Capítulo III – Jogos de azar e suas representações em processos crimes e
3.3 Diferentes letras entre desarranjos cotidianos
Desde a segunda metade do século XIX, a cidade de Fortaleza passava por inúmeras reformas, construções, transformações e processos a desenvolver outros movimentos e acelerações na vida urbana. Projetos que decretaram a modernidade existiram no século XIX e continuam a persistir e existir em tempos hodiernos. Fosse pelo planejamento urbano - ou ainda, à falta deste – ou concentração populacional e administrativa (econômica, jurídica, industrial, comercial, militar etc) representou a excelência de elementos estimulados ou estimuladores à superioridade do espaço urbano, asseado e favorável ao que era compreendido como moderno.
A expansão da cidade de Fortaleza ocorreu armada de concreto, mas também plantada, ordenada e prescrita em papéis; e, já nos anos 1930, por ondas hertzianas. Assim os fortalezenses se fizeram conhecer, e também conheceram os acontecimentos que ocorriam pelo Brasil e mundo. Os jornais impressos em Fortaleza, entre o século XIX e XX, noticiavam e encurtavam as distâncias temporais e espaciais entre as ações ocorridas e sua propagação, registrando assim as mais diversas impressões sobre as imagens e acontecimentos de ordem local, nacional, ou mesmo internacional.
Jornais e revistas captavam as experiências que construíam outros mundos e cobriam com tintas “fatos” que radicalizavam lugares, cotidianos, cristalizavam figuras, imaginários e constatavam os choques socialmente versados e doutrinados em mensagens escritas. As subjetividades das experiências urbanas passam pela construção das interpretações segundo as representações manifestadas pela imprensa, onde materializaram e embaralharam algumas atividades diversionais de acordo com a intensidade social e interesse em registrar, ou não, o delineamento de práticas de prazer que fomentaram contendas e polêmicas na construção de práticas aceitas e outras não. As disputas culturais e sociopolíticas, e as tensões relativas aos meios circundantes na capital do Ceará também se estabeleceram nos veículos de informação produzidos e gestados em Fortaleza. Dessa forma,
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A atividade de imprensa em Fortaleza foi bem diversificada. Positivistas, maçons, cientificistas, republicanos “de última hora”, intelectuais orgânicos e poetas boêmios, dentre outros, estiveram empenhados nos debates cotidianos sobre as mais variadas formas de governo e projeto sociais que deveriam organizar a experiência da vida em sociedade naquela época.75
A vida da imprensa jornalística de Fortaleza é repleta de “causos” e disputas a implementar projetos de contemplação coletiva, ainda que muitas vezes os membros das classes populares não tenham sido convidados a emitir opiniões acerca das ordens estabelecidas. De certa forma, aquela pode ser compreendida como um escalímetro que revelou os privilegiados da sociedade, expondo e impondo as convenções de ordem à coletividade, mobilizando inclusive as atividades de lazer como características de determinados espaços e classes.
Pelos veículos de informação, os fortalezenses souberam, por exemplo, dos inovadores aparelhos domésticos que proporcionavam novas agilidades, das estreias nas salas de cinema, dos alimentos industriais que prometiam serem ricos em nutrientes, do entrelaçamento político que excomungava o comunismo da política nacional, dos crimes que banhavam de sangue o noticiário local, dos abalroamentos que enleavam o trânsito, da descoberta de novos usos para a eletricidade, da escassez de água que há muito assolava os mais pobres, dos bairros que nasciam e, também, das áreas que eram esquecidas pelo poder público.
Os fortalezenses, ou melhor, aqueles que tinham acesso à leitura dos jornais, também eram munidos diariamente com notícias sobre o teatro de operações militares durante a Segunda Guerra Mundial; a agitação de Lampião pelos estados nordestinos; o surgimento e a negligência de leis que quase tudo reprimiam e, ao mesmo tempo, se omitiam em executá-las; os acontecimentos e personagens das festas populares e também de folguedos em clubes; os produtos de saúde testados em inúmeras experiências; a abertura de estabelecimentos comerciais se dedicando a produtos com chancelas internacionais; os automotores mais velozes e as mais diversas campanhas moralizadoras a proibir, dentre outros, a jogatina de azar.
