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Dificuldades relacionadas com o Etnocentrismo

5 ANÁLISE DOS RESULTADOS: DIFICULDADES DOS EXECUTIVOS BRASILEIROS AO

5.5 Dificuldades relacionadas com o Etnocentrismo

Este ponto não foi abordado de maneira estruturada nas entrevistas, por não fazer parte da pauta inicial. No entanto, ao rever todas as entrevistas, notamos que alguns entrevistados falaram sobre dificuldades ligadas ao etnocentrismo e as colocamos nesta seção.

Identificamos três dificuldades que podem ser relacionadas como o etnocentrismo. A primeira tem a ver com um problema de não falar e compreender muito bem o espanhol

e expressões típicas. Assim, o mexicano enxerga o brasileiro como alguém diferente, e que não faz parte do grupo, o que pode dificultar o convívio, o trabalho e os negócios. Por outro lado, em algumas questões o mexicano enxerga o brasileiro como semelhante, pelo fato de serem ambos provenientes de países latinoamericanos, ou, por exemplo terem sido colônias ibéricas. Neste caso o mexicano parece aplicar sobre o brasileiro o mesmo etnocentrismo negativo que aplica sobre si próprio. Assim, ele tende a preferir modelos de gestão e formas de trabalho vêm da Europa ou dos Estados Unidos ao que vem do México ou Brasil.

A terceira tem a ver com o fato do brasileiro, como forma de se adaptar, começa a baixar as suas expectativas para não enxergar mais as diferenças e não se irritar mais com elas.

A explicação para as três dificuldades estão desenvolvidas abaixo.

5.5.1 Etnocentrismo Negativo

A bibliografia fala sobre o etnocentrismo negativo, comum em países que foram colônia como Brasil e México, que se trata de um complexo de inferioridade coletivo decorrente de um questionamento radical de sua cultura por parte do colonizador, que impõe sua superioridade militar e tecnológica (PERROT, 1979, p.54).

Samuel Ramos e José Iturriaga, por sua vez, apresentaram a influência do etnocentrismo negativo no imaginário da sociedade mexicana. Segundo eles, o mexicano contraiu um sentimento de inferioridade e menosvalia no transcurso do tempo, causados por uma série de eventos históricos que ocorreram desde a Conquista espanhola e aumentou mais ainda com a independência, devido a novos eventos históricos, como as constantes intervenções francesas e norte-americanas. (BEJAR NAVARRO, 1968, p. 121).

O que os comentários dos entrevistados evidenciam é que os mexicanos enxergam os brasileiros como semelhantes, conforme nos fala o entrevistado #7:

[O México] é um país que oferece ao brasileiro grandes condições, que oferece um monte de coisas ao brasileiro, ele é bem querido. Eu acho que no caso o brasileiro tem uma vantagem, porque como ele não é hispânico, então você não tem a competição de estar com um mexicano, e por outro lado você não é americano; e o europeu ainda tem a carga do espanhol. Então, o brasileiro é um cara solto é um cara que eles vêem com bons olhos, eles aceitam de forma mais fácil. Foi isso que eu identifiquei.

Porém, isso parece ter um aspecto negativo em alguns casos. Ao que parece, ao ver os brasileiros como semelhantes, eles lançam sobre eles também o sentimento de etnocentrismo negativo. Assim, as dificuldades encontradas pelos executivos brasileiros neste aspecto advém do fato dos mexicanos não os enxergarem como executivos de alto nível, como eles esperam que seja um europeu ou um norte- americano.

• Dificuldade: o executivo brasileiro não é visto pelo mexicano, em geral, como uma referência em gestão. Isso traz uma dificuldade de se impor, de se

legitimar, como líder, tomador de decisão, e pessoa a ser seguida. O entrevistado #3 ilustra o caso:

[Havia uma dificuldade que vem da] relação econômica de poder entre países. O México também foi colônia; num primeiro momento ele nunca vai reconhecer o Brasil, ou o brasileiro, como alguém que venha de um lugar diferente. Então, muito do jeitinho brasileiro não é reconhecido como referência de management, modelo de gestão, etc. Até porque a gente resolve tudo mais no talento, ser menos formal, tomar decisões mais informalmente, ser muito flexível. [O brasileiro é] menos baseado nos parâmetros pré- estabelecidos.

No México, aí é que tá, a referência é exatamente ao contrario, a referência na tomada de decisão é o alemão, tomada de decisão americana, é muito previsível, não é uma coisa que é ruim, mas é mais previsível. Que também não é o estilo mexicano, mas [o mexicano] reconhece como o que deveria obedecer. Acho que esse é o primeiro ponto de dificuldade.

