5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.1 CATEGORIA GESTÃO
5.1.2 Dificuldades para a gestão dos CAPS-ad do DF
Os gestores entrevistados trazem como uma primeira e impactante dificuldade para a gestão dos serviços, o processo de lotação dos profissionais nos CAPS-ad, que se dá por concurso público específico para saúde, mas inespecífico para o campo da saúde mental. Essa dinâmica termina por trazer para os CAPS-ad um corpo de profissionais que não necessariamente se identificam ou são instrumentalizados tecnicamente para lidar com as vicissitudes do campo e modelo de saúde mental a ser desenvolvido:
“[...] a especificidade do serviço é muito grande, tem muitas especificidades em trabalhar com saúde mental, em trabalhar com álcool e drogas e aí as pessoas simplesmente chegam [...]” (Gestor I); “[...] às vezes a equipe que vem parar no centro de atenção psicossocial não fez um concurso especifico e não tem uma compreensão que o trabalho em saúde mental é aquela coisa diferente de tudo que a gente conhece [...]” (Gestor VII);
“Eu acho que esse é o primeiro maior desafio, ter uma equipe que compreenda e que viva a saúde mental, porque as vezes o que eu percebo em algumas pessoas da equipe é que as grades do manicômio está dentro de cada um.” (Gestor VII).
Além do despreparo inicial das equipes, quando ingressam nos serviços, a própria estrutura dos serviços, física, material e de recursos humanos é colocada como elemento que, quando em falta, dificulta os processos de gestão para que o serviço alcance seu potencial:
“[...] qualquer coisa que você precise em benefício do serviço é muito burocrático de conseguir, então você tem que fazer uma série de justificativas, você tem que conversar com uma série de setores e talvez no final do processo, você não consiga o que você estava precisando [...]” (Gestor I);
“[...] o serviço perde muito no potencial em que ele poderia ter, porque não tem recursos seja humano, seja de infraestrutura [...]” (Gestor I); “De desafio é a falta de estrutura mesmo, você não ter equipamento básico, não ter telefone [...]” (Gestor III)
“A gente não tinha mobiliário, não tinha recursos humanos, era só eu e a psiquiatra [...]” (Gestor V);
“Nós ficamos em 4 (quatro) servidores, mais ou menos um ano e meio, depois foi chegando de um em um [...]” (Gestor V);
“Maior desafio, é a questão de recursos humanos, recurso físicos né, a gente não tem matérias pras oficinas, a gente faz bazar ou doação do próprio bolso mesmo pra fazer, senão não, não mantém as oficinas que a gente tem, e assim vai [...]” (Gestor V);
“Os principais desafios são a falta dos recursos, recursos necessários para se fazer gestão né, então quando você, o básico falta fica muito complicado, porque reflete na motivação dos servidores.” (Gestor VI)
Os gerentes entrevistados trazem a questão de que a inovação do modelo em construção, somada à baixa capacitação/identificação inicial dos servidores é
evidenciada/exacerbada no processo de atuação interdisciplinar e de co-gestão, pilares desse modelo, gerando situações de difícil manejo para os gestores:
“[...] muitas vezes você esbarra no não desejo de alguém de mudar sua percepção sobre determinadas coisas [...]” (Gestor I);
“[...] [É difícil trabalhar] a equipe e os usuários para romper com o modelo hospitalocêntrico que reproduz as práticas de isolamento, segregação, exclusão [...]” (Gestor II).
“É [difícil] chegar no senso comum né? Não é chegar no senso comum, mas em uma coisa parecida sem ter brigas, a gente tentar se entender, a gente tentar fazer uma coisa que a maioria entenda que é correto e que as outras pessoas aceitem isso, que eu acho que o que vale é a maioria.” (Gestor III);
“Por ser uma equipe multiprofissional, cada um pensa de um jeito [...]” (Gestor IV);
“[...] [É difícil] colocar em prática o PTS [...]” (Gestor IX);
Outra percepção de dificuldade de gestão que é recorrente no discurso dos entrevistados é a percepção de receberem pouco apoio do nível central ou mesmo entre os pares:
“[...] faltam ferramentas de gestão para lidar com os conflitos, seja nas equipes, seja nos próprios colegiados. A gestão das organizações de saúde mental é uma atividade complexa, e que exige muito investimento da equipe de gestão e dos trabalhadores para lograr resultados satisfatórios [...]” (Gestor II).
"[...] a gente precisa estar mais junto, porque acaba que cada um está tentando sobreviver, entendeu?” (Gestor III);
“[...] às vezes a coisa fica tão complicada que a gente precisa mesmo ser ouvida (...) porque às vezes as coisas ficam loucas, porque “X“ vão mandar me prender? Como é isso? Às vezes, você acaba fazendo coisas que nem precisava, mas com medo e com a pressão que você tem.” (Gestor III);
“[...] a nossa rede, ela não se conversa, eu sinto essa dificuldade.”; “Passaram-se várias gestões, a gente teve três gestões, estamos na quarta gestão e ninguém conhece o CAPS.” (Gestor V);
“[Há] Distanciamento e lentidão da Diretoria de Saúde mental , na solução de questões que dependem daquela diretoria [...]” (Gestor IX);
Todo esse conjunto de dificuldades apontadas exacerbam-se pela falta de (ou baixa) vontade política em consolidar o modelo de saúde mental. O que termina
repercutindo em sobrecarga dos serviços, que têm que lidar com territórios e população muito superiores ao preconizado. Tal situação abandona ao gestor da unidade a responsabilidade de construir articulações e defender o modelo:
“[...] existem diversos interesses políticos que você tem que ficar mediando, não é só o crescimento do serviço e a assistência à população, é o quanto esse serviço tem um valor político, o quanto ele traz benefícios pra uma certa pessoa ou pra um setor, quanto mais benefícios ele trouxer mais benefícios ele terá [...]” (Gestor I);
“[...] desafio foi pensar a gestão como uma ação política de interlocução com diversos atores e setores, trabalhando com as pluralidades, a interdisciplinaridade, a subjetividade, administrando isso com os processos de trabalho de uma clínica ampliada [...]” (Gestor II).
“Como a nossa área de cobertura é muito grande, a gente tem que ir descobrindo [...] a gente tem que ir a campo mesmo pra saber o que é que tem por lá e isso dificulta bastante, porque a nossa equipe é pequena e acho que a gente tinha que estar mais junto.” (Gestor III); “Aqui [...] como eu conheço mais a rede, então a coisa está mais estruturada [...] a gente participa da reunião de rede, então a gente consegue manter um contato maior, mas em outros lugares [que são da área de abrangencia] [...] a gente não é tão próximo, eu nunca fiz reunião de rede [nesses outros lugares] [...]” (Gestor III);
“[...] a gente fica muito pra trás na questão da saúde mental, a gente não é visto. Muitas vezes eu sinto que a gente não tem muita legitimidade diante de outras coisas. Quando a gente perde por exemplo, profissionais sem a gente ser consultado, quando a gente perde transporte, quando a gente perde espaço pra funcionar [...]” (Gestor VII);
“[...] os principais desafios, o primeiro deles né, é ser coeso na rede, eu acho que a saúde mental ainda é estigmatizada, então essa luta pra estar inserida mesmo no contexto de saúde [...]” (Gestor VIII); “[...] a gente está com inchaço no serviço, isso nos três CAPS (da região) por causa desse problema hoje [...]” (Gestor VIII);