4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.3 CONDIÇÕES QUE TORNAM O FUTEBOL BRASILEIRO SUSCETÍVEL À
4.3.4 Dificuldade para investigar e aplicar punições
A dificuldade para realizar investigações e punir as pessoas envolvidas nas manipulações de resultados no Brasil é outro fator de suscetibilidade a essas
práticas. Para Aquilina e Chetcuti (2013), é necessária maior proatividade por parte das forças policiais, pois são elas que possuem condições técnicas e poderes legais para investigar tais práticas. Em países como o Brasil, todavia, que possui sistema criminal sobrecarregado – apenas 27% de todos os processos judiciais que tramitaram entre 2009 e 2016 foram solucionados (EXAME, 2017) - e onde o conhecimento sobre o assunto é pouco difundido, cria-se uma barreira para que isso ocorra:
“(...) as autoridades públicas pouco se importam com esse assunto. O cobertor é curto. A gente sabe que os problemas no Brasil, em termos criminais, são muitos em muitas áreas. A gente lida com altos números de homicídios, tráfico de drogas, vários problemas. Infelizmente, a manipulação de resultados não é observada pelo poder público como prioridade (...)” (CIF);
“(...) há total ausência das instituições oficiais na investigação e repressão às máfias que surgem para manipular resultados envolvendo apostas. Não temos uma atuação sistemática das forças policiais, o que facilita a atuação dos larápios. Se tivermos isso, com certeza afastaremos aos poucos os ladrões do futebol (...)” (SEN); “(...) a investigação é muito complexa. Ela envolve quebra de sigilo telefônico, cruzamento de dados, quebra de sigilo bancário. Você apurar de onde saiu, para onde foi o dinheiro. O Estado tem que pensar nisso urgentemente. Eu só não sei como fazer porque nós temos uma deficiência de material humano (...)” (PMP).
Para Forrest (2008), o principal fator para predizer quando uma partida de futebol é mais suscetível à manipulação é que o valor dos ganhos com a manipulação do resultado deve ser superior aos riscos de detecção da fraude. Tais riscos incluem: consequências penais (prisão ou processos judiciais); banimento do esporte e; perda de premiações financeiras, de patrocinadores e de receitas em contratos futuros. De acordo com Brooks et al (2012) e Brasseur (2012), para que haja mudança no cenário da manipulação de resultados no futebol é fundamental que entidades esportivas e governos nacionais punam severamente aqueles que forem contra suas regulações. Devido ao fato das entidades esportivas terem sua autonomia garantida em relação aos governos, as punções podem ser divididas em dois âmbitos: esportivo e criminal.
“(...) tu vai perder duas coisas que te movem na vida: tua liberdade, tu vai ter restrição dela através de uma pena criminal; e tua atividade profissional, que é o teu banimento do esporte (...)” (DIF).
No âmbito esportivo, a adoção de políticas de tolerância zero por parte das entidades esportivas em casos de corrupção é necessidade latente no futebol (ICSS, 2014). Exemplo disso ocorre na UEFA, que bane do futebol quem participa da manipulação de resultados. No Brasil, o STJD vem adotando prática semelhante. No caso envolvendo a equipe do Rio Branco-PR, por exemplo, houve o banimento do atleta Thiaguinho, responsável por levar a proposta de manipulação para seus colegas de elenco. Na opinião de todos os entrevistados a adoção de medidas punitivas severas é essencial no combate à manipulação de resultados no futebol brasileiro, como ilustrado nas passagens abaixo:
“(...) se não houver punição, isso passa a ser um estimulante para aquela pessoa que quer tirar proveito do futebol dessa forma: “Se descobrirem, vai ficar por isso mesmo”. O atleta que está sensível no momento também pode achar que “não dá nada” e aí aumentar o número de atletas envolvidos nisso (...)” (TR1);
“(...) se você bane o profissional, você o mata. Porque a única coisa que ele sabe fazer, até então, é jogar. Ou seja, você o matou, é uma pena de morte. Se você levar para o lado esportista, é o maior crime que existe. (...)” (AT1);
“(...) eu acho que para a gente cultivar a ideia da integridade temos que ter uma lei firme e que possa mandar o recado de que quem manipula resultado vai ser severamente punido (...)” (CIF).
