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4 PROCESSO DE CONCEPÇÃO DE PROJETO: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS

4.3 D ISCUSSÃO DOS R ESULTADOS

4.3.1 Diferentes Paradigmas de Processo de Projeto na Refinaria

Na concepção de situações de trabalho existem lógicas e racionalidades distintas, que segundo Lima (2005) são formas diferentes de se tratar a realidade da produção, ou seja, a abordagem que tenta dominar as variações pelo aperfeiçoamento contínuo dos modelos e a abordagem que enfatiza a capacidade de regulação das variabilidades pela atividade de trabalho.

No caso apresentado podemos identificar na Situação II a abordagem orientada pelos modelos, e na Situação I a abordagem orientada pela atividade. Na Situação II o processo de construção de projeto segue o procedimento da engenharia da empresa, com um fluxo de análise dos problemas, que são tratados no nível da gestão sob a orientação de uma visão mais técnica. Já para a Situação I existe um envolvimento maior de todos os atores na busca pela compreensão da atividade de trabalho dos operadores de descoqueamento, suas reais necessidades, as estratégias utilizadas para cumprir as exigências da tarefa e os principais constrangimentos envolvidos na situação produtiva de trabalho.

Para Lima (2005) essas abordagens referem-se, por um lado, às práticas e modelos utilizados pelos engenheiros ou organizadores, por meio dos quais se tenta controlar as variações dos sistemas produtivos, perseguindo e estimulando o aperfeiçoamento contínuo dos próprios modelos, normas e padrões; e, por outro lado, à atividade viva dos trabalhadores, os quais devem gerir quotidianamente a variabilidade das situações de trabalho. A Figura 31 apresenta essas duas abordagens.

Figura 31 - Duas formas de racionalidades operando o trabalho

Fonte: Adaptado de Lima (2005).

O autor considera que essas diferenças estão separadas por uma linha tênue sob a forma de duas racionalidades, em que sua permanência entre o campo conceito/modelo e o mundo real está na escolha do momento forte ou predominante do projeto: ou priorizam-se os modelos, abstraindo as situações reais, ou direciona-se para a atividade inscrita nas situações reais.

De acordo com as duas formas de condução de projeto apresentadas, fica claro nas verbalizações do projetista envolvido no desenvolvimento do projeto da Situação I (construção coletiva do processo) que as informações e os conteúdos das análises da atividade de trabalho do operador de descoqueamento e a participação do projetista desde a etapa de identificação do problema (demanda) permitiram que este ator entrasse em contato com os fatores que condicionavam e determinavam a atividade do operador, aspectos da atividade real que são significativos para o usuário e invisíveis diante de uma verificação superficial baseada na aplicação de um checklist.

O projeto analisado na Situação I pode ser definido como ‘projeto centrado na atividade da utilização’ (LIMA, RESENDE e VASCONCELOS, 2009), pois elencou o saber tácito dos operadores de descoqueamento, bem como as razões de seu modo operatório e os gestos realizados diante das exigências da situação de trabalho.

Já no processo de desenvolvimento de projeto sem a participação da ergonomia – Situação II, procedimento que ocorre na maioria dos projetos executados na refinaria –

existe uma construção mais técnica, de acordo com os padrões de engenharia da empresa. No entanto, os operadores são “ouvidos” quando registram a sua solicitação de mudança de ambiente de trabalho, o que, de certa forma, implica em uma participação no projeto. Diferente da Situação I, neste caso, muitas vezes, é reservado aos trabalhadores um papel de “fornecedor” de informações e não de atores participantes do processo de projeto.

Não se pretende com esta pesquisa desconstruir o paradigma de abordagem de projeto pautado na racionalidade dos modelos, mas, sim, discutir, com as duas situações estudadas, a necessidade de realizar um processo de projeto participativo, vislumbrando o que foi proposto por Maline (1994), de buscar um equilíbrio ou de encontrar diferentes formas de articulação entre a visão ascendente (bottom-up) e descendente (top-down) no cenário de transformações do estado do artefato.

A Figura 32 apresenta essas diferentes articulações entre as duas abordagens. As linhas A, B e C representam diferentes momentos em que a abordagem ascendente foi incorporada ao projeto. A linha A apresenta uma participação tardia da abordagem ascendente no projeto, já na etapa de desenvolvimento, onde as margens de manobras são reduzidas e as considerações ficam restritas e vinculadas a adaptações no posto de trabalho. A linha B revela que a abordagem ascendente teve início simultâneo ao do projeto, mas somente irá se articular com a abordagem descendente no final do desenvolvimento do projeto, o que inviabiliza as propostas de mudanças e volta-se apenas a correções pontuais, pois muitas decisões sobre o detalhamento do projeto já foram tomadas. Por fim, a linha C mostra que é possível uma construção coletiva entre os atores sociais, pois existe uma articulação entre as abordagens ascendente e descendente desde as fases preliminares do projeto. Para Maline (1994), essa combinação de abordagens permite a identificação de possíveis constrangimentos e inadequações de dispositivos técnicos na situação de trabalho, aspectos relevantes na concepção de projetos.

Figura 32 - Diferentes articulações entre abordagens descendentes e ascendentes

Fonte: Maline (1994).

Considerando-se os três tipos de articulações entre as abordagens acima citadas, foi possível verificar que a Situação I pode ser representada pela Linha C, pois desde o início do processo de intervenção ergonômica – da análise da demanda até a elaboração dos requisitos de projeto – ocorreu a interação entre os atores. A ergonomia, portanto, exerceu um papel de aproximação entre as necessidades dos usuários e projetistas, criando condições metodológicas para os atores se expressarem.

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