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No curso da evolução das concepções relativas às dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita, identificam-se diferentes hipóteses explicativas baseadas nas teorias, modelos de reconhecimento de palavras e métodos de ensino vigentes. Bryant e Bradley (1987) relatam que muitos déficits já foram sugeridos, mas com o passar dos anos, essas sugestões têm se modificado. A natureza dos distúrbios subjacentes a problemas de leitura e escrita tem sido objeto de estudos de uma série de teorias, sendo a Hipótese do Déficit Visual uma das mais antigas (Ajuriaguerra, 1953; Orton, 1937). Esta idéia é oriunda da primeira parte deste século. Hinshelwood, oftalmologista escocês, propôs em 1917 que os problemas com a aprendizagem da leitura eram causados por uma dificuldade em adquirir e armazenar no cérebro as memórias visuais das palavras e letras. Segundo esta teoria, os problemas de leitura e escrita devem-se principalmente a dificuldades com o processamento de padrões visuais. Tal hipótese dominou as pesquisas entre as décadas de 1920 e 1970. Entretanto, a partir dos anos 70, começaram a se acumular evidências negativas sobre a primazia do envolvimento do processamento visual nos problemas de leitura, ao mesmo tempo em que uma nova série de estudos começou a revelar a importância do processamento fonológico para a aquisição da linguagem escrita (Vellutino, 1979, 1993).

A década de 1970 marcou a substituição da Hipótese do Déficit Visual pela Hipótese do Déficit Fonológico. Esta hipótese foi corroborada por um crescente número de pesquisas demonstrando que dificuldades fonológicas (com a percepção e o processamento

automáticos da fala) e metafonológicas (com a análise e a manipulação intencionais da fala) são capazes de predizer dificuldades ulteriores na aprendizagem da leitura e escrita. Além disso, procedimentos de intervenção voltados ao desenvolvimento de habilidades metafonológicas, especialmente procedimentos para desenvolver a consciência fonológica, são capazes de produzir ganhos quanto à decodificação, compreensão e produção que são importantes em leitura e escrita (Bradley & Bryant, 1983; Capovilla, 1999; Capovilla & Capovilla, 2003).

A nova hipótese sugeria o envolvimento dos distúrbios fonológicos em uma série de dificuldades características dos maus leitores como, por exemplo, o rebaixamento de desempenho nos subtestes de Dígitos (Repetição de Números), Informação, Código e Aritmética. Tal perfil clássico já vinha sendo apontado como característico dos maus leitores (Sattler, 1988), embora os processos subjacentes ainda fossem obscuros. De fato, segundo Nicolson e Fawcett (1994), distúrbios fonológicos poderiam explicar o rebaixamento nos subtestes de Dígitos e de Informação. Enquanto o primeiro seria decorrente de um distúrbio no armazenamento fonológico em virtude das deficiências nas representações lexicais (Elbro, 1998), o segundo seria em consequência de um vocabulário pobre e de dificuldades em extrair informações do texto.

Assim, conforme descrito até o momento, observa-se que a partir da década de 1970 diversas pesquisas realizadas no campo da Psicologia Cognitiva têm buscado compreender os processamentos cognitivos subjacentes aos processos de leitura e escrita (Pinheiro, 1994).

Dentre as diferentes abordagens para a investigação das causas subjacentes às dificuldades de leitura e escrita, optou-se por contextualizar as hipóteses dentro do modelo dos cinco fatores de Morton-Frith (1995) que fornece um quadro robusto no qual diferentes desordens do desenvolvimento e do funcionamento cognitivo, desde, por exemplo o autismo até a dislexia, descrita por estes autores, como uma dificuldade específica da leitura, podem ser delineadas. Este quadro é recomendado na literatura (Smythe & Everatt, 2000; Pinheiro, 1994) porque fornece uma base na qual pode ser representada a interdependência entre o funcionamento biológico, o processamento cognitivo, o comportamento e as influências ambientais.

O modelo de Morton-Frith (1995) foi proposto como um quadro dentro do qual são considerados vários aspectos das desordens do desenvolvimento e fornece um quadro efetivo para a comparação de diferentes hipóteses causais (Smythe & Everatt, 2000). O quadro contém basicamente os seguintes fatores: Biológico, Cognitivo, Comportamental e Ambiental.

O nível biológico contém fatores tais como predisposição genética e diferenças estruturais no cérebro. O nível cognitivo refere-se ao processamento das informações, enquanto que o nível comportamental sugere os comportamentos mensuráveis do funcionamento cognitivo. As influências ambientais podem incluir o método de ensino, a motivação e aspectos culturais (Morton & Frith, 1995).

