APÊNDICE V Formato estado da cadeia produtiva da ovinocultura do
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.2 Evidências e características de um sistema de inovação do MS
5.2.13 Dificuldades predominantes na ovinocultura
Esta categoria analisa as dificuldades presentes na cadeia produtiva da ovinocultura do Mato Grosso do Sul e no programa de desenvolvimento da ovelha pantaneira, de forma a evidenciar o próprio estágio de desenvolvimento da ovinocultura no estado. Estas evidências podem revelar a maneira em que a inovação é gerida neste sistema de inovação predominante na ovinocultura do Mato Grosso do Sul.
No Apêndice W estão evidenciadas as principais expressões dos entrevistados que revelam as dificuldades que apontam como existentes na cadeia produtiva da ovinocultura e
que dificultam as ações para inovar tornar esta ovinocultura sustentável, competitiva e também para desenvolver a ovelha pantaneira.
Estas dificuldades podem ser elencadas em cinco categorias, conforme respostas dos entrevistados sumarizadas no Apêndice U e apresentadas no quadro 17 a seguir
Quadro 17 – Dificuldades apresentadas pelos agentes para desenvolver a ovinocultura do MS
Categoria Dificuldade
Apoio Financeiro
Falta de apoio financeiro por parte dos governos federal, estadual e municipal diretamente a ovinocultura.
Falta de uma pauta dos impostos incidentes sobre a venda dos animais. Credibilidade da ovinocultura
do estado
Falta de visão no estado em se ver e considerar a ovinocultura como uma atividade sustentável.
Continuação
Categoria Dificuldade
Capacitação da mão de obra nas fazendas
Falta de mão de obra especializada nas propriedades para tratar com os problemas técnicos e sanitários na fazenda e dos animais.
Profissionalização nos elos da cadeia produtiva e de produtores
Falta de profissionalização da atividade no estado com o predomínio de animais fora do padrão exigido pelo mercado.
Falta de capacitação do pequeno produtor que não buscam aperfeiçoamento técnico.
Dificuldade em eliminar a verminose predominante em algumas propriedades.
Falta de registro de animais pelos produtores.
Falta de investimento por parte dos produtores para melhorar e profissionalizar a produção.
Programa troca de ovinos (ovelha pantaneira)
Dificuldade em eliminar a verminose que ainda matam muitos animais.
Estrutura técnica e institucional
Restrição governamental ao programa de troca de ovinos, que não permite aos produtores a revenda dos animais deste programa. Falta de mais associações de ovinocultores;
Falta na continuidade das APL´s criadas para na ovinocultura Falta de estrutura para distribuir e buscar a ovelha pantaneira nas
diversas regiões do estado.
Falta de uma cadeia de distribuição de animais para o abate e envio para frigoríficos.
Falta de um sistema de marketing para incentivar o consumo da carne de ovino na região.
Falta de frigoríficos específicos para abate dos ovinos no estado Fonte: Dados da Pesquisa. Elaborado pelo Autor (2014).
Os dados mostram que a maioria das dificuldades apresentadas pelos agentes para promover o desenvolvimento da ovinocultura do MS concentram-se na estrutura técnica e institucional, seguida da falta de profissionalização da atividade e de alguns elos da cadeia, dificultando-se assim, o eficiente funcionamento da cadeia produtiva da ovinocultura do MS.
As evidências identificadas sobre as dificuldades existentes na ovinocultura do MS indicam que esta atividade agropastoril do agronegócio no MS ainda está em um estágio de desenvolvimento e que não há um modelo de gestão de conflito e crises na ovinocultura local. Para Davidson (2000), os agentes de inovação não aprendem necessariamente com os acontecimentos passados, assim, os resultados de eventos passados não podem contribuir de forma completa para a constituição de distribuição de probabilidades que fundamentem a formulação de expectativas racionais sobre acontecimentos futuros. É nesta visão de Davidson (2000), que os resultados encontrados nesta categoria de análise evidenciam eventos que precisam de investimentos em mão-de-obra, capacitação de produtores, estrutura física, estrutura de distribuição, estrutura de marketing, estrutura específica para abate e políticas
aprimoradas para o desenvolvimento da ovelha pantaneira, mostrando uma realidade do presente e desejada pelos agentes.
Quanto às melhorias necessárias para a inovação e crescimento da ovinocultura do MS e que, de certa forma, requer maior empenho das instituições e dos próprios agentes de inovação, o coordenador técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos, responsável pelo registro de animais, relata:
Sim, há dificuldades ainda na nossa ovinocultura, pois a distribuição dos animais pantaneiros e não pantaneiros está localizada em regiões peripantaneiras e nos órgãos de pesquisa. [...]Temos regiões peripantaneiras e muitos destes animais estão dizimados por reprodução de outras raças, porque os produtores não estão encontrando no mercado reprodutores da raça pantaneira. [...] Estamos perdendo rebanho. [...] As instituições de pesquisas ainda não estão fazendo o trabalho de seleção e registro dos animais pantaneiros, mesmo sendo isenta para fazer estes registros. (Coordenador Técnico da ARCO- MS, 2014).
Ainda quanto às dificuldades encontradas na ovinocultura do MS, um pequeno produtor de ovinos no MS, beneficiado com o programa troca de ovinos que recebe em sua propriedade a ovelha pantaneira, relata que,
O que precisa para melhorar na ovelha pantaneira é o tempo para ir se adaptando, pois temos mortalidade desta raça, principalmente em minha propriedade, desta forma, as que forem resistentes vão se adaptando à região [sic]. [...] Falta inovação na ovinocultura do estado para ela se tornar competitiva. [...] Na ovinocultura do Mato Grosso do Sul, estamos engatinhando, pois tenho um parente no interior do estado de São Paulo que tem criação de ovinos lá. Em São Paulo, tem muitos eventos sobre ovinos, palestras, mini-cursos, muita coisa. Aqui no Mato Grosso do Sul a gente tá[sic] indo devagar, precisamos de mais informações, dar mais interesses para o pecuarista. [...] Falta profissionalização, pois tenho um vizinho produtor que tem 500 cabeças e não sabe quanto de seus animais morrem. (Pequeno produtor de ovinos no MS, 2014).