No âmbito penal, o fato da manipulação de resultados ter se tornado crime no Brasil, a partir de 2010, pode ser considerado um avanço importante. Com a criação do artigo 41-C no Estatuto do Torcedor haverá pena de 2 a 6 anos de reclusão para quem “solicitar ou aceitar, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vantagem patrimonial ou não patrimonial para qualquer ato ou omissão destinado a alterar ou falsear o resultado de competição esportiva ou evento a ela associado”. Devido à recente criminalização dessa prática, os responsáveis por manipulação de resultados no Campeonato Brasileiro de futebol de 2005, por exemplo, estão em liberdade. Assim como no Brasil, países como Grécia, Suécia, Nova Zelândia e Noruega também tornaram a manipulação de resultados esportivos crime (TAK et al, 2018). A importância dessa medida foi citada pelos entrevistados abaixo:
“(...) se qualquer um dos agentes não sentir a possibilidade da punição, eles vão fazer com bastante frequência. E se eles virem outros agentes serem detectados e nada acontecer, também vai aumentar a propensão de fazerem isso no futuro. Isso é, filosoficamente, muito parecido com qualquer outro crime: se você
não tem punição para uma atividade indevida, tem poucas chances de ver um elemento mal-educado, mal instruído, mal-intencionado, não fazer a ação indevida (...)” (DEM);
“(...) tu acaba desencorajando qualquer outro que possa pensar em manipular. é uma maneira de mostrar publicamente que a manipulação não será tolerada (...)” (AT2).
É necessário que ocorra um trabalho cooperativo entre Estado, entidades esportivas e empresas de monitoramento, principalmente devido à complexidade das investigações. Dentro desse contexto de maior rigor nas punições, mas de dificuldade de investigação, novamente se mostra necessária a existência dos já mencionados departamentos de integridade. Tais órgãos devem ser capazes de identificar possíveis casos de manipulação de resultados e de implementar canais de comunicação com os diferentes stakeholders responsáveis pelo combate a esse crime. Esses stakeholders, por sua vez, devem manter os departamentos de integridade informados sobre suas investigações, desenvolvendo fluxo constante de informações. Isso poderá resultar na criação de uma cultura de combate às práticas fraudulentas. Unir esforços para detectar casos de manipulação de resultados e punir com rigor os infratores parecem ser as soluções mais adequadas para superar esse problema. Essa importância é sustentada nas falas de três entrevistados abaixo:
“(...) é um processo estruturante. Não é só escutar denúncia e punir. Condenar é parte do trabalho do Ministério Público, da polícia, A entidade esportiva não tem esse poder. Ela tem o poder de identificar e criar esse caminho. Estabelecer um canal de comunicação entre as partes, criar canais e processos (...)” (CIC);
“(...) talvez seja o caso de entidades organizadoras, a própria CBF, fazerem um convênio com o poder público para que criar um laboratório de acompanhamento, investigação e punição nesses casos (...)” (PMP);
“(...) lamentavelmente muitos dirigentes ainda pensam que a manipulação de resultados é um caso de polícia. Na verdade é de política de integridade. São engrenagens de um todo que é a integridade (...)” (TJD).
Algumas entidades privadas, como a Liga Espanhola de Futebol, por exemplo, possuem setores totalmente dedicados a questões de integridade no esporte, especialmente no desenvolvimento de mecanismos de inteligência e de investigação de possíveis casos de manipulação de resultado, auxiliando as
autoridades competentes. Já na Austrália, o governo nacional desenvolveu o programa National Policy on Match-fixing in Sports com o objetivo de prevenir a manipulação de resultados através do estabelecimento de canais de comunicação entre entidades esportivas, operadores de apostas, forças policiais e Governo. Para adequarem-se aos critérios de integridade definidos nacionalmente, todas as entidades esportivas do país receberam fundos governamentais (NATIONAL INTEGRITY OF SPORT UNIT, 2015).