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Diferentes papéis que o Estado assume e a proteção aos direitos humanos

No documento São Paulo - SP Março/2021 (páginas 86-88)

AMAZÔNIA LEGAL DEMAIS REGIÕES Empreendimentos lineares (exceto rodovias):

6. Considerações sobre a proteção e o respeito aos direitos humanos no Processo de tomada de decisão da BR-

6.1. Diferentes papéis que o Estado assume e a proteção aos direitos humanos

Como já mencionado, o Estado possui um papel essencial não apenas na promoção dos direitos humanos, como também na garantia do respeito aos direitos humanos no âmbito dos negócios. O caso da BR-319, especialmente o seu trecho do meio, retrata quatro papéis específicos do Estado, de: (i) prestar o serviço público diretamente, de maneira descentralizada na figura do DNIT; (ii) contratar entes privados para a realização de serviços e obras essenciais na rodovia por meio de licitações; (iii) realizar o controle e fiscalização da gestão e execução da obra por meio de órgãos como IBAMA, TCU, MPF, FUNAI; e (iv) atuar no controle e na garantia de direitos que tenham sofrido qualquer violação ou abuso por meio do Poder Judiciário.

Uma vez que o Estado é o principal sujeito das obrigações das normas e compromissos internacionais de direitos humanos, e dessa forma é o principal garantidor da efetividade do regime internacional de direitos humanos, em todos os seus papéis, atividades e funções ele deve garantir o respeito aos direitos humanos e deve “liderar pelo exemplo”, como já explicitado na subseção 2.1 (BRASIL, 2019).

Com relação a (i) prestação de serviço público de maneira direta e descentralizada, a construção do trecho do meio da rodovia BR-319 é um caso em que a titularidade do serviço e a gestão e execução da obra é da União, outorgado para o DNIT. Dessa forma, o DNIT detém capacidade de influência com relação à execução da obra, uma vez que ele possui a titularidade do serviço.

Os POs determinam a capacidade de influência como um aspecto específico da responsabilidade das empresas de respeitar os direitos humanos. Ou seja, uma empresa possui essa capacidade quando ela tem a habilidade de gerar mudanças nas práticas de outros atores a fim de prevenir ou mitigar abusos de direitos humanos, e uma vez que ela possui essa capacidade, ela deve exercê-la (UNITED NATIONS, 2014).

No entanto, outros atores, incluindo o Estado, também podem ter essa capacidade de definir e ditar padrões para a realização de serviços. Assim, o DNIT pode -e deve- exercer essa capacidade de maneira a promover o respeito aos direitos humanos e prevenir ou mitigar os impactos adversos a esses direitos no momento de planejamento e execução do serviço público, uma vez que é de sua titularidade.

Com relação à (ii) contratação de entes privados para a realização de serviços e obras

essenciais da rodovia por meio de licitações, cabe esclarecer que a contratação serve

para auxiliar no desempenho do escopo sem transferir direitos e prerrogativas sobre a obra, de modo que o DNIT permanece como seu titular.

Mundialmente, as administrações públicas são responsáveis por grande parcela da movimentação econômica de seus países, sendo o governo o principal consumidor da economia nacional. De acordo com o estudo elaborado através de cooperação técnica entre a CEPAL e o MMA, os gastos públicos dos países latino-americanos giram em torno de 24% do PIB e, no Brasil, essa parcela é de aproximadamente 20,2%218.

Diante de tamanho poder de compra dos Estados, as compras e contratações públicas devem ser encaradas como um instrumento relevante para a produção de bens e serviços que promovam o desenvolvimento sustentável, com atenção não apenas a questões econômicas, mas também socioambientais. É nesse sentido que a Lei Federal nº 12.349/2010 alterou o artigo 3º da Lei Federal nº 8.666/1993, para incluir dentre os objetivos das licitações a “promoção do desenvolvimento nacional sustentável”.

O artigo está alinhado com a meta 12.7 dos ODS, com a qual o Brasil se comprometeu para “promover práticas de contratações e gestão públicas com base em critérios de sustentabilidade, de acordo com as políticas e práticas nacionais”219. Isso não apenas no momento da contratação em si de uma licitação, como também no planejamento e na execução do contrato.

Assim, cabe ao poder público, no ato de compras e contratações, esclarecer suas expectativas com relação ao respeito aos direitos humanos por parte das empresas por meio de mecanismos como: editais de licitação com critérios de seleção e/ou exclusão de empresas do processo licitatório que observem o respeito aos direitos humanos; cláusulas e/ou códigos de conduta que versem sobre direitos humanos nos contratos celebrados com as empresas; estudos específicos para a avaliação prévia de impactos em direitos humanos gerados pela obra; dentre outros.

218 CEPAL. Compras públicas sustentáveis Diagnóstico, análise comparada e recomendações para o

aperfeiçoamento do modelo brasileiro, 2017, p. 15. Disponível em:

http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/41009/1/S1601328_pt.pdf (acesso em 07/03/2018).

Um exemplo vigente no Brasil é o Código de Conduta e de Respeito aos Direitos Humanos para Fornecedores de Bens e de Serviços do então Ministério dos Direitos Humanos220, cujo objetivo central é esclarecer o que se entende “por conduta ética, sustentável, socialmente responsável e comprometida com os direitos humanos, e aguardada das instituições e empresas com as quais o Ministério estabelece parcerias e contratos.” Além disso, o Código estabelece a expectativa de que seus dispositivos sejam estendidos para todos os parceiros comerciais, inclusive em cadeias de valor, dos contratados. No entanto, o Código não vincula os demais Ministérios do Governo Federal, sendo aplicável apenas no âmbito do Ministério que lhe promulgou.

É dizer, para além desse Código, não há normativa ou regulação que demande o respeito aos direitos humanos em contratações públicas. Os editais do DNIT apontados na subseção

No documento São Paulo - SP Março/2021 (páginas 86-88)