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Diferentes vozes nos percursos: a interdisciplinari- interdisciplinari-dade como guia para objetivos comuns

Diferentes vozes nos percursos: a interdisciplinari-dade como guia para objetivos comuns

As pesquisas do Geplec, desde seu início, utilizam diferentes fontes teóricas nos estudos. A premissa nessa ação é de que apenas uma per-cepção da realidade não é suficiente para compreendê-la. Nesse sentido, percebemos que a opção pela multiplicidade de lentes encontra apoio nos Estudos Culturais, visto que estes resultam de “[...] um cruzamento disciplinar que não é só mistura caótica mas, frequentemente, verda-deira interdisciplinaridade que procura resolver um conjunto de pro-blemas culturais através do uso de paradigmas teóricos, metodológicos e estilísticos de origem diversa” (Baptista, 2009, p. 456).

Esses cruzamentos nos levam a caminhos cada vez mais diversos, mais amplos, construindo pontes teóricas e de intervenção entre áreas, temas e disciplinas. Vertentes que seguem do local ao global. Essa

am-plitude gera a necessidade de que a cada leitura debatida no interior do grupo, assim como nos textos redigidos, haja o esforço por estabelecer pontos de articulações e aproximações com grandes áreas do conheci-mento que perpassam o fenômeno do lazer – a exemplo, planejaconheci-mento urbano, educação, geografia, sociologia, filosofia, antropologia, dentre outros – seja na sua análise teórica, vivência cotidiana, prática profis-sional, na gestão ou no processo educacional.

Em razão da intensa departamentalização que se institui no Brasil no âmbito das universidades, com a elevação de muros entre áreas, dis-ciplinas e cursos, por vezes é necessário explicitar detalhadamente as re-lações que se estabelecem entre temas inovadores, a partir de novas ideias e novas formas de perceber o mundo, caros ao Geplec, e que per-passam toda a sua produção com articulações entre educação e lazer, apropriação dos espaços públicos, direito à cidade, direito ao brincar, a formação de professores, trabalho, economia, dentre outros.

As Estratégias, nesse caso, insistem na homogeneização de temas, de forma a “encaixotar” conhecimentos e, dessa forma, impelindo pes-quisadoras e pesquisadores da área a se encaixarem também nesses mol-des. São estratégias que exigem revistas específicas de determinadas áreas, palavras-chave, títulos e resumos que evidenciem a relação de um tema ao outro. Referenciais bibliográficos alinhados a determinadas teorias, isto é, restringindo a interdisciplinaridade num local no qual ela deveria ser, sobretudo, celebrada e motivada, por tratar-se de um âmbito de formação de futuros docentes e pesquisadores que assim tam-bém poderiam ser estimulados a, na sua carreira docente, estabelecer pontes ao invés de muros.

Apesar das estratégias cercearem muitas possibilidades de conexões teóricas, o Geplec segue, entre táticas e brechas, estabelecendo movi-mentos nos entremeios das pesquisas, articulando elemovi-mentos teóricos, procurando composições frutíferas e, acima de tudo, explicando, evi-denciado e reafirmando que o cotidiano da vida é por demais complexo para que seja reduzido à visão de disciplinas específicas nas pesquisas, sem a devida cooperação entre diferentes conhecimentos, pontos de vista e lugares de fala.

Dessa forma, não nos furtamos da articulação, a partir de rigorosas leituras e metodologias científicas, de temas interconectados, como o

planejamento urbano, o urbanismo tático, a educação, o lazer, a escola-rização, a pedagogia urbana, o direito à cidade, dentre muitos outros.

Para isso, diversas disciplinas são mobilizadas a fim de olhar o mesmo contexto por diferentes lentes e imprimir nas pesquisas a interdiscipli-naridade necessária para que não restrinjamos a realidade a recortes abs-tratos que não se conectam à vida real que pulsa nas cidades.

Para exemplificar esse ideal, trazemos quatro diferentes pesquisas desenvolvidas recentemente no Grupo: dois estudos efetivados no âmbito do programa de Pós-Graduação em Educação Física da UFPR e dois no programa de Pós-Graduação em Educação da mesma instituição.

