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2.1.9 Dificuldade de acesso aos medicamentos

Tem-se verificado, nos últimos anos, um aumento da dificuldade por parte das farmácias de aceder aos medicamentos.

Segundo dados apurados pela ANF, num levantamento que abrangeu 50% das farmácias portuguesas, só na primeira quinzena de Setembro de 2013, as farmácias não conseguiram adquirir 2.329.168 embalagens de medicamentos, relativamente a 8.970 apresentações de medicamentos. O TOP 20 dos medicamentos cujas dificuldades de aquisição foram mais reportadas compreende medicamentos de marca e medicamentos genéricos (ANF, 2013b).

Analisando exclusivamente os medicamentos genéricos, as farmácias não conseguiram adquirir 487.663 embalagens de medicamentos, relativamente a 4.822 apresentações. Dos 20 medicamentos cujas dificuldades de aquisição foram mais reportadas, 60% têm um dos 5 preços mais baratos (ANF, 2013b).

Finalmente, 2.829 apresentações de medicamentos genéricos em grupo homogéneo (40% do universo total em grupo homogéneo) não foram fornecidas pela indústria ao mercado. Destas, 1.534 (54,2%) encontravam-se entre os medicamentos com os 5 preços mais baixos, em cada grupo homogéneo (ANF, 2013b).

Estas falhas de abastecimento e a consequente dificuldade no acesso ao medicamento que daí resulta, afetam principalmente os doentes, uma vez que resultam muitas vezes no abandono ou redução da adesão terapêutica por parte dos mesmos.

Num estudo encomendado pela Apifarma à Deloitte Consultores, intitulado “Caracterização e valorização do (des)abastecimento do mercado farmacêutico nacional”,

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são fornecidos dados interessantes que ajudam a compreender melhor o real impacto das falhas no abastecimento das farmácias.

Segundo este estudo, dos 671 utentes inquiridos que se deslocaram à farmácia, 301 (cerca de 45%) não conseguiram adquirir todos os medicamentos que pretendiam e 10% dos utentes indicaram que tiveram falhas na aquisição de medicamentos frequentemente ou muito frequentemente (APIFARMA, 2012).

Mas o impacto não se fica só pelos doentes. Este “(des)abastecimento” do mercado nacional afeta também as farmácias. Nomeadamente, através da redução da margem de negócio, porque compram diretamente ao laboratório em vez de comprar ao armazenista; há uma maior dificuldade em gerir a relação com o utente que, em última instância, pode resultar na perda de clientes por não conseguirem obter a medicação solicitada e há um aumento da entropia na aquisição de fármacos pela necessidade de contactar diversos interlocutores (APIFARMA, 2012).

Um dos motivos que vem sendo apontado como causador das dificuldades na cadeia de abastecimento do medicamento é a exportação paralela.

Em países como a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda ou a Dinamarca, que representam, no seu conjunto, 63% do total de exportações portuguesas de medicamentos para a UE, a média dos preços praticados no mercado dos medicamentos chega a ser o dobro da média em Portugal. Esta diferença de preços faz com que a exportação de medicamentos seja mais atrativa para os distribuidores do que o abastecimento do mercado nacional. Resumindo, os distribuidores paralelos compram produtos comercializados pelo fabricante original a um preço inferior num país para depois vendê- los noutro país a um preço mais elevado (APIFARMA, 2012). A forma como isto se processa vem ilustrado no quadro 5.

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Fonte: Análise Deloitte, 2012

Quadro 5 – Funcionamento do comércio paralelo de medicamentos em Portugal e nos países importadores

Ainda segundo os dados do estudo encomendado pela APIFARMA, a exportação paralela em Portugal está a aumentar em quantidade (ver Gráfico 8), tendo totalizado, em termos de valor, no final do ano de 2011, cerca de 73 milhões de euros (ver gráfico 9).

