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1. Causas do acolhimento institucional: trata dos motivos que levam ao acolhimento institucional;

As razões que determinam o acolhimento institucional são variadas e envolvem um conjunto amplo de violações dos direitos fundamentais, vinculadas à falta de condições adequadas de vida e à fragilidade sócio-econômica das famílias que têm membros acolhidos.

Para Cavalcante, Magalhães e Pontes (2009) o abrigamento é explicado pelo agravamento de problemas estruturais da sociedade brasileira e pelos desafios impostos às famílias na contemporaneidade. Para Nascimento e Scheinvar (2005) a generalização do processo de exclusão decorrente do modo de produção capitalista causa impactos nas possibilidades de suporte das redes sociais primárias, como a família e a comunidade.

Gontijo e Medeiros (2008) verificaram que adolescentes que viveram nas ruas e passaram por instituições de acolhimento são provenientes de famílias marcadas pelo processo de exclusão social. De fato, diversas pesquisas apontam a pobreza ou as adversidades sócio-econômicas das famílias como fator determinante para o abrigamento, tanto na realidade brasileira (ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001; VECTORE e CARVALHO, 2008; SILVA e NUNES, 2004; NOGUEIRA e COSTA, 2005; AZÔR e VECTORE, 2008), quanto em escala mundial (WATHIER e DELL´AGLIO, 2007).

A institucionalização é a medida de proteção tomada pelo Estado quando se considera que as famílias oferecem riscos ao desenvolvimento saudável de seus filhos (BAZON, 2000). Cavalcante, Magalhães e Pontes (2009) explicam que a pobreza pode levar pais e cuidadores a falharem nas tarefas de sustentar, educar e dar assistência aos filhos, possibilitando a geração de um ambiente de privações que influencia negativamente o bem-estar físico e emocional da criança. Boing e Crepaldi (2004) explicam que o abandono de crianças é um sintoma social, observado em famílias pobres. Em um caso descrito pelas autoras, a mãe decidiu entregar o bebê recém-nascido à adoção por não ter possibilidades de parar de trabalhar (na lavoura) para cuidar dele.

Dessa forma, a combinação de vários fatores aliada à falta de possibilidades das famílias superarem a condição em que se encontram impede-as de cuidar

plenamente de seus filhos, podendo ocasionar a perda da guarda21 ou do poder familiar22.

Silva e Nunes (2004) descrevem que as condições relacionadas à precária situação econômica geram problemas ligados aos aspectos do “ter”, do “saber” e do “ser”. O “ter” é afetado na questão do emprego, da renda familiar e no acesso aos bens de consumo; o “saber” é influenciado negativamente pelo difícil acesso à escolarização e ao conhecimento; e o “ser” é afetado por problemas ligados à família, sua rede social e possibilidades de lazer. Em estudo realizado com jovens acolhidos, Venturini, Bazon e Biasoli-alves (2004) identificaram os bens de consumo como condição para a existência da felicidade familiar, o que sugere o sofrimento gerado pela privação material. De acordo com as autoras, para os jovens abrigados a questão material está relacionada à necessidade de trabalhar.

Na área da habitação essas famílias são afetadas pela grande concentração demográfica nos centros urbanos em decorrência da migração (NOGUEIRA e COSTA, 2005) e pela falta ou precariedade de moradias (NOGUEIRA e COSTA, 2005 e CAVALCANTE, MAGALHÃES E PONTES, 2009).

No que diz respeito ao trabalho e à renda, as famílias passam por dificuldades de acesso a empregos na rede formal (NOGUEIRA e COSTA, 2005; SIQUEIRA E DELL´AGLIO, 2010), devido à falta de oportunidades de escolarização (ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001 e CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009; SIQUEIRA E DELL´AGLIO, 2010), e à má distribuição de renda (NOGUEIRA e COSTA, 2005), fatores que geram a falta de oportunidades de trabalho e o desemprego crônico (ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001; NOGUEIRA e COSTA, 2005; CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009; BAZON, 2000; SIQUEIRA E DELL´AGLIO, 2010) ocasionando a insuficiência e precariedade de rendimentos (BAZON, 2000 e CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009).

No que se refere aos cuidados básicos e à própria sobrevivência, as famílias dos jovens abrigados padecem de privação material (CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009), falta de alimentação suficiente ou adequada para a idade e desmame precoce (ZEM-MASCARENHAS E DUPAS, 2001 e MAGALHÃES E

21 Guarda: Envolve os cuidados com a criança ou adolescente em relação à assistência material, moral e educacional e confere a seu detentor o direito de se opor a terceiros, inclusive aos pais. A guarda concede à criança ou adolescente a condição de dependente (BRASIL, 1990).