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CARDOSO, Gleudson Passos. Padaria Espiritual: biscoito fino e travoso. 2. ed. Fortaleza: Museu do Ceará/ Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, 2006. P. 72.
127 Não obstante, os jornais noticiavam as prescrições jurídicas, políticas e, por vezes, clamavam pela interdição policial. Porém, pelas publicações diárias os fortalezenses também tomavam notas dos resultados dos jogos de azar, então proibidos, mas aceitos e tolerados por parte da população. E a imaginar pelos espaços e difusões nos periódicos, Fortaleza se modernizava e os espaços de diversões seduziam membros de todos os pontos da cidade.
A modernização de Fortaleza proporcionou a construção de novas ruas, mas criou – reforçou – uma sociedade hierárquica (não engessada e com disputas) e com a reafirmação de lugares que proporcionavam práticas aceitas para sujeitos ligados às elites, enquanto outras diversionais concebidas pela camada popular eram representadas pela mídia como aglomerados para a desordem e aperfeiçoamento de vícios.
É singular que em 1932, ainda como viés de política de escolarização em uma cidade em processo de modernização, as estratégias expressadas pelo Governo do Estado do Ceará através da Diretoria da Instrução Pública do Ceará, enquanto medida pedagógica, visava manter o conservadorismo dos interesses das classes dominantes e desestimular o estabelecimento de inovações culturais. Enquanto Fortaleza foi peremptoriamente reinventada por parafernálias que idealizavam o progresso cultural e material, a demanda por ensino aos trabalhadores e seus filhos era traduzido da seguinte forma pela Diretoria responsável pela alfabetização e divulgação do ensino:
No Ceará, evidentemente, temos tido escolas para literatos, em vez de escolas para trabalhadores. Numa terra pobre, como a nossa, a escola só tem servido para aumentar a corte de desempregados que se avolumam, á porta das repartições públicas.76
Esse discurso de uma educação prática, voltada para a classe de trabalhadores, não era algo específico da política do Ceará, pois havia também em outras cidades brasileiras, a exemplo de grandes centros como o Rio de Janeiro, Recife e em São Paulo. Para os pobres bastaria uma educação utilitarista, sem maiores esperanças de ascensão social por meio das letras. As autoridades propunham a escola como instituição disciplinadora e de controle sobre a classe de trabalhadores, evitando reduzir a possibilidade de práticas que desembocassem em vícios ou atitudes a prejudicar a produção capital. De
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128 acordo com a historiadora Margareth Rago, tais centros de instrução disciplinar surgidos desde o final do século XIX, em São Paulo, foram modelares ao restante do país durante o século XX, onde
O interesse pela educação dos operários desde a infância reflete a intenção disciplinadora de formar “cidadãos” adaptados que internalizassem a ética puritana do trabalho comportando-se de modo a não ameaçar a ordem social.77
Essa preocupação pela educação operária estava carregada de uma ética a favor da imagem moral e social concebida pelas classes dominantes. O controle disciplinar atingiu diferentes áreas e atividades, por exemplo, os centros educacionais, os espaços de trabalho, os centros familiares e as atividades de lazer. Portanto, as estratégias das autoridades políticas e policiais também visaram o controle sobre as diversões, sobretudo as fomentadas pelos populares. “Assim, vagabundos, mendigos, ébrios, jogadores e operários que não operam, isto é, não trabalham, não exercem sua função na ordem estabelecida, são todos pervertidos, perigosos”78
, ou seja, os padrões conservadores estatais procuravam coibir e encarcerar comportamentos que desarranjassem a imagem da cidade pretensamente moderna e disciplinada.
Se a vida em sociedade passava pelo imaginário da diversão e o medo das tensões do cotidiano, as normas da convivência social também proporcionavam outras regras nas experiências com os jogos. De acordo com os sujeitos envolvidos na prática do jogo, estes foram classificados como de azar ou não, logo, as experiências culturais no contexto diversional urbano resultaram em diferentes leituras – e criações de processos - pela hierarquia social.