Fonte: Análise Deloitte, 2012

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Nota: - Exportação paralela em PVP, sem IVA;

- Exportação paralela (Gap sell in) é a diferença entre as vendas ex-factory e as vendas sell in (stock constante) - Considerando o Direct to pharmacy a exportação paralela em 2011, aumentaria 18,6M€ totalizando 92M€

Fonte: Análise Deloitte, 2012

Gráfico 9 – Exportação paralela de medicamentos para a UE, em PVP

De facto, de forma a compreender melhor a dimensão dos ganhos que a exportação paralela pode trazer aos armazenistas face ao abastecimento do mercado nacional, vale a pena traduzir esta diferença em números. Uma margem do armazenista de 5 milhões de euros no mercado nacional pode corresponder a 36 milhões de euros no mercado de exportação paralela (APIFARMA, 2012).

Todavia, o que faz com que o comércio paralelo de medicamentos entre Estados membros da UE seja possível é o facto de este se encontrar enquadrado no artigo 28.º CE, que proíbe restrições quantitativas às importações de outros Estados membro, o que permitiu a criação de um mercado farmacêutico único europeu (APIFARMA, 2012). Desta forma, torna-se mais difícil criar medidas que possam mitigar as falhas de abastecimento.

Atualmente, as medidas existentes em Portugal neste âmbito são a imposição de um stock mínimo aos armazenistas e às farmácias e a imposição de coimas relativas à não disponibilização de medicamentos. No entanto, estas medidas não só não são suficientes, como nem sequer são adequadas, uma vez que os armazenistas não têm capacidade para constituir stock de todos os produtos, em conformidade com a norma e o valor das coimas aplicadas pela não disponibilização dos medicamentos é muito reduzido, não funcionando como desincentivo relativamente à exportação paralela (APIFARMA, 2012).

No sentido de contrariar esta tendência, o Governo tem estudado a possibilidade de aumentar significativamente as coimas aos distribuidores do setor do medicamento

Mil h õ es d e eu ro s

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(farmácias e grossistas) que privilegiem as exportações sem antes suprirem as necessidades do mercado nacional.

Um outro motivo para as falhas de abastecimento que se têm verificado, e que tem vindo a ganhar uma importância crescente, prende-se com a própria Indústria farmacêutica deixar de fornecer alguns medicamentos para Portugal por serem pouco lucrativos. As reduções de preços que foram efetuadas nos últimos anos em Portugal fizeram com que os medicamentos atingissem um preço tão baixo que se chega a pôr a questão se compensa vender medicamentos para Portugal. Uma vez que o mercado português é considerado um mercado pequeno no contexto global, por vezes não compensa à indústria farmacêutica vender para Portugal aos preços que o estado está disposto a pagar atualmente. Além disso, vendendo medicamentos a um preço inferior ao que acontece com outros países, está a criar uma desigualdade de circunstâncias no mercado que pode levar esses países a exigir preços igualmente baixos.

Neste caso específico, o Ministro da Saúde, Dr. Paulo Macedo (cit in Público 2013) esclarece: “…se for caso disso, a tutela irá interpelar os laboratórios e atuar pontualmente para suprir as falhas de mercado". O ministro adiantou, a este propósito, que o INFARMED já pediu ao laboratório militar para produzir dois novos medicamentos. Acrescentando: "Tivemos oferta de vários laboratórios nacionais para produzirem medicamentos sob licença" (Macedo cit in Público 2013).

Apesar de não existir um consenso entre os diferentes intervenientes da cadeia de abastecimento do medicamento relativamente à solução ideal para a resolução do problema das falhas no abastecimento das farmácias, existem uma série de medidas em discussão na UE que tem vindo a ser analisadas e, em alguns países, já começam a ser implementadas. Estas medidas estão representadas no quadro 6 (APIFARMA, 2012).

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Fonte: Análise Deloitte, 2012

Quadro 6 – Medidas em discussão na UE para mitigar as falhas de abastecimento do mercado farmacêutico