4. Dificuldades para a implantação de PCHs 43
4.1.1. Dificuldades dos estudos de engenharia 43
Os estudos de engenharia pré-implantação do empreendimento são analisados pela ANEEL. Conforme a legislação do setor, os estudos necessários são o Inventário Hidrelétrico e o Projeto Básico. O primeiro é um estudo de uma bacia, rio ou trecho de rio, que visa identificar os locais com aptidão para implantação de aproveitamentos hidrelétricos; enquanto o segundo é um projeto de somente um aproveitamento, detalhando os aspectos topográficos, geológicos/geotécnicos, hidrológicos, energéticos e de engenharia do referido aproveitamento. A primeira dificuldade para a realização de um inventário, considerando que se disponha dos recursos financeiros necessários para a empreitada, é encontrar um curso d’água com quedas e vazões que sinalizem a vocação energética da bacia. Essa já não é uma tarefa fácil, pois as fontes de dados para a avaliação desses dois aspectos (topografia e hidrologia) estão longe do ideal no Brasil. O mapeamento sistemático nacional é em escala pequena para este fim (1:50.000 e 1:100.000 na maioria do território nacional) além de ser desatualizado, com mais de 30 anos de idade. Já a rede hidrometeorológica nacional está aquém do
recomendado pela Organização Meteolorógica Mundial (WMO, no original), além de ser operada de forma instável, o que faz com que algumas bacias não disponham de dados ou que os dados disponíveis apresentem falhas ou longos períodos sem dados. Contudo, essas dificuldades, técnicas por natureza, são superadas de forma relativamente fácil com a contratação de levantamentos aerofotogramétricos, topográficos, hidrométricos e hidrológicos. O mesmo se aplica à geologia/geotecnia. Contudo, isso resulta em maiores custos para o empreendedor, o que poderia, em teoria, diminuir a atratividade do inventário hidrelétrico. Iniciativas já foram tomadas nesse sentido, como a prioridade da outorga para o agente que realizar o inventário. E no quesito técnico, o Brasil, por sua larga experiência e tradição na implantação de hidrelétricas, não sofre com falta de mão de obra qualificada.
A dificuldade institucional, por outro lado, tem sido o grande empecilho para a realização dos inventários hidrelétricos, além, obviamente, dos custos. Os passos institucionais de um inventário são, resumidamente:
Identificação do potencial, Solicitação de registro ativo, Efetivação do registro ativo, Elaboração do inventário, Aceite técnico,
Análise, Aprovação, e
Publicação de Despacho.
Voltando à análise da Figura 3 (cap. 2), nota-se que da totalidade das etapas, somente três delas – a identificação do potencial, a solicitação do registro e a elaboração do inventário – cabem ao agente interessado. O problema aí se encontra na falta de celeridade da agência em cumprir as etapas que lhe cabem. Entre a solicitação e a efetivação do registro ativo, por exemplo, não são raros casos em que transcorreram mais de três meses. Já desde a entrega dos estudos de inventário até o aceite técnico – cuja “avaliação” é pouco mais que uma conferência entre os sumários dos estudos e o checklist da agência – há casos de mais de seis meses. Já a análise propriamente dita depende da lista de prioridades da agência, e absolutamente não tem prazo, uma vez que a lista de prioridades é revista periodicamente, permitindo a um inventário com maior adequação aos critérios de prioridade passar a frente de outro que se encontra lá há mais tempo. Caso não houvesse concorrência, e a oferta de energia no país fosse suficiente para suprir a demanda, não haveria problema com a demora
na análise dos projetos, porém este não é o caso. Nesse ínterim, vale acrescentar que a crescente participação de fontes térmicas na matriz elétrica é, por si só, sintomática de problemas com o processo de autorização de hidrelétricas, a saber: 1) falta de investimento, 2) falta de potencial ou 3) demora nos processos das hidrelétricas. Como o investimento encontra-se abundante no setor; e o potencial existe, somente pode-se supor que há algum aspecto institucional que não está funcionando a contento.
