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2 A centralidade do trabalho pedagógico no campo da formação do

3.5 Dificuldades encontradas e possibilidades

A investigação sobre o trabalho pedagógico desenvolvido por Maria e seu contexto permitiu perceber algumas dificuldades enfrentadas para a realização de suas tarefas, bem como as possibilidades de sua realização.

O primeiro aspecto refere-se à sua dificuldade em conciliar seu compromisso político a partir da elaboração de políticas públicas para crianças e adolescentes e a excessiva demanda de atividades do projeto Clube do Jornal: “participar do Fórum DCA é importante, mas se tiver uma coisa mais importante do Clube, a prioridade é o Clube do Jornal”.

A necessidade de “dar conta” das múltiplas tarefas que lhe cabem como coordenadora do projeto também implica ausência de encontros considerados importantes pelo coordenador geral da Instituição:

Sempre tem muita coisa para gente fazer, para gente pensar, principalmente, as coordenações. Semana passada teve um Encontro na Prainha do Cabo Verde e o coordenador disse que era importante eu ir para lá. Eu disse que não ia porque estava muito preocupada com o Clube do Jornal e que queria direcionar minhas energias para o Clube, para as coisas que tem que encaminhar.

Outras dificuldades decorrem da ausência de recursos suficientes na instituição refletindo em quatro aspectos que envolvem o trabalho pedagógico desenvolvido por Maria, quais sejam:

no acompanhamento dos Clubes em virtude de um número reduzido de assessores:

Nós deveríamos ter mais assessores. A gente não tem ainda o recurso para isso porque há uma demora muito grande dos parceiros em nos dar uma reposta. Quando entrar recurso, a gente já começa a visualizar assim... Eu vou poder ter mais dois assessores para entrar na equipe. Só que a gente não tem essa certeza, entendeu? Então, fica difícil mesmo. Mesmo não tendo essa certeza, o projeto tem que andar.

na capacitação dos adolescentes dos Clubes do interior do Estado do Ceará:

Esse ano ainda não teve as oficinas no interior porque ainda não tivemos resposta dos parceiros. O problema não é fazer, o que “pega” é a questão do recurso. O lugar mais complicado é Iguatu porque é mais longe... Então, toda essa proposta pedagógica a gente leva... O problema é a questão do dinheiro. Quanto ao Vale transporte, a gente vai ver como o Comunicação e Cultura conversa com o CONDICA (Conselho Municipal da criança e do adolescente).

no aumento dos Clubes do Jornal nas escolas públicas:

A questão é que, desde 2004, desde o momento que eu estou aqui, a gente ainda não conseguiu expandir o Clube do Jornal por falta de novos recursos. Nós continuamos nas 122 escolas porque o Clube custa quase 3000 reais por ano, por escola.

Depois que eu entrei a gente nunca cumpriu 100% das metas por falta de financiamento. Nós estamos em março e eu não consegui ir no interior... Se a gente não for lá, os jornais não vão conseguir chegar.

No trabalho pedagógico realizado por Maria, também houve empecilhos ditos burocráticos, até mesmo para celebrar um contrato com a Secretaria de Educação – SEDUC, contribuindo para a perda de sua autonomia profissional:

A dificuldade está relacionada com a situação. Por exemplo, se eu não tenho a resposta da Secretaria de Educação, isso é uma dificuldade porque eu não consigo colocar em prática o que havia organizado. Os meninos ficam ligando, perguntando quando é que a gente vai para lá... Só que na minha agenda tava tudo organizado, tudo programado. Como eles não dão a resposta, isso já atrasa. Então, isso é uma dificuldade da situação, não é minha propriamente dita. Mas no sentido de fazer as grades dos cursos, não é uma dificuldade porque eu tenho essa vivência. Para mim, isso não é problema.

A fala a seguir também enfatiza o fato de que muitas vezes os entraves advindos da burocracia dificultam muito mais do que a ausência de recursos financeiros na instituição: “é muito difícil trabalhar com o público, com o governo. As técnicas da secretaria têm o maior compromisso com o projeto, mas elas não decidem. Então, assim... não é tanto o recurso, mas a burocracia. E esse ano é um ano de eleições para governador e tudo isso

interfere muito no clube do jornal”.

Há dificuldades pessoais que se relacionam com a necessidade de Maria de se apropriar de conhecimentos específicos relacionados ao seu contexto de trabalho:

Eu sinto falta de entender com mais propriedade como é a relação das ONGs e entender mais essa relação delas com o Estado porque isso interfere diretamente no meu trabalho. Então, eu gostaria de entender mais isso até para poder me situar melhor no meu trabalho... Além de precisar estudar mais a questão da cultura da juventude no nosso país, nos dias de hoje.

