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A evolução característica da nossa época altera, a um ritmo acelerado, os modelos de vida, recriando hábitos e necessidades que, conforme é exposto por Pereira, Gago e Lopes (1984), implicam um constante reajustamento das maneiras de viver. O inevitável passar do tempo, associado a inovações de âmbitos diversos onde tudo é inventado e reinventado, transporta consigo um conjunto de novos automatismos, transformando todos os nossos gestos, movimentos, desejos e valores, definindo novos padrões de vida. Estas alterações, segundo a mesma fonte atrás citada, repercutem-se com relevância na prática da arquitectura, no uso da cidade, colocando novos dilemas que visem definir o que deverá ser construído, para quem e de que forma. Assim, é fundamental existir um reconhecimento dos valores simbólicos e da conjuntura geral de cada época que permitam a concepção de espaços e objectos adequados, nomeadamente a nível da habitação, reflectindo-se em soluções actualizadas e compatíveis com os potenciais beneficiários.

O conceito de habitar implica assim, segundo Cabrita (1995), uma delimitação epistemológica ampla e pouco definida, restringindo o campo operacional mediante três aspectos fundamentais: o âmbito sociogeográfico, a cultura e o período histórico. O conceito de habitar será sempre definido em cada lugar e em cada período temporal, variando em conformidade com determinados objectivos e necessidades que, quando atingidos, desempenham em plenitude a acção pressuposta no verbo (Cabrita, 1995). Com o intuito de alcançar um melhor entendimento alusivo à habitação, bem como ao próprio acto de habitar, torna-se fundamental apurar as suas origens e as configurações que esta pode assumir.

Francis Ching (2006), ao definir o conceito de “casa” apresenta-nos uma vasta gama de soluções distintas que, no entanto, assumem a mesma finalidade genérica, obtida de diferentes modos associados a culturas distintas. Surgem, assim, soluções como a cabana (geralmente utilizando materiais naturais), a moradia subterrânea (consistindo num buraco escavado na terra), a palafita (construída sobre estacas ou outros suportes sobre as águas de um lago), o yurt (habitação circular revestida a tecido ou peles de animais, típica dos nómadas mongóis), a tepi (tenda de índios norte-americanos feita à base de peles de animais), o wigwam (habitação dos índios norte- americanos coberta com cascas de árvores, esteiras de palha ou peles de animais), o hogan (característica dos índios navajo, construída de terra e troncos e coberta com barro e sapé) ou o trullo (do sul da Itália, coberto com uma estrutura de alvenaria seca provida de mísulas). Em climas extremos surgem igualmente formas peculiares de habitar, destacando-se os igloos, construídos segundo o fenómeno físico de convecção térmica. Estas habitações, típicas dos esquimós, baseiam- se na construção de uma plataforma elevada que aproveita o ar quente, que sobe, possibilitando ao seu utilizador a permanência no seu interior, enquanto o ar frio afunda e fica retido na zona inferior

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correspondente à entrada (Roaf, 2001; Ching, 2006). Observam-se, portanto, as mais variadas formas de tornar o espaço habitável e propício ao desenvolvimento de um conjunto de actividades e vivências não compatíveis com o espaço público e tão vinculadas à sua própria localização geográfica e à cultura de uma sociedade específica. O conceito de habitar possui assim múltiplas disparidades cujo entendimento carece ainda de uma abordagem temporal, pois as habitações que actualmente procuram satisfazer, de uma forma geral, as nossas necessidades, sofreram actualizações constantes ao longo do tempo visando compatibilizar e harmonizar com o modo de vida de um período específico.

Ao longo da história foram testadas numerosas alternativas. Desde a procura inicial por refúgios naturais aproveitando os acidentes geológicos, até à construção actual de arranha-céus e edifícios inteligentes com recurso à mais alta tecnologia, passaram milhares de anos, como refere Alcalá (1995). Primeiro foi a caverna. O homem, animal com uma clara racionalidade, embora pouco desenvolvida, viu nas cavernas um valioso refúgio para se proteger das ameaças climatéricas do mundo exterior, do frio e da chuva, tal como procurava abrigo para se defender do ataque de outros animais irracionais ou mesmo do seu semelhante, deixando as marcas da sua imaginação e da sua memória nas suas paredes através da pintura (Alcalá, 1995; Baeza, 2004). Do estereotómico, o homem que de forma inconsciente começava a compreender as leis da gravidade, pensou que podia construir o tectónico, tendo surgido a cabana, tal como nos é exposto por Baeza (2004). Contrariamente ao que sucedia com a dura caverna, a cabana adquiria liberdade e permitia ao homem uma nova flexibilidade alusiva ao local e à forma da sua habitação. As memórias outrora expressas pela pintura, eram assim exteriorizadas através da capacidade criativa do homem que construía a mais primitiva arquitectura. Cada vez mais hábil e consciente das virtudes dos materiais e da luz natural que a natureza lhe oferecia, o homem começou a controlar e a dominar o espaço. O refúgio e a possibilidade de defesa que a caverna e a cabana ofereciam, com o homem culto e criador transformaram-se no habitar (Baeza, 2004). Factores tecnológicos e diferentes valores sociais ditavam assim as bases segundo as quais a habitação era concebida. Enquanto a caverna e a cabana recusavam o contacto com o mundo para lá do abrigo, o aumento da confiança e o crescente reconhecimento do valor do homem enquanto ser social fizeram surgir, ao longo dos tempos, novas prioridades e novos modos de habitar.

Neste longo e contínuo processo evolutivo a habitação foi inventada e reinventada, sofreu adaptações e inovações múltiplas para se ajustar às necessidades de cada cultura, localização geográfica e período de tempo e, da rudimentar caverna, a habitação transformou-se na máquina para viver. Esta analogia, da autoria do arquitecto Le Corbusier, influenciou a arquitectura do século XX mas, conforme é referido por Roaf (2001), está muito longe de ser verdade, pois a máquina é estática, fixa, enquanto uma habitação faz parte de um complexo sistema de interacção

entre pessoas, o próprio edifício, o clima e o meio ambiente. Para a concepção de uma habitação racional e que sirva de forma adequada as necessidades do homem contemporâneo, é fundamental a consciencialização de que é sobretudo na habitação que o homem deve encontrar o seu espaço, o ambiente criado à escala das suas necessidades e possibilidades, quer como indivíduo, quer como elemento de um grupo social (Távora, 2006).