Nos casos de concorrência em inventários hidrelétricos, o prazo de 120 dias para que todos os concorrentes entreguem seus inventários começa a contar a partir da data do aceite do primeiro inventário. Isso significa que mesmo que um empreendedor invista nos estudos de forma pioneira, para garantir a exclusividade do potencial que descobriu, os prazos (ou a falta deles) por parte da ANEEL permitem que um concorrente que pediu o registro ativo meses após o primeiro empreendedor tenha o tempo suficiente para realizar seu estudo e competir em condições iguais com aquele que primeiro investiu no potencial. Isso é possível por uma conjunção de dois fatores: 1) A publicação da efetivação do registro ativo no Diário Oficial da União, e 2) A demora da agência em anuir com o aceite técnico. O primeiro fator, a publicação do registro ativo, é benéfico para a sociedade, pois permite a todos, inclusive a população local, que saiba que determinado curso d’água encontra-se em estudo por um agente de geração. Porém, permite a agentes que não investem na prospecção de novos potenciais que se aproveitem dos recursos gastos por outros para entrarem em concorrências, sabendo que a demora da agência lhes dará o tempo necessário para realizarem os estudos. Mesmo que o primeiro agente esteja com o estudo pronto quando o registro ativo for efetivado, a demora de 4 a 5 meses da agência para anuir com o aceite técnico, somada ao prazo de 120 dias para que os demais agentes entreguem seus estudos já permite que a concorrência consiga fazer seus próprios estudos.
Supondo que dois ou mais interessados recebam o aceite técnico, entra em cena a questão do desempate e seleção do estudo de inventário a ser aprovado. Os critérios de desempate são definidos pela Resolução ANEEL 398/2001, e são, resumidamente:
Estudos de dimensionamento, Estudos hidrometeorológicos,
Investigações e estudos geológicos/geotécnicos, Cartografia e topografia,
Estudos ambientais,
Estudos sedimentológicos.
Como explicitado anteriormente nesse texto, os critérios acima se encontram em ordem decrescente de peso. Ou seja, os estudos de dimensionamento tem a maior importância relativa, e os estudos sedimentológicos, a menor.
Seguindo a lógica, em caso de concorrência a análise é mais demorada que casos onde existe somente um agente interessado no estudo. O prazo de análise não é somente aumentado de forma proporcional ao número de concorrentes (dois concorrentes, o dobro do prazo etc.), como o estudo de inventário ainda é prejudicado pelo tempo em que o primeiro agente a entregar seu estudo ainda tem que aguardar pelos demais até que a agência possa iniciar a análise.
A demora da análise dos estudos de inventário causa ainda transtornos aos agentes, que pela incerteza sobre qual inventário será aprovado (grande parte dos inventários registrados após a Resolução ANEEL 343/2008 é objeto de concorrência) não desenvolvem os estudos de Projeto Básico, e se os desenvolvem, o fazem somente para os aproveitamentos que se enquadrem dentro dos 40% de reserva a que o agente responsável pelo inventário tem prioridade. Contudo, a lógica reversa do agente é a seguinte: é necessário que o inventário apresente 40% de usinas viáveis (conhecidas no jargão do setor como “filés”), as quais serão apresentadas como preferenciais pelo agente, “garantindo” assim suas usinas. O resto do potencial do rio pode ser então preenchido com usinas inviáveis financeira ou ambientalmente, para que nos critérios de desempate, a potência total inventariada garanta ao empreendedor a vitória na concorrência. Note-se que, usando um exemplo simples, na comparação entre dois inventários, um com 80 MW de potência total, mas toda ela viável ambientalmente (inventário “A”), e um inventário com 100 MW de potência, mas somente 40 MW viáveis ambientalmente (inventário “B”), a tendência é que o inventário A seja preterido em relação ao inventário B, por conta do critério de “aproveitamento ótimo” do curso d’água preconizado no Manual de Inventário Hidrelétrico, bem como na legislação setorial.
Já no Projeto Básico, não ocorrem grandes disputas, já que em termos ambientais, pouco pode ser feito para minimizar ou maximizar os impactos, uma vez que os níveis operacionais são definidos no inventário hidrelétrico, e a grande parte dos impactos ambientais é derivada dos níveis operacionais. O Projeto Básico é, essencialmente, um trabalho técnico, e como tal, a disputa entre concorrentes é técnica, o que não o isenta dos problemas advindos da demora na análise dos processos pela agência reguladora. Todos os problemas institucionais citados no caso dos inventários são aplicáveis aos projetos básicos. Contudo, novos problemas surgem nessa fase.
Como o término do processo de tramitação do Projeto Básico na ANEEL é a concessão da outorga de geração de energia, a agência solicita do empreendedor que comprove, para tal, a viabilidade ambiental do empreendimento, por meio das licenças ambientais. Entretanto, não são raros entre os profissionais do setor relatos de órgãos ambientais estaduais que solicitaram o despacho de aprovação do Projeto Básico como um documento necessário para emissão da Licença Ambiental Prévia (LAP), ao mesmo tempo que a ANEEL requeria ao empreendedor a LAP para publicar a aprovação do Projeto Básico.