Na Educação Física, o estudo de Neca (2019) demonstrou o im-pacto do transporte público no direito à cidade para todos e todas, so-bretudo para acessar os espaços de lazer que a compõem. O foco da pesquisa foram pessoas residentes nas bordas da cidade de Curitiba, marginalizadas social e espacialmente e que, destituídas de uma política pública de subsídio na tarifa do transporte18, tiveram desde então suas possibilidades no tempo de lazer reduzidas. Já a pesquisa de Santana (2021) demonstrou que mesmo a bicicleta fazendo parte da paisagem urbana da cidade de Curitiba, “parece ainda haver a ausência de um

‘próprio’” (p. 04). Ainda assim o pedalar na cidade é possível, pois essa forma de se locomover está “mais propensa a escapar de determinadas amarras sociais” (p. 04).

No Programa de Pós-Graduação em Educação, Andrade (2020) evidenciou os não-ditos acerca das experiências lúdicas no tempo e es-paço do recreio. Além disso, mostrou a intensa mobilização nesses pe-ríodos “decorrentes das ações realizadas pela escola em parceria com as crianças, por meio de um projeto pedagógico de intervenção [...] flu-tuando entre ‘táticas’ e ‘estratégias’ para subverter os obstáculos de

di-18 “Em 2005 [...] foi implantada, em Curitiba, a política pública de lazer e transporte denominada Tarifa Domingueira (TD), que tinha por objetivo estimular o passeio via transporte coletivo pela cidade aos domingos, concedendo um desconto de cinquenta por cento no preço da tarifa convencional. Em contrapartida, em 2017

— doze anos depois e no primeiro mês de seu mandato — sob uma justificativa subjetiva de um desequilíbrio financeiro no sistema de transporte coletivo deixado por gestões anteriores, o atual prefeito de Curitiba, Rafael Greca, extinguiu a política pública TD, sem consulta popular sobre os impactos que essa extinção causaria no tempo-espaço de lazer dos usuários” (Neca, 2019, p. 18)

versas naturezas” (p. 08). Nesse mesmo Programa, a educação em espa-ços não-formais também foi tematizada. Na pesquisa de Bozza (2020) ocorreu a análise dos impactos de projetos de educação não-formal de-senvolvidos no âmbito do lazer para jovens participantes de uma ONG em Curitiba. A pesquisa concluiu que esse espaço de educação não-for-mal representava “um espaço de convivência, acolhimento e represen-tatividade [no qual] o lazer é vivenciado pelos jovens no cotidiano [...]

a partir da formalização de parcerias que oportunizam o acesso a teatros, museus, parques entre outros” (Bozza, 2020, p. 247).

Nesses exemplos, o que nos deparamos são pesquisas que, à pri-meira vista, parecem desconexas. Mas um olhar um pouco mais atento às minúcias de cada uma, isto é, com um olhar de perto e de dentro (Magnani, 2002), podemos elaborar, a partir delas, uma síntese: na es-cola, o lazer que não se insere nos documentos oficiais, por não ser ainda entendido como meio potente de educação, é vivido nas brechas cu-nhadas pelos discentes e pela gestão de diferentes instituições que a compõem.

Vale ressaltar que a aspiração por experienciar o lazer por outros meios já legitimados – como museus, parques, praças, centros culturais, esportivos, entre outros – está sempre presente nos desejos das comu-nidades pesquisadas, que se percebem cerceadas no que se refere ao acesso a diferentes espaços de lazer da cidade. Por intermédio das arti-culações conceituais, analíticas e reflexivas, concluímos que esse não acesso ocorre justamente porque as políticas de transporte não contem-plam populações em vulnerabilidade econômica, tirando-lhes inclusive uma política pública que subsidiava parte do valor da passagem nos transportes públicos aos domingos. E o uso da bicicleta, que poderia ser um meio sustentável e corporalmente diferenciado de interagir com a cidade e seus diferentes espaços ainda encontra muitas barreiras para ser efetivado. As conexões se estabelecem porque o cotidiano as conecta à vida na cidade pulsante, dentro e fora das escolas, das ONGs, por meios de diferentes formas de se locomover ou não na cidade, e por todas essas dimensões somos educados e nos educamos mutuamente.

Considerações finais: o lugar dos Estudos Culturais