22 Poder familiar: É um complexo de direitos e deveres do(s) genitor(es) com relação a seus filhos, mudando o instituto de poder dos pais sobre os filhos, para os deveres (LÔBO, 2006). O termo poder familiar substitui a expressão pátrio poder, a partir da lei nº 12.010, de 2009.

PONTES, 2009), descuido com a higiene corporal e ambiental, e o descumprimento de programas de imunização (MAGALHÃES E PONTES, 2009).

Siqueira e Dell´Aglio (2010) identificaram que a maior parte das famílias com membros institucionalizados são numerosas (com média de quatro irmãos), tendo vários filhos acolhidos em instituição.

Alguns autores indicam a desestruturação ou desintegração familiar (AZÔR e VECTORE, 2008; CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009; WATHIER e DELL´AGLIO, 2007), a dissolução das relações conjugais (CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009), a ausência da figura paterna (AZÔR e VECTORE, 2008), e a monoparentalidade (BOING e CREPALDI, 2004) como determinantes para o abrigamento. A ausência da figura paterna não é entendida por nós como um problema em si, mas, sim, como um desafio maior vivido pelas famílias monoparentais. Ser mãe sozinha ou pai sozinho pode gerar dificuldades no cuidado com os filhos caso esse pai ou mãe não tenha uma rede de apoio com a qual possa contar. Siqueira e Dell´Aglio (2010) também relacionam a mobilidade ou a instabilidade nas configurações familiares com a presença de diversos casamentos, divórcios e recasamentos, sendo que a maioria dos casais, pais dos jovens acolhidos, não está mais junto. Entretanto, é necessário ressaltar, segundo Siqueira e Dell´Aglio (2011, p. 269), que: “Muitos estudos indicam que as dificuldades de funcionamento familiar não estão necessariamente associadas à sua configuração, mas sim às relações que se estabelecem entre os seus membros.”

Somados aos motivos já citados, estão as doenças (ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001), a doença mental (GABATZ et al., 2010), o alcoolismo e o uso de drogas (NOGUEIRA e COSTA, 2005; BAZON, 2000), o tráfico de drogas (BAZON, 2000), a prisão dos chefes de família (VECTORE e CARVALHO, 2008; BAZON, 2000), ameaças de morte sofridas pelas mães (BAZON, 2000), e as situações possivelmente ligadas à própria falta de oportunidades e de condições dignas de vida. Cavalcante, Magalhães e Pontes (2009) utilizam o termo "combinação explosiva" para tratar da associação dramática entre pobreza, desagregação familiar e consumo abusivo de álcool e outras drogas por cuidadores primários, deteriorando as condições de vida da população infantil. Gabatz et al. (2010) também apontam como fatores associados à institucionalização a negligência em virtude do uso abusivo de álcool, sendo associado à agressão e violência materna em relação aos filhos.

Para ilustrar o problema de saúde pública, Medeiros e Motta (2008) explicam que, em decorrência da AIDS, a maioria das crianças com HIV (em abrigos específicos para crianças com a síndrome) é órfã de pai, mãe ou ambos. A orfandade é mencionada por Freitas et al. (2010) e Bazon (2000) como fator que leva ao abrigamento.

Alguns autores (AZÔR e VECTORE, 2008 e CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009) também indicam como um fator que leva ao acolhimento institucional a carência ou fragilidade das redes de apoio sociais à família no auxílio às atividades de sustento e educação dos filhos.

Todo esse cenário apresentado nesta seção acarreta o aumento das dificuldades dessas famílias e o abismo que as afasta de uma vida digna, intensificando situações que geram violência e sofrimento familiar. A população infanto-juvenil em situação de risco é acometida por diversos tipos de violência, uma das maiores causas do acolhimento institucional (WATHIER e DELL´AGLIO, 2007). Nesse caso, a relação de violência entre adultos e crianças está vinculada à desigualdade social (FERRIANI, BERTOLUCCI e SILVA, 2008). Gabatz et al. (2010) sugerem a associação entre violência e pobreza como desencadeador de outros tipos de violência, mas também ressaltam a existência de subnotificação dos casos de violência em famílias de classe média ou alta, em função dos mecanismos de sigilo.