[Outro] problema [é o de] não ter muita empresa brasileira lá fora [do Brasil]. Então, a cultura, o tipo de cultura do empresariado brasileiro é meio estranho. Porque por exemplo, uma empresa alemã também não é muito normal uma relação com a

sociedade no México, são outras pessoas, mas se você fala ‘ah, é uma empresa alemã, deve ser assim, assim, assado.’ Todo mundo sabe, imagina o que vem. Quando é uma empresa brasileira, ninguém sabe o que vem. O que [isso] provoca? Provoca um desconforto, de não reconhecimento do brasileiro como referência de empresário, de executivo.

5.5.2 Dificuldades relacionadas ao idioma e expressões típicas

Outra dificuldade surge da comunicação. Como muitos dos executivos brasileiros não falam muito bem o espanhol, eles acabam criando barreiras adicionais.

• Dificuldades com o idioma espanhol. As barreiras surgem não só pelos executivos não entenderem ou não se fazerem entender, mas também por não compreenderem as entrelinhas, as expressões típicas. Então eles acabam sendo vistos como de fora do grupo, o que fecha algumas portas. O primeiro caso é ilustrado pelo entrevistado #2:

A primeira dificuldade é da língua porque gente sempre acredita que seu espanhol está um pouco melhor do que realmente está. Como sempre estamos acostumados a escutar um castelhano mais próximo do uruguaio, do argentino, o sotaque mexicano é muito diferente. Então numa negociação direta, às vezes o cliente fala um pouquinho mais rápido e isso é o primeiro impacto de dificuldade. O sotaque deles é bem diferente. [E eles tinham muito mais dificuldade de me entender do que eu a eles.] Até porque meu sotaque vinha muito carregado do português então eu percebia que algumas pessoas tinham preguiça em me entender, isso é bem marcante.

O entrevistado # 3 fala sobre o segundo aspecto, mais sutil:

A outra dificuldade é a dificuldade de comunicação. Se você não fala fluente espanhol, não entende as expressões subliminares mexicanas, você nunca vai ser considerado [uma pessoa] que já está no México, que entende do México, as pessoas não te respeitam no seu dia a dia de trabalho. As pessoas podem reconhecer a hierarquia porque são muito formais, muito hierárquicas, mas não reconhece você. No dia a dia, o pessoal nunca vai te respeitar.

Além da língua, o grau de formalização, como eles são formais, como eles falam as coisas de maneira indireta que você tem de captar, o quanto você domina a língua, o quanto você domina os costumes. Então, o mexicano tende a não te incluir enquanto você não se “mexicaniza”; isso é um fato.

5.5.3 Baixar Expectativas

O entrevistado #7 falou sobre a necessidade que muitos executivos brasileiros têm, depois de um tempo, de baixar as expectativas e a cobrança em cima de si mesmo e dos demais para conseguir se adaptar melhor.

• Relaxamento e perda de competitividade por baixar expectativas, se adaptar e se fazer mais parte do grupo. O entrevistado #4 fala sobre um problema que

pode surgir que é o de baixar suas expectativas e se acostumar com isso, de forma a não se abalar e não enxergar as dificuldades. Ele nos conta:

O executivo brasileiro, no caso, que eu sou, ele vai passando por etapas. Eu cheguei até a me pegar meio que adaptado demais, já estava achando aquilo tudo normal [aquelas dificuldades, ou as coisas que eu não concordava e achava que tinham que ser diferentes] e não devo encarar como normal, às vezes até o relaxamento no cumprimento de algumas coisas, até com o meu pessoal mesmo. Por exemplo, você pede pro cara e o cara não vai fazer, então você baixa o nível de exigência sua. Você brinca, aqui [no México] eu faço isso com o pé nas costas, como você tem exigência baixa, e você relaxa. E no relaxar, também, você se torna menos competitivo.

Você relaxa em aprendizagem, você relaxa em buscar coisas novas pra você melhorar a sua forma de atuar, você vai relaxando. Realmente você entra, acaba entrando naquela estrutura, naquele modelo típico de gestão mexicana. Acho que tem muito brasileiro já assim. Como o brasileiro é de fácil adaptação, ele pega fácil, ‘isso aqui é o modelão, eu já me adaptei ao modelão mexicano’.

Aí você fala assim, vou baixar o nível de exigência e vou tentar conviver com isso, buscando melhorar a produtividade, buscando melhorar a [minha] insatisfação. Eu acho que a maioria acaba fazendo isso, porque tem esse período de impacto, depois eu

acho que vem o entendimento, tem essa adaptação, em maior escala ou menor escala; uma acomodação. Ou baixa o nível de exigência e relaxa um pouco, ou minha vida vai ser um inferno.