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Dificuldades e receios no trabalho docente

Capítulo II- Análise e Apresentação dos Resultados

6. A entrada na escola: O início de funções docentes

6.3 Dificuldades e receios no trabalho docente

As dificuldades experimentadas pelas professoras principiantes, aquando da sua inserção na profissão, são similares, decorrentes da inquietação sentida, da incerteza, do pavor de falhar e da consciência de que ainda não dominavam muitas das destrezas dos professores mais experientes.

O primeiro impacto no trabalho com os alunos revelou-se para todas as professoras principiantes de muita dificuldade. A dificuldade sobre a postura a assumir de modo a fazerem respeitar-se e manter a disciplina, o receio de que não se fazerem amar, a preocupação com a aprendizagem dos alunos, foram as principais dificuldades enumerados na fase do choque com a realidade.

(...) a preocupação era de que os alunos aprendessem… que conseguissem ultrapassar os problemas relativos à ortografia e à leitura. E5

(…) Tinha medo que eles não aprendessem e acima de tudo tinha medo de ser eu a culpada, que era se isso acontecesse. Porque acho que é uma grande responsabilidade. E6

Os problemas com a indisciplina eram uma das maiores preocupações destas professoras, por sentirem que a falha de controlo da turma seria o primeiro indicador que poderia colocar em causa uma imagem de competência, que era fundamental

manter, a todo o custo, para conseguirem o reconhecimento por parte dos outros (colegas, pais, direção).

(...) Era o medo da indisciplina, que eles não me obedecessem... queria que gostassem de mim. Tinha muita preocupação com a imagem que a escola e os outros iam ter de mim. E2

(...) eu cheguei com uma postura muito séria, muito rígida e pouco simpática, porque tinha medo que eles não me respeitassem. E3

(...) ai o medo que eu tinha que eles (os alunos) não me respeitassem.... que fizessem barulho e que os outros dissessem que eu não era capaz... E4

6.3.1 O trabalho com os alunos: do idealizado às práticas desenvolvidas

A análise dos dados permite evidenciar o esforço efetuado pelas professoras principiantes no que respeita à preparação do trabalho com os alunos e à construção de materiais didáticos adequados às aulas ou às necessidades individuais de alunos. Planificavam até à exaustão e preparavam materiais diversificados, no sentido de controlarem todas as variáveis com apreensão de poder falhar.

(…) Planificava todas as semanas e todos os dias. Quando tinha dificuldade ainda ia ver a planificação e melhorava alguns aspetos. Queria controlar tudo. E2

(...) tinha uma agenda semanal e todos os fim-de-semana planificava o que queria trabalhar com os alunos… segui o modelo de estágio. Planificávamos até à exaustão. E4 (...) para além de preparar tudo ao milímetro construía matérias para os mais problemáticos. E5

As dificuldades no trabalho com os alunos relacionavam-se igualmente com as características das turmas, a sua dimensão, a presença de alunos com necessidades educativas especiais e o comportamento dos alunos.

(...) a turma era muito grande e eu não conseguia dar conta de 24 crianças pois eram ainda muito pequenas, a turma era muito agitada e no início senti bastantes dificuldades. E3

(…) Tive uma aluna de primeiro ano e dois alunos de segundo ano. Era muito frustrante ter três alunos numa turma mista. E foi um desafio incrível. E6

As dificuldades com a organização do processo de ensino e aprendizagem e os processos de diferenciação pedagógica constituíam grandes dificuldades para estas professoras no início da docência. O cumprimento da planificação diária revelava-se igualmente de dificuldade.

(...) é muito complicado fazer efetivamente a diferenciação pedagógica dentro da sala. E2

(…) A questão das planificações preocupava-me porque eu pensava como é que eu planifico, como é que organizo e oriento. E4

(…) Não conseguia cumprir a planificação, tinha imensa dificuldade em cumprir aquilo que estava planeado, porque alguns momentos se prolongavam mais. E5

A ausência de experiência e de segurança na identificação de estratégias de diversificação do trabalho na sala de aula leva as participantes a colocarem em causa as suas competências profissionais. A dificuldade em definir estratégias necessárias para individualizar os processos de ensino a todos os alunos, em função das suas necessidades, ritmos de aprendizagem e interesses, o que fazer e como fazer, determinava por vezes a emergência de sentimentos de culpa.

(...) eu não tinha alunos problemáticos a nível comportamental, mas tinha uma aluna com bastantes dificuldades… que eu queria pôr a ler. Eu tinha de parar a aula para a ir ajudar… mas por outro lado se eu parasse a aula os restantes alunos não podiam avançar, o que fazia com que eu tivesse um dilema. E4

(…) Tive um aluno com necessidades educativas especiais e tive imensa dificuldade em gerir aquela situação e em saber onde me devia dirigir, o que devia fazer, que documentos preencher… E5

A gestão dos tempos configurou-se do mesmo modo como um problema para estas professoras. Enumeram como causas para as dificuldades sentidas a ausência de apoio nessa tarefa e a dificuldades de conceber e organizar as atividades a desenvolver a médio e longo prazo. Similarmente a exigência de cumprimento do programa foi indicada por duas destas professoras como um constrangimento.