As formas de violência descritas pelos autores abrangem: maus-tratos, violência doméstica, prostituição infantil (VECTORE e CARVALHO, 2008), o trabalho infantil e sua exploração (VECTORE e CARVALHO, 2008; GONTIJO e MEDEIROS, 2008), crianças moradoras de rua (VECTORE e CARVALHO, 2008), abuso sexual praticado por familiares (VECTORE e CARVALHO, 2008; ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001), violência física (PRADA, WILLIAMS e WEBER, 2007) e violência propriamente dita (WATHIER e DELL´AGLIO, 2007).

A infância em vulnerabilidade envolve situações de privação emocional, negligência (CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2007b; PRADA, WILLIAMS e WEBER, 2007) e abandono (VECTORE e CARVALHO, 2008; ZEM-MASCARENHAS e DUPAS, 2001; PRADA, WILLIAMS e WEBER, 2007). É necessário ressaltar que a negligência, segundo Venturini, Bazon e Biasoli-Alves (2004), é uma das maiores causas da institucionalização, sendo caracterizada pela omissão de cuidados, mais do que pelo cometimento de agressão ao jovem.

Também foram indicadas como causas do abrigamento os estilos parentais permissivos, autoritários ou indiferentes (CAVALCANTE, MAGALHÃES e PONTES, 2009). A falta ou a ruptura de uma relação afetuosa saudável ou de apego entre a criança e seus pais ou cuidadores pode causar uma série de efeitos prejudiciais como angústia, depressão e o aparecimento de enfermidades físicas e mentais (BOING e CREPALDI, 2004; ALEXANDRE e VIEIRA, 2004). Além disso, a violência doméstica pode acarretar problemas no desenvolvimento neurológico, intelectual, social, baixa auto-estima, comportamentos agressivos, dificuldade de adaptação sexual, evasão escolar (VENTURINI, BAZON e BIASOLI-ALVES, 2004), semelhantes aos problemas encontrados na literatura em relação aos efeitos da institucionalização.

Essa soma de violações intensifica as dificuldades já vividas por estas famílias e gera outros processos de exclusão que colocam ainda mais em risco o bem-estar dos jovens, expondo-os à vida nas ruas. Para Conceição e Sudbrack (2004) a situação das crianças de rua é gerada por fatores diversificados:

econômicos, políticos, sociais, administrativos. Santana et al. (2005) também

descrevem alguns fatos que originam esta condição: a situação de miséria vivida pela família, a necessidade de mendicância ou de trabalhos na rua como fonte de renda familiar, a violência intrafamiliar e o rompimento de vínculos com a escola ocorrido após uma sucessão de fracassos. Sobreviver e encontrar pequenos trabalhos nas ruas expõe os jovens a fatores negativos para seu desenvolvimento, como por exemplo, o uso e abuso de substâncias, o trabalho informal e a prática de delitos, configurando situações que também podem levar os jovens ao abrigamento. O uso de substâncias psicoativas é mencionado pelos jovens como um motivo para não estarem nas instituições de acolhimento e se manterem em situação de rua (SANTANA et al., 2005). Gontijo e Medeiros (2008) realizaram estudo com meninas que moravam nas ruas e explicaram que na rua elas também descobrem sua sexualidade e várias delas engravidam durante a própria adolescência.

Schwonke, Fonseca e Gomes (2009) mostraram, ao descreverem e analisarem as situações de vulnerabilidades que vivenciaram jovens de 12 a 17 anos, que a maioria tinha histórico de dificuldades de adaptação ao ambiente escolar, obtendo baixo rendimento nos estudos, frequentes reprovações, desinteresse e, por fim, abandonando a escola. Como o estudo foi realizado com jovens que viveram nas ruas, também é indicada uma relação entre a desistência

escolar e a necessidade econômica da família, já que ele precisava trabalhar para ajudar em casa. As autoras assinalam a existência de um círculo vicioso: sem escolaridade as oportunidades são escassas e a redução de possibilidades os afasta também do envolvimento com a escola. Elas também explicam que a escola não considera o universo do jovem que vive esta realidade e não oferece qualificação profissional.

Também é importante ressaltar que vários jovens passam pela re-institucionalização, ou seja, voltam a morar na instituição de acolhimento após tentativa frustrada de reinserção familiar na família de origem ou por adoção. Siqueira e Dell´Aglio (2011) apontam como problemas nas tentativas de retorno familiar e causas da re-institucionalização a falta de elaboração de planos de retorno do jovem à família, a ausência de avaliação efetiva do retorno, falhas no preparo de jovens e seus familiares para a convivência conjunta e a inexistência de acompanhamento sistemático do retorno familiar. Siqueira e Dell´Aglio (2011) também apontam a fragilidade, a ausência ou a perda do vínculo familiar, a carência de políticas públicas de apoio à reestruturação familiar, o envolvimento dos pais ou cuidadores com drogas e a violência doméstica como causas da dificuldade do retorno familiar.

