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Diferentes experiências/ Diferentes participações

4. ALGUMAS QUESTÕES DE FORA DA ESCOLA DENTRO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

4.2. Diferentes experiências/ Diferentes participações

Um caminho possível para se pensar sobre a questão lançada acima é compreender que incentivos nas formas de ações diretivas proporcionam experiências e repertórios com o corpo e o movimento que possibilitam mais sucesso nas aulas de educação física quando comparados com aquele/as com menos experiências fora da escola.

Aqueles/as que vivenciam práticas corporais fora da escola possuem mais tempo de prática, mais experiências corporais, o que possibilita uma diferenciação nas habilidades quando comparados com quem tem poucas experiências.

Norbert Elias e John Scotson (2000) buscam entender como se dão as relações na pequena cidade Winston Parva, na qual há um grupo de “Estabelecidos” e um de “Outsiders”. Os dois grupos trabalham no mesmo local, pertencem a mesma classe social e são da mesma etnia. No entanto, um grupo (os Estabelecidos) possui prestígio social, poder, coesão, enquanto outro é excluído e sofre com desvalorização naquela cidade.

A principal diferença entre eles era exatamente essa: um deles era um grupo de antigos residentes, estabelecidos naquela área havia duas ou três gerações, e o outro era composto de recém-chegados. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p. 24).

Ou seja, o fato de estarem ali na cidade há mais tempo os dava condições de criarem situações que os mantinham no grupo de “Estabelecidos” enquanto os “Recém- chegados” eram estigmatizados e considerado por todos (inclusive por eles próprios) como pertencentes ao grupo dos “Outsiders” (ELIAS e SCOTSON, 2000).

Essa diferença de tempo no local era determinante para a posição que assumiam na cidade. A questão do tempo de estabelecimento na cidade proporcionava uma coesão maior no grupo e isso os colocava em condições de poder na cidade. A partir dessa ideia, podemos pensar como aqueles/as que possuem um tempo maior em práticas corporais, principalmente com

experiências com práticas esportivas em outras instituições, possuem um maior pertencimento nas aulas de educação física, uma vez que estão estabelecidos nos conteúdos das aulas há mais tempo, ou seja, possuem mais experiências com os temas da aula e já conhecem os assuntos tratados. Essas pessoas acabam formando grupos de liderança e muitas vezes excluindo quem não sabe e que são considerados menos hábeis e “incompetentes”.

Maria Tereza E. do Valle (1992) em sua dissertação de mestrado com título “Não saber/ ainda não saber/ já saber - pistas para a superação do fracasso escolar” diz que “O erro marca o aluno como ‘aquele que não consegue aprender’, aquele que é estigmatizado e, portanto, ganha rótulo de incompetente “(VALLE, 1992, p. 21). A autora nos diz ainda que “os que sabem são os que detêm o poder” (VALLE, 1992, p. 27). Penso que o que a autora apresenta também pode ser entendido na aula de educação física, por exemplo, na forma da participação mais ativa, no maior tempo de posse de bola, em mais iniciativa e comando de jogo da parte de alguns alunos e algumas alunas.

Elias e Scotson também apresentam que os estabelecidos em Wiston Parva mantêm-se em situações de poder, pois:

sua maior coesão permite que esse grupo reserve para seus membros as posições sociais com potencial de poder mais elevado....e exclui dessas posições os membros dos outros grupos. (ELIAS e SCOTSON, 2000, p. 22).

Essa questão de reservar posições de destaque nas atividades pode ser vista no fato de que muitas vezes, nas aulas observadas, os Protagonistas não tocavam para as pessoas dos demais grupos, não escolhiam para seus times as integrantes dos demais grupos e, algumas vezes, até as ridicularizavam com piadas e risos, criando situações que reforçam o local de Protagonistas dos membros de tal grupo, enquanto as Figurantes e Flutuantes e Excluídos/as continuavam às margens da aula, exercendo menos liderança, influência e oportunidade de integração nas atividades.

Sendo assim quem “não sabe” nas aulas de educação física acabava tendo menos possibilidades de participar, de interagir, como disse a aluna Branca, que está no grupo das Figurantes da Escola Marta: - Porque tem vezes que a gente erra lá, eles ficam tirando sarro

da gente. E eu não gosto. Prefiro jogar aqui.

Nesse relato a garota explica porque costuma não participar das aulas no grupo dos Protagonistas, preferindo pegar a bola e ficar separada com outras meninas do grupo de

Figurantes. Essa fala mostra que o fato de não saber é determinante para a sua não integração na atividade em que estão os/as Protagonistas. Branca sentia-se constrangida, intimidada ao ver seu erro exposto e negativizado por quem não cometia os mesmos erros.

Ainda de acordo com Valle “tornado o erro sinônimo de fracasso, a escola faz do “não saber” a única possibilidade para a maioria” (1992, p. 56), no caso da educação física, percebeu-se nas escolas observadas que as meninas e mesmo os meninos que “não sabem”, acabavam tendo poucas oportunidades de vir a saber, já que acabavam participando menos das atividades de aula. Como fala em sua entrevista, a aluna Márcia (Escola Marta), pertencente ao grupo de Figurantes, quando explica porque há pessoas que ficam de fora da atividade, diz: -

Porque às vezes um sabe jogar, então quando pega a bola fica só com ele, não divide com ninguém e o outro acaba desistindo.

Sendo assim, quem não sabia acabava saindo da atividade, ficando excluído/a no jogo (como Figurantes) e, portanto, acabavam não tendo as mesmas oportunidades de aprendizado. Enquanto quem já sabia, acabava cada vez sabendo mais, já que tinha mais oportunidades de aprendizado e participação nas aulas e, além disso, na maioria das vezes, essas pessoas que “já sabiam” praticavam atividades esportivas fora da escola, o que ampliava ainda mais seus conhecimentos.

Outro relato que nos faz pensar o quanto o não saber é um problema nas aulas de Educação Física pode ser visto na seguinte entrevista com Talita e Maria (Flutuantes - Escola Marta):

Pesquisadora: É prazeroso para vocês participarem das aulas de educação Física? Como vocês se sentem?

T: Às vezes é (prazeroso)....as vezes eu me sinto uma tosquinha