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Diga o seu trabalho e lhe direi de que gênero é!

PRIMEIRA PARTE: A TRANSIÇÃO DO DISCURSO E O DISCURSO DA TRANSIÇÃO

1.2 DISCURSOS, REFLEXÕES, DISSERTAÇÕES E PESQUISAS SUI GENERIS

1.2.4 Diga o seu trabalho e lhe direi de que gênero é!

Como afirmou Kirsten Schilt (2006) existem profissões generizadas, quais “blue-collar occupations” and “women' s professions” (ocupações de cor azul e profissões das mulheres) (p.445), que são hegemonicamente monopolizadas pela presença de um gênero específico. Alguns destes trabalhos, de fato, com dificuldade são ocupados por ambos os gêneros. Estas profissões parecem, na verdade, excluir um ou outro gênero, levando em conta que as posições de poder, sobretudo no contexto italiano, são ocupadas principalmente por homens (Bimbi, 2009).

Esta perspectiva de disparidade parece nascer mesmo de uma distinção de papéis que veem o homem como protagonista agente do público e a mulher como comparsa passiva dentro dos muros domésticos. Enquanto o homem visa possuir as competências e as habilidades para gerar mudanças no tecido social e histórico, as mulheres teriam, portanto, a tarefa atribuída pelo homem de cobrir os papéis do care. Nasce, de fato, destas considerações, um paradigma típico do welfare ocidental e eurocêntrico (Bimbi, 2009) que se baseia em uma bipartição de dois sistemas existenciais antinômicos, mas compensadores: o homem bradewinner versus a mulher caregiver (Kittay, 2011).

As/Os transgêneras/os, mesmo ao pôr em discussão esta rígida dicotomia, com dificuldade encontram um trabalho entre as ocupações socialmente legitimadas. Não por acaso muitas profissões que desempenham, representam de alguma forma ambientes que convalidam a sua diversidade e onde o estigma torna-se um símbolo de prestígio (Goffman, 1963/1983).

Um dos temas centrais, assunto desta tese, tem a ver exatamente com a inserção das/dos transgêneras/os no mundo do trabalho e as problemáticas relativas à prostituição. Entre as contribuições mais recentes sobre o assunto, um artigo publicado por C. Connell (2010) põe em discussão o conceito de “fazer gênero”, entendido como atuação de um gênero no palco da vida cotidiana (West & Zimmerman, 1987). Segundo Connell, a construção de fazer gênero tenderia a reforçar as diferenças e, portanto as desigualdades entre os gêneros: “O fazer gênero é sobretudo uma teórica da interação; esta pressupõe um contexto cultural dentro do qual é possível mudar o binarismo dos

gêneros” (C. Connell, 2010, p.52)39.

A pesquisadora sustenta que a utilização deste termo, de conotação goffmaniana, seja pouco atuável, sobretudo pela dimensão sempre mais fluida das realidades sociais, onde as identidades com dificuldade afirmam-se por meio de percursos ou “script” socialmente preestabelecidos sem considerar a peculiaridade de específicos contextos que estão situados e culturalmente circunscritos: “Os indivíduos devem atuar o próprio gênero em relação a específicas coordenadas culturais” (ibidem, p.51)40.

A pesquisa, realizada em um corpus de 19 entrevistas com mulheres transgêneras, enfatiza quanto o posicionamento em ambientes de trabalho ressentem fortemente da própria identidade de gênero, a qual parece produzir as desigualdades que habitualmente intercorrem entre mulheres e homens:

“As pessoas transgêneras não são necessariamente os únicos atores sociais envolvidos no undoing o redoing gênero; de fato, mais são os tentativos de mudar o binarismo de gênero, mais o terreno comum resulta descoberto por pessoas transgêneras e outros que opõem-se à desigualdade de gênero” (ibidem, p.51)41.

A respeito desta perspectiva analítica articulam-se a maioria das produções científicas que ocupam-se, no âmbito das ciências sociais, de gêneros em transição e mundo do trabalho.

Schilt e Westbrook (2009) publicaram uma pesquisa etnometodológica, estudando por um lado as interações entre os assim chamados Gender Normals e transgêneras em contextos de trabalho e por outro lado como as transgêneras são representadas pelas mídias. A partir das 54 entrevistas realizadas, junto a uma análise de discursos jornalísticos por meio do software ATLAS-ti, emergiu que as/os transgêneras/os enfrentam um percurso de transição geralmente mais

39 Versão original em inglês: “First, fazer gênerois a theory of interaction; it

presupposes a structural context that enables challenges to the gender binary”.