Cada um desses componentes irá influenciar a aquisição das habilidades de leitura e escrita. Embora as diferenças biológicas possam ser medidas através de vários métodos invasivos e não-invasivos disponíveis da medicina, suas influências no comportamento podem ser indicadas através do funcionamento cognitivo. A avaliação cognitiva, portanto, envolve tarefas para a medição ao nível do comportamento. Qualquer teste utilizado a este nível, a leitura de palavras, por exemplo, pode ser considerado uma função da soma de vários fatores cognitivos cada um com seu próprio funcionamento. Uma vez que cada medida do comportamento requer uma combinação única de processos cognitivos, pelo uso de várias medidas na investigação de qualquer função cognitiva, espera-se ser possível verificar onde se encontram as forças e fraquezas (Morton &Frith, 1995).

Os estudos no campo de pesquisa das dificuldades de leitura e escrita descritos nas seções anteriores, conduziram os pesquisadores da Universidade de Surrey, na Inglaterra, ao desenvolvimento deste modelo que delineia estas dificuldades dentro de alguns módulos cognitivos importantes para a investigação das dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita (Smythe e Everatt, 2000):

Tabela 1 - Módulos cognitivos dispostos no modelo e habilidades cognitivas constituintes (continua).

Processamento fonológico Habilidades metalinguísticas Memória fonológica

processamento

Processamento auditivo Discriminação fonêmica

Memória direta e inversa de dígitos Ritmo

Processamento visual Cópia de formas

Memória visual de formas

Todas as teorias e modelos discutidos nas seções anteriores relatam uma ou mais destas áreas. Este quadro oferece não apenas uma estruturação que pode contribuir com o entendimento das dificuldades do indivíduo com as habilidades de leitura e escrita, mas também provê um quadro para o desenvolvimento de um protocolo para a avaliação de déficits cognitivos subjacentes às dificuldades em referência em diferentes línguas.

O modelo de Morton-Frith dispõe de uma representação visual para demonstrar a correlação entre os processos cognitivos e os comportamentos, particularmente importante no processo de avaliação da leitura e escrita. A figura 2 apresenta esta esquematização do modelo.

Figura 2. Representação visual do modelo de Morton-Frith (1995)

Conforme ilustrado na Figura 2, as áreas cognitivas ou módulos – processamento fonológico, auditivo e visual – estão localizadas na faixa dos fatores cognitivos. Influências ambientais, tais como a linguagem, método de ensino, aspectos intra-pessoais, como, por exemplo, a motivação, influências sócio-econômicas e cultura são encontrados na seção

O U T R O S F A T O R E S BIOLÓGICO TEORIAS BIOLÓGICAS COGNITIVO COMPORTAMENTAL Acesso ao léxico Processamento

visual Processamento auditivo Memória de curto prazo Consciência fonológica Escrita Leitura INTRA- PESSOAL ENSINO LINGUAGEM SÓCIO- ECONÔMICO CULTURA

referente a ´outros fatores´. Os comportamentos, isto é, os escores produzidos nas tarefas dadas ao indivíduo, são indicados nomeadamente como ´leitura´ e ´escrita´.

Pinheiro (1995), a respeito do modelo, observa que as dificuldades observadas na aprendizagem da leitura e da escrita e o fraco desempenho nos testes de leitura e de escrita pertencem ao nível do comportamento, enquanto as causas subjacentes a esse desempenho estão situadas no nível cognitivo - que também inclui fatores emocionais – e o nível biológico refere-se a observações e fatos relacionados ao cérebro.

Assim, segundo Morton e Frith (1995), as dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita são alterações no desenvolvimento que podem, por exemplo, ser explicadas a partir de uma origem biológica, que causaria um déficit cognitivo, o qual, por sua vez, resultaria em um padrão particular de comportamento: alteração cerebral  à déficit cognitivo  à sinais de comportamento. As influências ambientais são vistas como atuantes em todos esses três níveis.

Ressalte-se que Morton e Frith (1995) explicam que os déficits cognitivos devem ser separados do comportamento porque podem somente ser inferidos, a partir deste, por não estar claro em que, exatamente, consistem.

Em síntese, estes autores mostram que os três níveis que propõem podem ser bem independentes um do outro: um déficit cognitivo pode originar-se, ou não, de fatores biológicos e, em certas circunstâncias, não se manifestar no comportamento, enquanto algumas crianças, por serem protegidas por seu ambiente, podem não mostrar deficiências que, em circunstâncias menos favoráveis, certamente mostrariam e, por outro lado, enfatizam existirem crianças que se saem muito mal nos testes de leitura - por uma variedade de razões. Estas questões devem ser consideradas com cautela no procedimento de avaliação.

3 MÉTODO