(…) A gestão do tempo na sala de aula …muita dificuldade. E2

(…) tinha muita dificuldade na planificação mensal e em planificar semanalmente e também em terminar os manuais e um programa muito extenso, cada vez mais extenso, para cumprir.. E5

(…) Não havia ninguém para nos ajudar ... eu preparava sozinha, mas sentia que não havia um fio condutor... agora vou fazer isto, agora vou fazer aquilo, faltou-me algum apoio. E6

Nos momentos de preparação do trabalho as pressões por parte dos pais e da direção dos estabelecimentos dos estabelecimentos de ensino, agravava a sensação de mal estar. A pressão dos pais fazia-se sentir através do questionamento sobre as suas opções metodológicas. Esta desconfiança era sentida como falta de confiança nas competências e no trabalho desenvolvido por estas professoras principiantes. Esta realidade contribuía

para que as professoras principiantes se sentissem condicionadas na implementação dos métodos aprendidos na escola de formação inicial, optando por métodos mais centrados no professor.

(...) todas as minhas intenções de fazer fosse o que fosse com aquela turma foram limitadas e eu tive de trabalhar com a metodologia tradicional. E3

(...) os pais questionavam as minhas ações, eles olhavam para mim e só me comparavam com a professora anterior, … com um método diferente do meu. E4

Ansiavam pela orientação de alguém que supervisionasse e ajudasse neste momento de dificuldade. Um acompanhamento semelhante aos vividos nas situações de estágio. Alguém que confirmasse as decisões tomadas conferiria agora uma segurança que lhes seria muito útil.

(…) No primeiro ano eu pensei, onde é que está a professora da ESE… a falta que fazia... quando me vi sozinha, é que eu pensei bem onde é que ela está para me ajudar. E6 A opção pela utilização exclusiva do manual cria igualmente nestas professoras sentimentos de que não estão a agir de acordo com os melhores métodos. Esta imposição por parte da direção e de alguns pais leva-as a agir numa perspetiva antagónica à idealizada e à formação recebida na escola de formação.

(…) uma das expectativas que eu tinha que era: podíamos abolir os manuais, não era necessário manuais na sala. A realidade é que os pais precisam de ter um certo guia em casa, do que é que estamos ou não estamos a fazer. E2

(…) tinha manuais e tinha que os seguir os manuais que eles (direção) tinham selecionado. E3

Esta imposição levava E3 a ter que optar por práticas, na sua perspetiva, menos inovadores, que dificultavam a diferenciação do trabalho escolar. Esta professora (E3) caracteriza mesmo a sua prática como monótona, referindo que a mesma determinava nos alunos uma certa desmotivação.

(...) por estar limitada a trabalhar com os alunos, de forma a utilizar apenas o manual, fez com que eu sentisse que o trabalho era monótono e visse a desmotivação, e o desinteresse de dois alunos. E3

Não obstante, o manual escolar é referido como um recurso facilitador para a planificação, organização e desenvolvimento do trabalho com os alunos.

(…) Apesar de eu ter aquela convicção de trabalhar com uma abordagem mais interativa, os manuais acabaram por orientar um bocadinho, a nível da planificação porque tinham os meses e os vários conteúdos e foi por um bocado, um pouco por aí que eu me orientei, por já terem isso assim dividido. E5

A partir da análise dos dados, é possível perceber claramente um sentimento de insatisfação, transversal a quatro participantes, por não poderem e/ou não conseguirem implementar as opções metodológicas aprendidas durante a formação inicial e que ambicionavam vir a desenvolver agora com a sua turma.

(…) No início eu achava que ia fazer sempre assim porque foi assim que aprendi... as pessoas não me deixaram trabalhar dessa maneira e portanto eu tive de me adaptar... Aquilo que nós tanto ansiamos ou as expectativas que nós vamos criando acabam por não corresponder à realidade. E3

(…) As minhas expectativas não corresponderam à realidade. Não podia fazer nada daquilo que eu tinha pensado ou que poderia pensar, porque os pais e a direção criticavam esse tipo de metodologia. E4

Em suma, constata-se que o choque com uma realidade, onde lhe são impostos modelos pedagógicos em linha contrária às aprendizagens da formação inicial, determinou o ajuste da ação das participantes, levando-as a adaptar-se aos contextos, dada a ausência de autonomia pedagógica, através de, em cada caso estudado, diferentes estratégias, tendo todas as participantes ensaiado com maior ou menor evidência processos de ensino e aprendizagem mais centrados nos alunos, mesmo sendo necessário articulá-los com as orientações da coordenação da instituição.

(…) Mudei a imagem da professora que queria ser, adotando a imagem que tenho atualmente, pois fui confrontada com uma realidade duríssima, principalmente no meu primeiro ano de trabalho, mas foi uma conquista essencial. E4

(…) Eu desde logo mantive-me sempre disponível, para me integrar, mas mantive as minhas convicções na mesma e acabei por trabalhar como eu queria. A única coisa que eu tinha de fazer era trabalhar no primeiro ano de acordo com a obra de um pedagogo e, de resto, tinha liberdade para trabalhar. E5

6.4 As relações interpessoais: Da insegurança à conquista progressiva da