40 Versão original em inglês: “Individuals are held accountable for performing

their gender in culturally specified ways”.

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Versão original em inglês: “Transpeople are not necessarily the only social actors engaged in the undoing or redoing of gender; in fact, the more moments of challenging the gender binary that are identified, the more common ground is uncovered for transpeople and others to oppose gender inequality”.

curto, se inseridas/os em contextos de trabalho “generizados”, isto é profissões culturalmente identificadas com uma identidade de gênero especifica (Schilt & Westbrook, 2009).

A pesquisa evidencia a forte correlação entre heteronormatividade e dicotomia sexual, a respeito do qual quebram a coerência e estabilidade de uma hegemônica concepção binária de gêneros.

Mesmo Schilt (2006) evidenciou como os homens transgêneros (FtM) representem as disparidades, que geralmente caracterizam as interações intergênero em contextos de trabalho. Os resultados teriam sugerido que não era tanto o percurso de transição em si a gerar desigualdade, quanto a acepção feminina da própria identidade de gênero. De fato, uma vez completada a passagem do feminino ao masculino, os homens transgêneros (FtM) teriam de uma posição social mais favorecida em ambientes de trabalho.

Entre as diferentes atividades profissionais que tradicionalmente envolvem as/os transgêneras/os, o mundo do espetáculo teve sempre uma atenção especial para artistas não heteronormativos. As Drag-queen dos anos 80 constituíram um panorama criativo que influenciou uma geração inteira de escritores (Daniel Harris), músicos (Bob Dylan, Fabrizio de André) e cinematógrafos (Stephen Elliot). Todavia, são poucas as documentações sobre Drag Kinging, fenômeno que vê como protagonistas os homens transgêneros. Entre as raras publicações sobre este fenômeno particular, sobressai um recente estudo de Shapiro (2009). A autora coletou 28 entrevistas semiestruturadas com mulheres travestis.

Os resultados demonstraram que o drag-kinging, apesar de ter sido sempre associado ao travestismo, representa uma forma particular, talvez temporária, de fazer gênero como verdadeira e própria afirmação do self. As pessoas entrevistadas, de fato, desempenharam comportamentos tipicamente masculinos, assumindo totalmente os papéis sociais e gestos culturais correspondentes. Shapiro, além disso, analisou 200 vídeos de espetáculos Drag-Kinging. Os resultados sugerem uma co-presença de diferentes identidades de gênero que uma pessoa assume (e não simplesmente desempenha) dependendo de contextos específicos e situações sociais.

Enfim, as pesquisas que se interessam por aspectos de trabalho não podem evitar considerar o mercado da prostituição europeu, que ao longo do tempo viu entre as suas protagonistas as mulheres transgêneras, muitas vezes originárias do Brasil (Di Folco & Marcascano, 2001; Farais de Albuquerque & Jannelli, 1994;

Marcascano, 2002).

Estudos recentes, mais pôr ênfase nos processos estigmatizados da prostituição, transferiram a atenção para as dinâmicas sociais e de mercado ligadas a organização deste negócio. Segundo Vidal-Ortiz, a identidade das transgêneras se articularia a partir de outros aspectos normativos da dicotomia sexual e em relação à própria opção sexual.

Ser transgênera/o, desempregada/o e clandestina/o representa uma realidade que, muitas vezes, tem a ver com migrantes sul- americanos, sobretudo brasileiros, que constituem uma percentagem significativa da prostituição na Europa. Por anos as transgêneras ficaram relegadas a uma condição de desvio, e o comércio ilegal tornou-se muitas vezes a única possibilidade de reivindicar um papel ocupacional próprio: “Muitas vezes não se dá para as mulheres transgêneras um emprego em trabalhos econômicos formais (...) esta perspectiva negativa reduz as suas possibilidade de trabalhar fora de um sistema econômico de rua, como o faz” (Vidal-Ortiz, 2009, p.10042).

Esta última pesquisa enfatiza o lado mais ostracizante de uma discriminação social e cultural das mulheres transgêneras, que muitas vezes se veem obrigadas a vender o próprio corpo e a própria imagem para uma clientela masculina na maioria heterossexual (Sabatini, 2005). 1.2.5 O lado feminista do conhecimento

“O Feminismo é a descoberta radical, que as mulheres são pessoas” (Paula Treicher & Cheris Kramarae, 1983, p. 122)

Um forte impacto no estudo do transgênerismo foi exercitado no âmbito das teorias feministas, as quais desenvolveram uma “abordagem ontológica orientada para a desconstrução dos processos sociais, observados como relações sociais; a atenção para as experiências e narrações das mulheres, e a sua capacidades de agir transformando o mundo social” (Bimbi, 2009, p.261)43.