Na FIGURA 02 estão reunidas algumas informações, a partir da visão dos autores consultados, de fatores apontados como responsáveis pelo acolhimento institucional.

FIGURA 02 - ESQUEMA EXPLICATIVO SOBRE AS CAUSAS DA INSTITUCIONALIZAÇÃO FONTE: FREITAS e ROMANELLI (2013)

Famílias numerosas

Problemas nos cuidados com os filhos

Prisão dos pais ou responsáveis Ameaça de morte dos pais ou responsáveis

Morte dos pais ou responsáveis Escolarização precária

Mobilidade e instabilidade das configurações familiares Precariedade das condições de habitação Atividades informais de trabalho ou desemprego Privação material Necessidade de renda Miséria / pobreza Lazer (Re)institucionalização

Saúde: doenças, drogas, alcoolismo Violência familiar

Condições de vida de crianças e jovens Complementação da

renda familiar Exposição a riscos

Prostituição infantil Trabalho infantil

Mendicância Prática de delitos

Vida nas ruas Uso de substâncias

psicoativas Negligência Abandono Fracasso e rompimento com a educação formal

Exposição à violência aos riscos e à violência Efeitos da exposição

Violência doméstica Violência sexual Privação emocional Problemas no desenvolvimento Enfermidades físicas Baixa auto-estima, sentimentos negativos Fracasso e rompimento com a educação formal

INSTITUCIONALIZAÇÃO Condições socioeconômicas das famílias Estratégias de sobrevivência das famílias

Fragilidade nas ações governamentais de apoio às famílias quanto à: Frágil suporte psicossocial (família e comunidade) Frágil rede de apoio à família

Dificuldade ou falta de acesso ao mercado formal de trabalho Participação em atividades ilícitas: tráfico de drogas Desigualdade social

Má distribuição de renda Modo de produção capitalista

É possível perceber como a condição de vida pode interferir negativamente de diferentes maneiras na garantia dos direitos de crianças e adolescentes. De maneira geral, dentre as maiores causas do acolhimento institucional estão a desigualdade social e a má distribuição de renda, mazelas associadas às falhas do modo de produção capitalista, como representado no canto esquerdo do esquema. Esse processo de exclusão social leva um enorme contingente de famílias a viver em condições indignas. Os três quadros mais externos ilustram as principais causas da institucionalização: “Condições socioeconômicas das famílias”, “Estratégias de sobrevivência das famílias” e “Fragilidade nas ações governamentais de apoio às famílias”, sendo que cada item contempla outros elementos relacionados entre si.

O ciclo de empobrecimento, diretamente relacionado com aspectos sócio-econômico-políticos da história brasileira, intensificou o êxodo rural e a busca das famílias por oportunidades em grandes cidades. Na vida em regiões metropolitanas e nas favelas, as famílias se deparam com graves problemas de infra-estrutura e de apoio social e encontram na submoradia sua única possibilidade de sobrevida. Há que se lembrar que em muitos desses locais o acesso a creches, escolas, postos de saúde e equipamentos públicos de cultura é mais difícil, já que os serviços são escassos ou de qualidade inferior, gerando uma falta de apoio público para que estas famílias se organizem nestas localidades.

A alta concentração demográfica nestas regiões, somadas à escolarização precária e à falta de profissionalização dos membros dessas famílias levam ao desemprego ou subemprego, gerando graves consequências para sua subsistência em termos de condições básicas de vida.

Além disso, em função da fragilidade nas ações governamentais, muitas destas famílias sofrem com a carência de apoio diante de problemas como abuso de álcool e drogas, da falta de possibilidades de lazer e com a desagregação familiar e a violência. O frágil suporte psicossocial também cria barreiras para que as famílias consigam cuidar de sua saúde, de sua escolarização, de sua profissionalização, e do sustento de seus filhos.

Esses fatores juntos geram circunstâncias que influenciam nas condições de vida de crianças e jovens, ilustradas no quadro interno da FIGURA 01 sobre as “Condições de vida de crianças e jovens”. Dentre os aspectos indicados, há alguns fatores principais que levam à institucionalização: a necessidade de complementação de renda familiar (mendicância, trabalhos, prostituição e delitos), a

exposição a riscos (vida nas ruas, uso de substâncias psicoativas, rompimento com a educação formal, negligência e abandono) e à violência (maus-tratos, violência doméstica), e efeitos de todas essas violências sobre a população infanto-juvenil (problemas no desenvolvimento, enfermidades físicas, baixa auto-estima, sentimentos negativos, fracasso e rompimento com a educação formal e gravidez precoce).