Um mergulho nessas evidências revela que se, por um lado, as dificuldades sentidas por Maria decorrentes das influências sociais, políticas e econômicas levaram-na muitas vezes a querer desistir do seu trabalho, de outra parte, os depoimentos orientaram-se no sentido de indicar pontos positivos necessários à realização de um trabalho pedagógico com vistas a contribuir para a formação de jovens:

Às vezes, eu ficava pensando: ‘eu não quero mais isso, eu quero voltar para minha sala de aula’ porque lá era só eu, meus alunos, meus planos de aula e pronto. É bem angustiante tudo isso... Mas eu também acho que aquele mundo já ficou pequeno para mim. Agora é um outro mundo que me espera. Então, eu vou para esse outro mundo e descubro uma série de outras coisas boas que a gente pode estar fazendo, contribuindo...

Eu preferia ser assessora a ser coordenadora porque eu só dava a oficina e entregava os problemas à coordenação. É a melhor coisa que tem, não tinha essa preocupação toda com o corpo financeiro, com as metas. (...) Às vezes fico muito angustiada. Já pensei em deixar, não quero mais por conta disso porque acaba emperrando o trabalho, essa questão financeira. A secretaria também não dá uma resposta porque devem não ter uma resposta para nos dar. Fica muita burocracia lá dentro. Então, o que a gente faz com os Clubes? Às vezes eu fico tão angustiada, mas quando eu vou para o intercâmbio com um monte de adolescente... 110 adolescentes... Eu vejo aqueles meninos de escola pública querendo fazer diferente dentro na escola... Ao mesmo tempo, eu digo que vou continuar mais um tempo, vou dar um tempo mais aqui, mas é muito difícil, sabe?

Para mim, sempre tem coisas boas. Profissionalmente, eu nunca tinha trabalhado tanto com jovens e foi aqui nessa instituição que eu tive a oportunidade de trabalhar tanto com professores quanto com jovens. (...) Para mim, é muito enriquecedor trabalhar com jovens. A instituição também força que eu aprenda, entenda e domine a parte mais financeira.

O sentimento de mal-estar vivido no CC, expresso por desmotivação pessoal, insatisfação, incertezas, dúvidas e angústias, foi superado no segundo ano de trabalho, quando começou a se sentir mais livre, independente e confiante para resolver os problemas e tomar decisões. Já distanciada desse período, conclui-se que: “esse ano eu estou mais calma, mais tranqüila, mesmo com todas essas dificuldades. Eu já consigo ver as saídas. Assim, se antes o desejo era “ir embora” da Instituição, hoje o objetivo é buscar novos desafios:

Hoje em dia eu não sinto tanta dificuldade porque já me apropriei das coisas do Clube. Quando eu entrei aqui era uma dificuldade para decorar, para saber onde está tal Clube, até o coordenador dizia ‘você precisa se apropriar mais das coisas do Clube’. Então, hoje, quando ele liga e pergunta quantos Clubes têm em tal escola, eu digo logo. Hoje, eu já tenho tudo familiarizado, já estou bem.

A tarefa de aceitar o “novo” e buscar compreender os elementos que constituem suas ações foram aspectos importantes para o desenvolvimento do trabalho pedagógico de Maria, pois implicou mais segurança, autonomia e liberdade para imprimir a sua visão de ser humano, mundo e sociedade na sua prática. É nessa perspectiva que ela aponta os diferentes aspectos positivos do seu trabalho, principalmente no que diz respeito ao saber pedagógico que edifica:

Os pontos positivos, para mim, como profissional é a oportunidade de estar trabalhando com jovens, pois eu já tinha trabalhado com adultos, com crianças e professores. O aprendizado adquirido em relação a outras instituições, por exemplo, a parte financeira. Eu acho que todo profissional, onde quer que ele trabalhe, tem que estar por dentro até para ele entender como é que funciona a instituição. Então, esse aprendizado financeiro eu acho importante. O meu trabalho me força a aprender outras coisas, a estar em contato com outros temas como a mídia. Eu nunca tinha ligado muito para mídia. Agora eu tenho que ler sobre a mídia, tenho que estar atenta para essa discussão.

Eu não tinha nenhuma familiaridade com a parte financeira, eu achava horrível. Mas agora eu vejo que isso é muito bom e importante para eu fazer o meu trabalho. Eu acho que eu cresci muito profissionalmente e como pessoa.

O conjunto de dificuldades e possibilidades para o desenvolvimento de suas atividades revelou que o trabalho pedagógico de Maria é um fenômeno complexo, constituído de múltiplas facetas, todas elas formando uma teia, cujos nexos são de explicitação e determinação difíceis.

Embora o trabalho pedagógico seja determinado por contextos financeiros e políticos, é criador da realidade social e transformador desses contextos. Nesse sentido, da mesma forma como pode ser visto como um reprodutor da ideologia dominante, em outra versão, “também é espaço de reprodução das contradições que dinamizam as mudanças e possibilitam a gestão de novas formações sociais”. (GAMBOA, 2000, p.104).

O trabalho pedagógico, portanto, implicou em “gostar de ser gente”. Dadas às barreiras de superação difícil em face das diferentes condições materiais, históricas, econômicas, políticas e sociais, ideológicas e culturais, houve a certeza de que os obstáculos não se eternizam, graças a sua ação transformadora, em um permanente processo social de busca. (FREIRE, 1997).