A abordagem feminista propõe, portanto uma alternativa a

42 Versão original em inglês: “Often, transwomen are not given employment in

formal economy jobs (...) Such negative assessments reduce their possibilities to work outside street economies like sex work”.

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Versão original em italiano: “approccio conoscitivo orientato alla decostruzione dei processi sociali, osservati in quanto rapporti sessuati; l’attenzione alle esperienze ed alle narrazioni delle donne, ed alle loro capacità di agire trasformando il mondo sociale”.

ontologia declinada ao masculino, profundamente ancorada nas modalidades de perceber, interpretar e, portanto conceber a realidade. A representação hegemonicamente patriarcal do conhecimento tinha de fato, dominado a Weltanschauung no ocidente desde a antiguidade, impedindo a elaboração de outros paradigmas e modelos gnosiológicos. Em particular nas culturas sul- europeias e médio-orientais desenvolveu-se sistemas de conhecimentos os quais, “representam uma forma paradigmática da visão ‘falo-narcísica’ e da cosmologia androcêntrica, comuns a todas as sociedades mediterrâneas e que sobrevivem, até hoje” (Bourdieu, 1998/2010, p. 14).

Entre as diferentes correntes de pesquisa que afirmaram-se dentro deste movimento científico sobressai o conceito chave de Fazer Gênero de West & Zimmerman (1987) ao qual referiu-se na parte histórica. Os dois autores foram particularmente interessados na emergente cena transgênera e como esta fosse a emblemática representação de um percurso existencial no qual não se nascem mulheres, nem homens mesmo. Os estudiosos dedicaram a isso muitas pesquisas e reflexões teóricas, confrontando-se constantemente com as e os representantes, também científicos, do movimento transgênero, entre os quais C. Connell e R. W. Connell.

Em uma recente publicação West & Zimmerman (1987) dedicaram-se a transformação da construção de fazer gênero a partir de uma perspectiva histórica. O artigo propõe uma revisão do conceito, por eles inventado, no final dos anos oitenta. A reflexão disserta sobre mudanças das últimas três décadas e como mudou a percepção concernente aos papéis de gênero, além da sua evolução. Devido a isso, consideram-se os trabalhos de R.W. Connell e Vidal-Ortiz que, de alguma forma, criticaram a construção teórica do fazer gênero. Em específico enfatizaram-se as identidades de gênero em progresso e como estas quebraram a coerência de uma obsoleta concepção binária dos sexos. Esclareceram-se também muitas das polêmicas que aconteceram nos anos setenta e oitenta entre a emergente comunidade transgênera e os movimentos feministas nos Estados Unidos. Portanto, redimensionou-se a característica naturalística da identidade de gênero que era considerada o espelho isomorfo dos caracteres sexuais.

Como resposta a esta recente reflexão, mas também a respeito do histórico artigo deles de 1987, R.W. Connell (2009) escreveu uma própria consideração crítica a respeito deste conceito. No artigo a autora interroga-se nas modalidades de recitar o próprio gênero na vida cotidiana, que inevitavelmente ressente das subestruturas ideológicas de certas hierarquias de poder generizadas. O fazer gênero, a partir desta

perspectiva é enquadrado não somente a respeito do posicionamento e das interações em contextos situados (mundo do trabalho, interações cotidianas), mas também em relação a política e aos sistemas hegemônicos, como prática discursiva implícita. Os gêneros e os relativos percursos de transitoriedade definem-se, portanto a respeito de um panorama normativo e de crenças, situadas no espaço e no tempo: “uma re-concetualização de mulher e homem como um 'grupo social distinto', historicamente definido em específicas (e mutáveis) relações sociais” (R. W. Connell, 2009, p.108)44.

Uma recente dissertação de Ward e Schneider (2009) coloca-se mesmo dentro do debate sobre a dimensão social e normativa seja dos papéis de gênero, seja da afeição sexual.

Respeito da hegemonia heteronormativa, como característica predominante do dualismo sexual em ocidente, as duas pesquisadoras propuseram uma reflexão teórica sobre os acontecimentos históricos que, a partir do segundo período após a guerra, remodelaram a concepção das identidades de gênero e das orientações sexuais. Especialmente deu-se atenção na percepção sociocultural do “queering”, também em referimento aos movimentos feministas e em relação a alguns co-fatores históricos como o HIV.

