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5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.5. Dificuldades encontradas

Abarca os empecilhos relatados pelos participantes para que pudessem estar mais presentes e participantes nos cuidados do bebê. Este eixo não se relaciona com qualquer objetivo desse trabalho, mas visto a presença de tais informações nas entrevistas e sua relevância em relação à participação do pai no momento de prematuridade, é importante sua apresentação e discussão.

Quadro 9: Quadro das respostas apresentadas para as categorias e subcategorias do eixo das dificuldades encontradas durante o período de prematuridade

Categoria n Subcategorias G1 G2 G1+G2

Trabalho 4/20 Autônomo 1/3 1/1 2

Leis trabalhistas 2/3 2

Regras da instituição 2/20 Vagas no hotelzinho 1/2 1

Horário de visitas do pai 1/2 1

Filhos 3/20 --- 3/3 3

• Trabalho – Compreende as dificuldades relacionadas ao ofício dos participantes, bem como seu vínculo empregatício no mercado de trabalho. Esses obstáculos

englobam o não cumprimento de leis trabalhistas, a restrição da licença paternidade ou mesmo as dificuldades enfrentadas pelo profissional autônomo.

o Autônomo – inclui dificuldades enfrentadas por profissionais que não possuem carteira assinada e, portanto, não têm direito à licença paternidade. o Leis trabalhistas – compõem-se das normas que regem a relação

empregatícia que confere ao pai apenas cinco dias para ficar com seu filho. • Regras da instituição – Abarca as barreiras encontradas pelo pai devido a normas

do hospital.

o Vagas no Hotelzinho – inclui a necessidade apresentada pelos homens do aumento de leitos para as mães que devem amamentar seu filho prematuro durante a internação, abrangendo a possibilidade de o pai também poder dormir na instituição.

o Horário de visita – inclui o desejo da não restrição da entrada do pai na UTIN, mesmo nos horários noturnos.

• Filhos – relaciona-se aos homens do grupo 2 que relatam preocupação com a sua prole, que se encontra em casa aos cuidados de parentes ou amigos, e dividem a atenção entre o bebê e os demais filhos.

No decorrer desta pesquisa, inúmeras dificuldades foram relatadas pelo pai. Pelo fato da investigação ter estabelecido suas bases na teoria sistêmica, estes dados se fizeram importantes, pois, segundo Bronfenbrenner (1986), as relações estabelecidas entre os membros e os ambientes nos quais estão inseridos interferem nas suas interações familiares. Assim, o trabalho, regras institucionais e mesmo a família influenciam no relacionamento do pai com o bebê prematuro.

Mesmo sem terem sido questionados a respeito, quatro entrevistados relataram sentir dificuldades em permanecer presentes no hospital devido a questões trabalhistas. Destes, dois são autônomos, o que, por um lado, permite maior flexibilidade de horários, mas, por outro, são excluídos dos direitos trabalhistas, perdendo o direito da licença paternidade. Estes participantes vêem-se num dilema, pois, se, por um lado, desejam estar junto ao filho, por outro, sentem a cobrança (interna e externa) de garantirem o provimento da família.

Como já discutido anteriormente, os homens sentem-se responsáveis pelo sustento do lar e tendem a trabalhar ainda mais para garantir o mantimento. Tal fato vai de acordo com Castoldi (2002) que constata que o pai é pouco acessível devido às extensas jornadas de trabalho que assume frente à responsabilidade em relação ao novo ser.

As leis trabalhistas também são apresentadas por dois participantes que se vêem injustiçados com o fato de não poderem ficar mais tempo com o filho. Eles consideram cinco dias de licença muito pouco. Um deles chegou a perder o emprego, pois preferiu acompanhar a esposa e o filho nas internações. Tal conjuntura nos faz questionar a legislação vigente que, apesar de colocar a maternidade e a paternidade em grau de equivalência (Brasil, 1988), não disponibiliza com mesma equiparidade o período que a mãe e o pai possuem em relação ao nascimento dos filhos.

A necessidade da mãe se fazer presente no momento de internação do RN é clara no sentido de se considerar a amamentação. Porém, a naturalização da mãe como “cuidadora ideal” e do pai como simples provedor acaba por excluí-lo de um processo de igual valor para a tríade. O pai deveria ter o direito de permanecer junto ao filho prematuro, estabelecendo vínculos e lutando pela vida de seu bebê. Seu investimento na vida do filho é de igual valor ao da mãe. Carvalho (2003) corrobora afirmando a

importância da ampliação da discussão social sobre a paternidade e da formulação de políticas trabalhistas que garantam a presença do pai nos serviços de saúde.

Essas regras que se impõe sobre o trabalhador são referentes ao macrossistema (cultura e regras sociais) do participante (Bronfenbrenner, 1996). A norma social afirma que o homem tem cinco dias de licença paternidade, o que, por ser uma lei, deve ser cumprida. Além disso, deve-se ter em conta as conseqüências da modificação dessa norma frente à sociedade e à economia. Mesmo assim, o assunto deve ser estudado e discutido buscando soluções que possibilitem ao pai vivenciar sua paternidade de forma mais participativa.

