é necessariamente abordar e incluir o indivíduo e a sociedade local. Xavier et al (2013) salientam que o processo de desenvolvimento regional não está apenas relacionado ao crescimento econômico e sim a outros fatores sociais, ambientais, culturais e políticos. Esses autores apresentam uma relação sinonímica entre o desenvolvimento regional e o território, fazendo com que os diversos recursos existentes em uma região, sejam o ponto de partida para o desenvolvimento de "uma comunidade territorialmente localizada‖. Sendo assim, aspectos culturais, históricos, humanos, ambientais, entre outros, devem ser considerados.
O papel do espaço no desenvolvimento socioeconômico é complexo. A análise do espaço deve permitir extrapolar a visão matemática abstrata, que descreve, mas não explica a dinâmica e fluxos estabelecidos nos diferentes espaços como o comercial, o arquitetônico, o ecológico, o político, etc. (LIMA; SIMÕES; MONTE-MÓR, 2014). Por se tratar de uma realidade complexa, é preciso estabelecer modelos de análise que procurem reduzir a
realidade para tentar compreendê-la, sem, contudo, desprezar as inter-relações entre os outros elementos.
Não basta possuir atividades econômicas positivas ou recursos naturais proeminentes, é necessário que existam outros aspectos peculiares aos territórios. A capacidade tecnológica seria um desses aspectos que, muito além de apenas integrar a produção agropecuária à indústria ou de inserir tecnologias mais eficientes aos processos produtivos locais, daria condições para uma alavancagem, que extrapolaria a simples integração de atividades produtivas. Horlings; Marsden (2011) afirmam que o desenvolvimento regional, mesmo que ecoindustrialmente fundamentado, deve possuir um forte conteúdo social estruturado. Caso contrário, apenas a existência de aglomerações industriais em determinadas localidades não apresentará as vantagens esperadas. Sem a criação de vínculos diretos entre as empresas, essas aglomerações estarão condicionadas a repetir os erros das políticas econômicas espaciais.
Veiga (2002) ressalta que a perspectiva europeia de desenvolvimento espacial, conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 1993, visa ampliar a capacidade de competitividade dos territórios e limitar a concorrência exacerbada, procurando a combinação ideal entre cooperação e competição e cita o marco simbólico da aprovação da lei de ordenamento e desenvolvimento territorial francês, de 1995, na qual aparece o anseio de uma política descendente (de ordenar) e ascendente (de desenvolver).
A concepção territorial deve ser entendida em uma política de ordenamento, como um ator do desenvolvimento, combinando concorrência com cooperação, conflito com participação e conhecimento local prático com o científico. Existem três dimensões de escala: a local (municipal), a regional e a nacional. Mostra-se evidente a necessidade de cooperação entre municípios adjacentes, sendo que as práticas de governança advindas disso devem compor a prática do desenvolvimento regional (VEIGA, 2006). O ambiente rural aparece envolvido nessas três dimensões.