Os dados colhidos junto aos entrevistados apontam uma série de dificuldades encontradas pelos agentes frente ao modelo da cadeia produtiva da ovinocultura do MS.
Vários são os elementos que dificultam a profissionalização e o avanço da ovinocultura no Mato Grosso do Sul, conforme reconhecem os agentes entrevistados. Na visão destes agentes, estes elementos podem ser melhorados ou eliminados, para tornar a ovinocultura mais competitiva no estado.
Não há profissionalização na criação de ovinos no estado, desta forma a cadeia produtiva passa uma imagem de desacreditada decorrente da falta de organização dos produtores.
Quando se referem à falta de profissionalização, os agentes incluem a mão-de-obra, o produtor, o sistema de distribuição e o sistema de abate, dificuldades já apontadas anteriormente e comprovadas nas expressões dos entrevistados no Apêndice V e sumarizadas no quadro 17.
Em consequência disto, o Coordenador e Pesquisador do Núcleo de ovinotecnia da Universidade Federal da Grande Dourados não enxerga no Mato Grosso do Sul uma ovinocultura forte. Segundo este coordenador, é preciso uma reorganização desta atividade no estado. Afirma também que é preciso incentivar o cooperativismo na ovinocultura e que é preciso enxergar a ovinocultura do MS de forma integrada. Por isso afirma: “precisamos fazer o que já vem sendo feito em outras ovinocultura no Brasil, por exemplo, o caso do estado do Paraná; lá, o produtor sabe o que está produzindo, para quem está produzindo, para quem vai vender e por quanto vai vender. [...] Precisamos organizar e profissionalizar nossa cadeia produtiva”. (Coordenador e Pesquisador do Núcleo de ovinotecnia da Universidade Federal da Grande Dourados 2014. Entrevista. mês/ano).
Por outro lado, sendo mais otimista, o Gerente da Fazenda Soberana, diz o seguinte:
A ovinocultura do Mato Grosso do Sul está em parte melhor do que outros estados, por exemplo, no estado de São Paulo tem uma qualidade de animal muito boa, só que os custos de produção na maioria das vezes são maiores do que a renda que estes animais proporcionam com sua venda, o que pode levar o produtor mais cedo ou mais tarde a parar de criar ovinos. [...] No Mato Grosso do Sul, alguns produtores fazem as contas primeiro para saber se compensa criar ovinos. Esta é uma boa cultura. [...] O que está faltando na ovinocultura do MS é profissionalização. (Gerente da Fazenda Soberana, 2014).
Os relatos do Coordenador e Pesquisador do Núcleo de ovinotecnia da Universidade Federal da Grande Dourados e do Gerente da Fazenda Soberana evidenciam, portanto, falta de profissionalização e de um modelo de gestão eficaz na cadeia produtiva da ovinocultura do Mato Grosso do Sul. Evidência esta constatada nas expressões do Apêndice V.
Ainda, quanto à falta de profissionalização da cadeia produtiva da ovinocultura do MS, a Pesquisadora em ovinos da Embrapa Agropecuária Oeste quando relata:
Na ovinocultura do Mato Grosso do Sul a gente tem muitas dificuldades, principalmente em mão-de-obra capacitada para trabalhar, porém quando se trata da cadeia produtiva, os produtores esbarram na questão da comercialização. [...] estes produtores sentem as maiores dificuldades na hora da comercialização de seus animais. [...] os nossos produtores gostam desta atividade, gostam de criar ovinos, porém pensam assim: por que eu vou aumentar o meu rebanho, se eu não tenho para quem comercializar os meus animais? [...] A gente sabe que os frigoríficos da região trabalham muito abaixo da sua capacidade de produção. No Mato Grosso do Sul alguns frigoríficos fecharam as portas,
desta forma, o produtor de ovinos do Mato Grosso do Sul tem que mandar seus animais para serem abatidos fora do estado. [sic] (Pesquisador da Embrapa – Oeste/MS, 2015).
Quanto à falta de um canal de distribuição dos animais em pé e da carne resultante dos abates, para Alcântara (1999, p. 227) tradicionalmente, os canais de distribuição são estruturados de forma a antecipar o produto em relação à demanda. Esse caráter antecipatório das transações sempre foi visto como um risco necessário e inerente ao processo de adição de valor pela distribuição.
Os dados mostram que a inexistência de um eficiente canal de distribuição na cadeia produtiva da ovinocultura do Mato Grosso do Sul dificulta a eliminação de riscos inerente ao processo de adição de valor pela distribuição, conforme a perspectiva de Alcantara (1999).
Ainda em relação a distribuição, os dados mostram também a falta um projeto eficaz de tecnologias disponível no estado para aproveitamento de subprodutos provenientes do abate dos animais por parte dos produtores. Este fato se constata pelo relato do Coordenador da Câmara Setorial de Caprino-ovinocultura do MS, quando relata:
Temos que pensar na diversificação da propriedade rural, para não incorrermos de estarmos no momento de incentivarmos a ovinocultura e ao mesmo tempo momento seguinte deixar de incentivar. [...] temos que pensar em aproveitar os subprodutos que podem ser extraídos dos animais e ganharmos dinheiro com isto também no estado. [...] No sul, além dos animais, os produtores lucram com a lã, leite e o queijo.[sic] (Coordenador da Câmara Setorial, 2014).