Então foi evidenciada uma virada paradigmática, que dá uma visão completamente patriarcal dos gêneros, entendidos como papéis, passando a tomar em consideração a estrutura cultural-normativa, em volta da qual se articularam as antinomias sexuais. De acordo com o construto de heteronormatividade e domínio masculino, também se cita um artigo de R.W. Connell e Messerschmidt de 2005.

A pesquisa (que foi retomada pela mesma Connell em uma publicação posterior de 2009, veja-se em cima) trata do tópico da hegemonia masculina. Em particular foi evidenciado o desenvolvimento deste paradigma teórico durante os últimos 30 anos. De fato, os autores evidenciam uma radical mudança na estrutura dos papéis de gênero que se tornaram mais paritários e menos conectados a idealtipos patriarcais. A posição entre os gêneros vê a própria organização, em termos de interação, deslocadas nas vertentes macros do experimentar cultural, como as hierarquias de poder e as diferenças, às vezes contraditórias dentro do domínio masculino. Estas mudanças paradigmáticas deveriam abrir a estrada para uma concepção mais de igualdade entre os gêneros

44 Versão original em inglês: “a reconceptualization of women and men as

“distinct social groups,” historically constituted in specific (and changing) social relationships”

com o fim de redimensionar a acepção hegemônica do domínio masculino:

“Inclusive antes dos movimentos de liberação das mulheres, uma ampla literatura em Psicologia social e Sociologia respeito aos ‘papéis do sexo masculino’, contribuíram a um reconhecimento da natureza social da masculinidade e das possibilidades de mudar a conduta do homem” (R.W. Connell e Messerschmidt, 2005, p. 831)45.

Também um estudo realizado por Diane Richardson (2007) é empenhado em redefinir o isomorfismo ancestral (pelo menos na cultura ocidental) entre sexo e gênero. Especialmente foi dada particular atenção nos processos simbólicos e históricos dentro dos quais se desenvolveram as identidades de gênero, seja como papéis sociais seja como construtos culturais. A pesquisa concerne também as identidades e os estilos de vida não heteronormativos e especialmente a relação entre homossexualidade e heterossexualidade e a entre transexualidade e transgenerismo. Analisando estes aspectos de uma perspectiva feminista, pôde-se delinear uma trajetória interdisciplinar que trata a discrasia sexo versus gênero desde diferentes perspectivas epistemológicas. Portanto o estudo não foi desenvolvido como pesquisa empírica, mas como pesquisa bibliográfica que oferece uma panorâmica completa da literatura que existe nos principais âmbitos da sociologia.

A respeito desta perspectiva, Hird (2002) publicou em um artigo, centrado em duas áreas temáticas: o transsexualismo como representação do self e como prática de performance. Por meio de uma análise bibliográfica, a autora observa não tanto os processos de interação e construção da própria identidade de gênero, mas a estereotipada e suposta acepção transgressora dos transgêneros/sexuais, que torna obsoleta a tradicional antinomia entre os sexos e entre os gêneros. Por isso a pesquisa baseia-se nestas três dimensões: “(1) autenticidade – transexualismo, sexo e gêneros ‘reais’; (2) performance – transexualismo, sexo e gênero fictício; e (3) transgressão –

45

Versão original em inglês: Even before the women’s liberation movement, a literature in social psychology and sociology about the “male sex role” had recognized the social nature of masculinity and the possibilities of change in men’s conduct.

transexualismo, a destruição de sexo e gênero” (Hird, 2002, p.581)46. Então foi oferecida uma comparação, a partir destas três definições conceituais, entre diversos âmbitos ontológicos que vão da sociologia à psicologia, e até aos estudos etno-metodológicos.

Enfim as teorias feministas, interessadas nas experiências de transição de gênero, ocuparam-se inclusive de relações íntimas, como aquelas com os companheiros ou os familiares; dinâmicas, que para além das mudanças sociais e políticas, sentiram o efeito também da influência exercitada pelos movimentos transgêneros e pelas queering comunity em geral.