Muitos dos jovens com vivências nas ruas e nas instituições de abrigo saíram de casa em busca de sobrevivência e, na rua, em contato com a delinquência, acabaram cometendo pequenos delitos, roubos, envolvendo-se com o crime, com atividades de mendicância, uso de drogas e prostituição. Nestes casos os jovens tornam-se ainda mais vulneráveis, tendo agravada a situação de risco em que se encontravam e não tendo respostas satisfatórias para suas necessidades de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, esses jovens que frequentemente já tinham histórico de fracasso em sua escolarização, encontram ainda mais dificuldades de manter sua frequência e seu desempenho na instituição escolar, evadindo-se da escola. As dificuldades enfrentadas pelas suas famílias, o afastamento da escola, a sobrevida nas ruas e os inúmeros fatores de risco para sua vida e bem estar aumentam ainda mais o abismo que os separa de seus direitos como cidadãos. Cabe, então, a intervenção do Estado para que estas crianças e adolescentes sejam atendidos nos programas de proteção especial, seja em forma de acolhimento institucional ou nos sistemas de socioeducação, caso atravessem a tênue linha que os separa da infração penal.

Ao final desse processo, a institucionalização consiste em uma intervenção estatal que retira a(s) criança(s) do ambiente familiar visando garantir sua proteção.

As causas do abrigamento descritas condizem com o Artigo 98 (medidas de proteção aplicadas quando os direitos de crianças ou adolescentes são ameaçados ou violados) do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990):

“I - por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III - em razão de sua conduta.[do jovem]”

Os motivos que levam ao abrigamento de crianças e adolescentes são multifatoriais, relacionados tanto com a conduta dos jovens ou devido à ação ou omissão dos pais, da sociedade e do Estado. Ou seja, a medida de proteção pode

ser acionada quando os direitos fundamentais, à Vida e à Saúde, à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade e à Convivência Familiar e Comunitária não são respeitados (BRASIL, 1990, título II, artigos 7 a 24).

A intervenção do Estado nem sempre acontece, depende de denúncias, do envolvimento de pessoas da comunidade, dos profissionais da área da assistência social. Ao mesmo tempo, institucionalizar o jovem parece não ter um resultado positivo, ou seja, pode também ser uma fonte de sofrimento para ele.

No entanto, há uma contradição no conjunto de fatores que geram a institucionalização: o sofrimento das famílias, que também é ocasionado pelas condições estruturais e conjunturais a que estão expostas, fundamenta a intervenção estatal. Ou seja, essa situação que resulta em parte da própria falta de ação governamental serve de justificativa para a constatação da impossibilidade das famílias cuidarem de seus filhos. Protegida por legislações específicas, a ação governamental centra-se na criança, em detrimento das causas mais amplas que estão na base das condições vividas pela população infanto-juvenil.

Retomando a contribuição de Gabatz et al. (2010), que ressaltam a

existência da subnotificação de casos de violência em famílias de classe média ou alta, percebe-se que as famílias de classe baixa são frequentemente censuradas por não conseguirem cuidar de seus filhos. Constata-se a tendência da justiça ser mais rigorosa nas decisões contra famílias pobres do que com que famílias ricas, dando a compreensão de que as famílias pobres têm mais dificuldades ou expõem seus filhos a mais a riscos e violências do que as famílias mais abastadas. Há que se considerar que a vida privada de famílias com maior poder aquisitivo é de mais difícil acesso, possivelmente em função das barreiras arquitetônicas que impedem que se veja o que acontece em casa.

São as famílias excluídas socialmente que têm seus filhos mais frequentemente institucionalizados, sendo o fator socioeconômico determinante para o acolhimento, segundo os autores. No entanto, no Artigo 23 do Estatuto da Criança

e do Adolescente (BRASIL, 1990 e 2009), que trata do Direito à Convivência

Familiar e Comunitária, observa-se que “a falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a suspensão do poder familiar.” Caso não haja nenhum outro motivo que autorize a decretação da medida, o jovem continua vivendo com sua família, que deve ser assistida por programas de auxílio oficiais.

De acordo com Nery (2010):

O que é recorrente na sociedade é a rápida decisão de retirar a criança da situação de pobreza, abandono ou violência para espaços que garantam melhorias físicas, incluindo, por exemplo, cama, cobertor, todas as refeições