5 ANÁLISE DO MODELO PROPOSTO
5.2 DIFICULDADE DA DECISÃO
A dificuldade da decisão é a variável mediadora do modelo proposto neste
estudo. A intenção da inclusão desta variável é averiguar como os aspectos afetivos da
dificuldade da decisão influem no processo decisório. De acordo com Souza (2002),
são poucos os estudos acadêmicos que procuram investigar o papel das emoções no
comportamento de adoção de produtos de tecnologia.
O efeito dessa variável foi avaliado por meio de comparações entre grupos
que apresentaram diferentes níveis de dificuldade de decisão, de modo a verificar sua
influência no processo de adoção.
5.2.1 Geração dos Indicadores da Dificuldade da Decisão
A pergunta principal a respeito dessa variável foi: “Com relação às escolhas
na telefonia celular (aparelhos e serviços), você considera a tarefa fácil ou difícil? Por
quê?” Pouco mais da metade respondeu que achava a tarefa fácil.
A seguir, são mostrados alguns extratos das entrevistas em que a tarefa foi
considerada fácil:
“Eu acho que escolher o aparelho em si é fácil. Já a operadora eu acho mais difícil, porque
não tem como saber qual o defeito de cada operadora, [como] falta de cobertura, falta de
sinal. Eu não consigo saber qual é a melhor, então acabo nivelando todas e vou pelo
preço.” (E. P., 22 anos, universitária)
“Eu acho fácil, porque quem quer comprar celular tem na Internet todos os celulares, todas
as características [dos celulares], você só não pode pegar ele, mas peso, tamanho do
celular, acho bem fácil. Não tem problema hoje em dia pra escolher e normalmente uma
loja tá do lado da outra, da concorrente, então não tem problema. [Com relação a serviço]
(...) hoje em dia a concorrência é grande, então os serviços são mais ou menos iguais. A
Vivo acabou de copiar um serviço da TIM (...) dentro de uma faixa de preços, eles [os
aparelhos] têm os mesmos serviços, mais ou menos as mesmas funções, o que muda é o
design.” (M., 19 anos, universitário)
Nota-se que para esses entrevistados a escolha do aparelho é considerada
uma tarefa fácil, pois existe a possibilidade de se fazer uma pesquisa prévia na Internet
antes de ir à loja.
Na seqüência, são mostrados alguns extratos das entrevistas em que a tarefa
foi considerada difícil:
“Difícil. Porque eu prefiro a TIM como operadora, mas os modelos da Vivo são mais
bonitos e mais baratos, na TIM é muito caro os aparelhos. E às vezes eu acho isto
complicado, porque você tem que escolher o modelo. Eu quero a TIM agora, não quero
mais ficar com a Vivo, então faz já um tempão que estou escolhendo um modelo acessível
ao preço e a meu gosto - acho complicado.” (F. G., 17 anos, universitária)
“Pra mim é difícil. Entre as operadoras, não sabia se optava entre a Vivo e a TIM, aí fui ver
os planos e acabei escolhendo a Vivo, porque a maioria das pessoas da minha família usa,
e eu achei que a cobertura era maior na época, se bem que agora tem várias concorrentes,
mas não pretendo trocar de plano por enquanto. E o modelo, eu não tenho preferência. É
claro que não vou escolher um XYZ da vida [ou seja, um qualquer], mas acho que Nokia,
LG, Motorola são marcas melhores.” (L. F., 18 anos, universitário)
Observa-se que a existência de um trade-off entre operadora e aparelho de
celular. No exemplo, a entrevistada afirmou que gostaria de mudar de operadora, mas
os aparelhos da concorrente são mais caros. Nessa situação, ou ela abre mão da
operadora preferida ou paga mais caro pelo celular.
Na seqüência, foi mostrada uma séria de cartões com diversas opções de
telefonia celular, tais como operadora, planos, tecnologia, funções, preço, marca, entre
outros. Em seguida, era solicitado que o entrevistado separasse todos os atributos que
ele consideraria na escolha de um aparelho, como em uma simulação de compra.