Porém, os próprios homens acreditam não serem tão necessários para a vida do bebê, colocando-se como auxiliar da mãe no processo de educação. Muitos dos participantes afirmam que o principal era a mãe estar bem para poder cuidar do filho, excluindo-se a si mesmo do seu papel no desenvolvimento da criança. Castoldi (2002), Bolli (2002) e Orlandi (2006) são alguns dos autores que constatam o fato de o próprio pai atribuir à mãe maior relevância nos cuidados do filho, considerando-se mero coadjuvante do processo.

Outro fator que surgiu no decorrer das entrevistas que diz respeito às dificuldades na permanência do pai com o filho prematuro foi relacionado às regras da instituição. Dois participantes relatam não concordar com a instituição que não permite ao pai pernoitar no hospital. Eles trouxeram questões referentes à falta de vagas no hotelzinho (local em que as mães costumam utilizar durante a internação do filho) para as mães e à carência de um lugar para o pai. Aos homens que vêm de outra cidade é disponibilizado local para dormir na comunidade, mas não existe local próprio para que este possa permanecer junto ao filho na Maternidade. Além disso, um pai reclamou da impossibilidade de visitar o filho após certa hora da noite.

Descobriu-se ainda que dois participantes dormiam no hospital, mesmo sem permissão. Um deles permaneceu no hospital como acompanhante de uma gestante que se encontrava sozinha e, com isso, teve uma poltrona garantida por algum tempo, e outro dormia numa sala chamada “troca de plantão”. Uma mãe que teve de ceder sua vaga no hotelzinho para uma puérpera vindo de outra cidade, também pernoitou nesta sala por alguns dias. Esses fatos demonstram o interesse do pai em permanecer junto ao filho, principalmente nesse momento:

(...) que eu ficar do lado dele, ele me ver, a energia do pai e da mãe ali do lado dele vai ser bem melhor pra ele. Ele vai dizer, ele não vai dizer porque ele não sabe, mas quando ele pegar a idade dele, e começar a falar ele vai dizer: “é pelo menos meu pai e minha mãe não saíram do meu lado (...) (M02).

No caso dos participantes do G2, apareceram as questões relacionadas aos filhos que permanecem em casa. O pai demonstra-se dividido entre permanecer no hospital ou atender aos outros filhos que sentem falta da mãe e não compreendem ao certo o que aconteceu com o irmão. Esse sentimento de divisão entre o bebê internado e os filhos que se encontram em casa foi relatado por mães na pesquisa de Toma (2003). Assim, a rede de apoio do casal deve ser acionada para que o pai possa dedicar esse momento ao seu bebê de forma mais tranqüila.

5.6. Família de origem

Este eixo também não se encontra relacionado aos objetivos, mas devido à presença desses aspectos em outros estudos e sua relevância frente à concepção teórica adotada pela autora, optou-se por apresentá-lo. Ele abarca a referência feita pelos participantes aos próprios pais e suas vivências no lar de origem.

Quadro 10: Quadro das respostas apresentadas para as categorias e subcategorias do eixo da família de origem Categoria n Subcategorias G1 G2 G1+G2 Referência positiva ao pai 4/20 --- 4/4 4 Referência negativa ao pai 2/20 --- 1/1 1/1 2 Referência positiva à mãe 4/20 --- 3/3 1/1 4

• Referência positiva ao pai – Definida pela lembrança vivida de forma positiva de sua relação com seu pai na infância, bem como o desejo de educar seus próprios filhos de forma semelhante.

• Referência negativa ao pai – Definida pela lembrança vivida de forma negativa do seu relacionamento com seu próprio pai na infância, bem como o desejo de educar seus filhos de forma diferente.

• Referência positiva à mãe - Definida pela lembrança vivida de forma positiva de sua relação com sua mãe na infância, bem como o desejo de educar seus filhos de forma semelhante.

Referências feitas às famílias de origem também foram encontradas em número na pesquisa. A metade dos participantes, em algum momento da entrevista, afirmou querer fazer coisas de forma semelhante ou diferente do pai ou da mãe, lembrando-se de histórias da sua própria infância.

Quatro participantes revelaram ter tido experiências positivas com o pai, querendo repetir a educação recebida com seus filhos. Dois demonstraram ter tido experiências negativas, querendo modificar sua conduta com o próprio filho. Em relação à mãe, apareceram apenas referências positivas. Quatro participantes referiram-se à mãe de forma positiva.

Parece que o fato de tornar-se pai permite ao homem entrar em contato com suas vivências na própria família. Esses dados corroboram com o trabalho de Andreani (2006), que afirma que o pai entrevistado fazia referência a sua família de origem, e com o estudo realizado por Beiras (2007), que descreve aspectos que o pai atual apresente e que estão intimamente ligados com a forma de seu próprio pai exercer a paternidade. Segundo o autor, o novo e o velho co-existem.

Percebe-se aqui o cronossitesma (Bronfenbrenner, 1996), pois as experiências vividas influenciam na construção da paternidade a partir do cotidiano e da história de vida que cada um carrega consigo. A paternidade começa a ser construída desde a infância, com o(s) modelo(s) de paternidade(s) que o filho tem. Hopfner (2004) afirma que meninos constroem seu modelo ideal de paternidade a partir das vivências que têm com homens significativos em suas vidas. Porém, não se pode descartar a necessidade de se propiciar ao homem formas de treinar o cuidado desde sua infância.