Sobre este propósito, Hines (2006) apresentou um dos poucos estudos realizados dentro dos contextos íntimos e/ou privados como o da relação com o companheiro ao invés daquele com os pais. Os aspectos, tomados em consideração pela estudiosa, são de certa forma distante da esfera pública, embora os sistemas familiares constituam um componente de base. A autora estudou três casos, dois de transgêneras MtF (40 e 70 anos) e um de transgênero FtM (30 anos). Por meio de uma análise de conteúdo das próprias biografias foram especificadas as seguintes variáveis relacionais:

1. O agenciamento das experiências de transição em contextos íntimos;

2. As mudanças sobre a percepção do self, negociada com os atores sociais significativos (pais, companheiros); e como

3. as modalidades de interação, nos contextos particulares, podem descrever a posição social em relação às macroestruturas culturais e aos sistemas simbólicos gerais.

Então, o fazer gênero foi e continua a ser um ponto de referência conceitual por meio do qual é possível ler as interações entre os gêneros, pelo menos com respeito às realidades europeias e norte-americanas. 1.2.6 O corpo como espelho da alma

Para além das dinâmicas tipicamente interativas, como os universos discursivos ou as práticas comunicativas no cotidiano, alguns autores interessaram-se na relação entre identidade de gênero e corpo

46 Versão original em inglês: “(1) authenticity – transsexualism and ‘real’ sex

and gender; (2) performativity – transsexualism and fictive sex and gender; and (3) transgression – transsexualism and the disruption of sex and gender.”

durante o percurso de transição. Um estudo importante sobre o argumento (Broad, 2002) é focado na relação “sexo-gênero” e o direito de reivindicar uma própria identidade de gênero fora do dualismo sexual.

O ensaio descreve uma pesquisa realizada por meio de anotações etnográficas, observações sobre o campo e entrevistas livres com 47 transgêneras. As observações etnográficas foram desenvolvidas em 45 centros de agregação e suporte para transgêneros nos Estados Unidos. Ademais foram observadas as redes sociais online e as modalidades de interação na rede. Portanto, o estudo é centrado no ativismo político por meio do qual as/os transgêneras/os reivindicam um próprio reconhecimento não só em termos de igualdade, mas também em nível social e cultural. As interações observadas e analisadas fizeram emergir um claro posicionamento das ativistas trans, a favor de uma afirmação autêntica da própria identidade, que não quer necessariamente se posicionar para um ou outro polo antinômico do tradicional binômio Mulher & Homem.

Sempre a respeito de reflexões sobre a percepção corpórea cita-se uma pesquisa publicada por Schrock, Reid e Boyd (2005). O artigo propõe um estudo sobre a relação que as transexuais reivindicam com o próprio físico. A análise põe o acento na dimensão biológico-sexual do gênero, ou seja, o físico que nos contextos sociais alargados muitas vezes determina a própria posição e, sobretudo o reconhecimento da identidade de gênero. A este propósito foram coletadas 19 entrevistas em profundidade com transexuais “brancos” para compreender a percepção que elas têm do próprio corpo e em particular os critérios adotados, contanto que o torne o mais possível fiel à imagem fenomênica do corpo físico feminino.

Os resultados sugerem a importância da percepção corpórea, que, para quem transita, assume uma relevância da mesma forma crucial como também a dimensão cultural e muitas vezes se torna o critério fundamental para se sentir plenamente mulher no próprio habitus biológico. Estas considerações deveriam oferecer uma contribuição à práxis clínica e médica, para enquadrar melhor as necessidades de quem pede um intervento de cirurgia plástica e endocronológico, com o fim de retificar os próprios caracteres sexuais.

Também Schilt (2008) em um breve ensaio concentra suas reflexões teóricas sobre a relação entre gênero (sociocultural) e sexo (genético-natural). O artigo disserta cerca da impossibilidade de cunhar um dualismo mente-corpo e, ao contrário, propõe uma visão construcionista, que identifica também no monismo biológico uma

perspectiva ontológica culturalmente definida: “inclusive as diferenças biológicas podem ser interpretadas como construções sociais” (Anderson, 2005, p. 44047). Esta temática epistemológica deriva de algumas experiências de gênero, assim chamadas intersexuais, que não sempre encontram uma própria confirmação etiopatogenética: “A pesquisa sobre pessoas nascidas com uma variedade de condições intersexuais demonstram que os cromossomas não correspondem sempre às configurações XX e XY” (Schilt, 2008, p. 111)48.

Concluindo, um dos estudos focalizados mesmo sobre o conflito identidade-corpo foi conduzido por Dozier (2005) e com título Beards, Breasts and Bodies: Doing Sex in a Gendered World (Barbas, Seios e Corpos: Fazendo Sexo em um mundo generizado). O título já deixa entender uma impostação teórica de modelo construcionista, de fato o sexo é considerado como um arbitrário elemento discriminatório com o