Depois era solicitado a escolher, entre os atributos que haviam sobrado, os que ele
considerasse como um plus, procurando simular uma promoção de a parelhos. Por fim,
ele colocava todos os cartões em ordem de importância. Os resultados podem ser
vistos na tabela 24 (item 5.3.1), onde é possível constatar que os atributos mais
importantes são o preço, design, tamanho, operadora, área de cobertura e as funções
mais básicas (mensagens, relógio, agenda, etc.).
Após a escolha dos cartões, os entrevistados foram questionados sobre a
dificuldade da decisão daquela etapa, os itens que acharam mais fáceis e os mais
difíceis de escolher. A maioria considerou a escolha do modelo em si e o design como
os itens mais difíceis. A escolha da operadora e os atributos mais básicos ficaram entre
os itens mais fáceis. Para alguns, a dificuldade se deu nos atributos que ela não
conhecia. Outros, por sua vez, simplesmente eliminavam os itens que não conheciam.
A seguir é mostrado um comentário sobre a dificuldade do processo de escolha:
“Acho que o que conta mais seria, além da operadora e da área de cobertura, tem que
funcionar bem, tem que analisar o preço. Seriam mais esse s dois, a cobertura e o preço,
fora o plano, se é pago, pré-pago, acaba caindo o preço, porque às vezes um plano
pós-pago acaba sendo mais vantajoso que um plano pré-pós-pago. O plano pré-pós-pago é pra quem
não usa tanto o celular. O que eu considero mais na escolha de um celular seriam esses
três, talvez opcional o fato de estar em promoção, acho que aí demoraria mais tempo pra
escolher, ficaria mais indeciso. Ou o fato de sair um aparelho que tem uma tecnologia nova
que seja bem mais vantajosa que a tecnologia atual.” (L. F., 18 anos, universitário)
Nota-se que a dificuldade na escolha também recai sobre a parte de serviço
(operadora e plano, por exemplo). O fato de o aparelho entrar em promoção foi citado
como um elemento que aumentaria a indecisão.
Foi questionada a importância das decisões que envolvem a escolha de
determinados atributos. A maioria enfatizou que considerava importante, pois uma
escolha errada poderia levar ao arrependimento ou insatisfação. Conforme afirmou um
dos entrevistados:
“(...) você não vai poder voltar atrás porque faltou determinado [atributo]. Hoje eu vejo a
maior necessidade de você pensar naquilo que você vai comprar com um pouco mais de
carinho, porque quando eu comprei meu celular, eu comprei mais por um impulso, pela
vontade de ter um celular novo, não fiquei assim pensando [muito]. Tinha umas três coisas
que eu queria assim, mas não pensei na possibilidade de necessitar de um despertador, e
hoje eu necessito, eu acho importante.” (A. J., 24 anos, universitário)
A maioria também afirmou que esta situação de escolha não é estressante.
Pelo contrário, muitos afirmaram gostar do processo de compra, conforme uma das
entrevistadas declarou:
“Não é estressante. Acho legal ir até a loja e ver isso. Entro em sites [da Internet] (...)
Procuro ver o que é melhor pra mim, não fico me estressando demais, porque qualquer
coisa troca, vende o celular. Não é uma coisa pra se pensar demais.” (T. G., 21 anos,
universitária)
Segundo Luce, Payne e Bettman (1999), os trade-offs dos consumidores
podem ser qualitativamente diferente uns dos outros e que essas diferenças têm um
impacto significativo no que diz respeito a padrões de escolha. Os resultados da
pesquisa qualitativa demonstraram que esta afirmação é verdadeira, onde alguns
entrevistados, ao optar entre os atributos oferecidos, deixavam de lado os que não
conheciam. Outros entrevistados, por sua vez, partiram do preço e somente então é que
buscaram pelas características desejadas. Além disso, a maioria afirmou que a
dificuldade da decisão influenciaria na decisão de compra de um celular. Entretanto,
esta influência varia. Alguns entrevistados afirmaram que poderiam ficar arrependidos
por uma eventual compra errada, outros afirmaram que postergariam a compra até
No documento
A ADOÇÃO DE INOVAÇÕES EM PRODUTOS DE ALTA TECNOLOGIA PELOS JOVENS: O CASO DO TELEFONE CELULAR
(páginas 197-200)