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DIFERENTES CONCLUSÕES SOBRE UM MESMO OBJETO DE ESTUDO

Dentro desses autores, Janet foi o que mais se preocupou com a questão das relações entre Espiritismo e problemas mentais. Além disso, atribuiu as comunicações mediúnicas exclusivamente ao subconsciente. Jung e James admitiam esta mesma possibilidade, mas não chegaram a uma conclusão final sobre a aceitação ou não da interferência de um espírito desencarnado para a explicação de parte desses fenômenos. Também aceitaram a idéia de um caráter não-patológico desses fenômenos. Myers considerou a mediunidade, assim como a criatividade e a genialidade, como um desenvolvimento superior da personalidade, atribuindo como causa o inconsciente, a telepatia e a ação de espíritos desencarnados (Almeida e Lotufo Neto, 2004).

Um ponto que chama a atenção foi o quanto esses fenômenos agitaram a comunidade científica da época, seja para descartá-los como fraude, seja para explicá-los, retirando seu aspecto místico, ou para proteger a população de uma epidemia de “loucura espírita” ou, ainda, para ampliar os conhecimentos psiquiátricos da época. Henry Ellenberger (1970) afirmou que o Espiritismo foi “um evento de grande importância como uma fonte na história da psiquiatria dinâmica” (p.115)e que nas décadas que se seguiram, exerceu uma importante influência no desenvolvimento da ciência médica.

No entanto, é praticamente inexistente na literatura científica atual referências a tais pesquisas realizadas por esses pioneiros da moderna

Psiquiatria e Psicologia, e que foram consideradas, por eles mesmos, de grande importância para uma melhor compreensão do funcionamento da mente. Entretanto, Ellenberger (1970) foi um dos primeiros autores contemporâneos a resgatar esta parte negligenciada da história. Seu trabalho de ampliar o entendimento das relações entre o Mesmerismo, Espiritismo e Espiritualismo com a Medicina e a Psicologia tem sido continuado por outros autores como Pierre Thuillier, 1983; Adan Crabtree,1993; Pascal Le Malefan, 1999; Regine Plas, 2000.

1.14 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

O debate em torno da questão da “loucura espírita” foi parte integrante da comunidade psiquiátrica e espírita na Europa e nos Estados Unidos por quase um século. Ao longo da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, várias publicações endereçadas à classe médica e à população geral foram produzidas, além de teses e debates em congressos científicos. Do mesmo modo, os espíritas (em especial, Kardec) também teceram várias considerações sobre o tema, em livros e artigos. O debate entre espíritas/espiritualistas e a comunidade médica na Europa e nos Estados Unidos evidenciou um conflito entre dois grupos que buscavam estabelecer seu espaço no cenário social, bem como suas visões sobre a mente e as doenças mentais.

Dentre o grupo de médicos e pesquisadores que dedicaram boa parte de seus estudos às pesquisas relacionadas à mediunidade, detectamos a existência de dois grupos que abordaram este tema de modo diferenciado. O primeiro, embora por vezes considerando um possível caráter patogênico da prática mediúnica, prendeu-se mais às novas possibilidades de compreensão do funcionamento da mente que os fenômenos mediúnicos poderiam fornecer. O segundo grupo ficou mais restrito à investigação dos potenciais perigos do Espiritismo e da mediunidade no desencadeamento da loucura, bem como na elaboração de métodos preventivos que dificultassem o acesso da população às

práticas espíritas.

Este interesse dos médicos e pesquisadores pela mediunidade e Espiritismo/Espiritualismo diminuiu muito ao longo do século XX. Shortt atribui esta nova postura de indiferença dos médicos a dois fatores. O primeiro, seria a profissionalização e consolidação da Psiquiatria e da Neurologia como saberes médicos. O segundo fator seria a desconstrução da ameaça epistemológica representada pelo Espiritualismo ao despi-lo do caráter sobrenatural, reduzindo a mediunidade a uma simples fraude ou a manifestações do inconsciente. “Domesticado desta maneira, espiritualismo deixou de ameaçar – na realidade, de interessar – médicos” (Shortt, 1984:355).

Como veremos nos próximos capítulos, foram as idéias dos médicos ligados ao discurso da “loucura espírita — mais do que as idéias dos pesquisadores ligados à investigação da mediunidade — que influenciaram diretamente os psiquiatras brasileiros.

O debate foi intenso no Brasil, alcançando a imprensa médica e leiga, as faculdades de Medicina, as reuniões das diversas associações médicas e os congressos de Medicina. No entanto, não foi uma simples absorção de idéias e conceitos, reproduzindo na íntegra todas as teorias desenvolvidas na Europa (em especial na França) e nos Estados Unidos. O caso brasileiro apresentou especificidades, com a elaboração de algumas estratégias discursivas particulares que se encaixarem com a realidade nacional daquele período.

2 – O ESPIRITISMO: A ANTECÂMARA DA LOUCURA

Este capítulo tem como objetivo reconstruir o conflito que envolveu os médicos, em especial os psiquiatras, E os espíritas brasileiros já no final do século XIX e que se prolongou ao longo da primeira metade do século XX. Este foi um período de inserção e tentativa de consolidação da Psiquiatria e do Espiritismo em nossa sociedade.

A Psiquiatria procurava legitimar-se no campo científico. O Espiritismo, por ser uma religião com pretensões científicas, além de tentar se inserir no campo religioso também buscava reconhecimento no campo científico. Muitas teorias desenvolvidas pelos espíritas tinham pontos de contato com a Psiquiatria: as relações mente-corpo, a causas da loucura, bem como seus modos de tratamento e prevenção. Configurava-se uma disputa pelo poder e autoridade científica para se pronunciarem sobre esses assuntos. Em torno de um “debate científico”, verificava-se uma intensa luta pelo poder simbólico destes dois grupos com interesses antagônicos que almejavam a hegemonia de saberes, conhecimento e poder social. Seguindo o pensamento de Pierre Bourdieu, podemos concluir que estes grupos que se antagonizavam estavam envolvidos:

(...) numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais. (p.11).