2 DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO E AS
2.1 Dilemas da cidadania inconclusa no Brasil
A nossa cidadania inconclusa269, uma das expressões da fragilidade estrutural das instituições políticas alimentadoras do espaço público, tem sido um dos temas centrais das narrativas políticas e sociais que pensadores, situados nas mais diversas posições do campo intelectual, têm feito, desde pelo menos o final do século XIX, sobre o Brasil. Mesmo obras literárias, mas que, nem por isso, deixaram de cumprir papel fundante na instituição de um modo de perceber o ser social e a vida política no Brasil, abordaram, ainda que indiretamente, aquela fragilidade acima referida. Esse é o caso da obra magistral de EUCLIDES DA CUNHA, Os Sertões. Nela, os “bestializados da República”, para usar expressão cara a um dos nossos mais insignes historiadores, JOSÉ MURILO DE CARVALHO270, encontravam-se travados em sua cidadania e excluídos de instituições que se faziam “para eles”, e não “com eles”.
Cidadania inconclusa, fragilidade das instituições e cultura política dominada pelo mandonismo, clientelismo e patrimonialismo. Essa é a conjugação de elementos que, de algum modo, moldaram as narrativas dos intelectuais brasileiros que, a partir da década de 1930, se impuseram a hercúlea tarefa de “interpretar o Brasil”. E a década de 1930 não é citada aqui gratuitamente. Se há um acordo na Ciência Política nacional é aquele que aponta a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, para destronar as oligarquias da política "Café com Leite", como marco divisor na história nacional. Em que pesem as elaborações valorativas sobre tão controversa personalidade da política nacional, e elas estão profusamente sendo (re)produzidas nos nossos dias, dado que a História, como já disse alhures, é coisa do
269 O termo "cidadania inconclusa" é utilizado frequentemente em textos acadêmicos de cunho sociológico, v.g.,
na resenha da obra Cidadania no brasil - um longo caminho, do historiador JOSÉ MURILO DE CARVALHO de autoria de SOUZA, Venceslau Alves. Direitos no Brasil: necessidade de um choque de cidadania. Revista de
Sociologia e Política, Curitiba, n. 27, nov., 2006.
270CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização
presente, Vargas dá início, com as suas ações de governo, à construção do Estado Moderno no Brasil. Assim, de algum modo, a emergência da democracia, do Estado e da cidadania como problemas interpretativos é concomitante com a emergência mesma de um aparato estatal moderno entre nós.
Marco histórico significativo o acima referido! O Estado moderno emerge entre nós, como já ocorrera com a instauração da República, no final do século XIX, alavancado por atores sociais e políticos que, em outras partes do mundo, dificilmente seriam identificados como modernos. Já tivéramos um Estado (o colonial português) instituindo uma nação, tínhamos agora um Estado conduzindo uma sociedade à modernização. De costas para a participação popular. A fragilidade estrutural da democracia entre nós foi, então, reforçada com essa primeira “modernização conservadora”, para usarmos aqui uma conjugação dialética, própria dos estudos do cientista social FLORESTAN FERNANDES271. Modernização “por cima”, como diriam não poucos dos que se aventuraram a apreender a vida política nacional na primeira metade do século XX.
Apreender o processo acima delineado foi uma tarefa assumida por toda uma geração de intelectuais desbravadores. Tarefa hercúlea, diga-se de passagem. Dar forma ao Estado e, ao mesmo tempo, formar uma base interpretativa sobre ele, eis o desafio assumido pelas elites políticas e intelectuais nativas, na primeira metade do século XX. Em consequência, tivemos, de um lado, uma prática política que demandava uma interpretação justificadora, e, de outro, interpretações que seduziram, com os seus esquemas explicativos a respeito de um suposto atraso “atávico” da “civilização nos trópicos”, amplos setores da sociedade brasileira. Não raro, mesmo nas análises mobilizadas por autores (e atores) soi-disant de esquerda, esse esquema encimava as proposições de redefinições das práticas. E, em consequência, de formatação institucional do Estado e da democracia, no Brasil. Assim, não é incomum, em todo o amplo espectro político ideológico brasileiro, uma clivagem definidora das forças sociais no Brasil a partir da oposição entre “modernos” e “tradicionais”.
Aliás, tudo acontecendo como se uma dualidade estrutural estivesse na base não apenas da construção do Estado, mas também da democracia e da cidadania entre nós. E, não
271 Cf. FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Rio de
raras vezes, o recurso a soluções autoritárias (ditadura militar, pela direita ou revolução armada e guerrilha, pela esquerda) tentou legitimar-se absurdamente como única via para a modernização do país, desprezando a construção de uma institucionalidade no campo da democracia. Obviamente, “modernização” é, aqui mais do que alhures, vocábulo polissêmico. Até um pouco antes da entrada em cena da questão ambiental, no Brasil, a demanda por modernização alimentava os discursos políticos de quase todos os atores da nossa cena política e social.
Entretanto, analisando-se mais detidamente as interpretações e proposições políticas acima mencionadas, o que sobressai é a tendência em se buscar, em outra dimensão da vida social, a explicação para o “atraso político” brasileiro. Daí a busca na cultura ou, como emerge da interpretação notabilizada por EUCLIDES DA CUNHA272, mais explicitamente em elementos étnicos, as chaves interpretativas da nossa cultura política. A proposição euclidiana de que existiria uma “força” intrínseca ao sertanejo não deixa de ser um primeiro degrau que leva ao piso da explicação culturalista que se enraizaria, décadas mais tarde, na obra de GILBERTO FREYRE, muito particularmente em “Casa Grande e Senzala”273.
A busca de um ethos básico que pudesse explicar o edifício social brasileiro também se faria presente, embora de forma mais rebuscada e mais próxima, pelo menos no plano argumentativo, dos esquemas mais consagrados de interpretação sociológica então em voga na Europa, em SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA. “Raízes do Brasil”, o magistral ensaio interpretativo de HOLANDA, ao buscar os elementos fundantes da vida social brasileira, descobriu na “cordialidade” o traço distintivo da personalidade do brasileiro. Ela se traduziria não em uma negação da violência, muito pelo contrário, esse traço poderia, em algumas situações, até alimentar a violência nas relações interpessoais, mas, sim, em uma demarcação emotiva nas relações públicas. Tanto na esfera do Estado quanto do Mercado, a cordialidade subordinaria, para Holanda, a impessoalidade.
Os autores acima mencionados, mesmo se amplamente lidos, revisados, criticados e incensados, sendo, muitas vezes, alvo de rituais periódicos de consagração, ainda fornecem importantes insights para uma apreensão dos dilemas de nossa democracia inconclusa. Assim,
272 CUNHA, Euclides. Os sertões. São Paulo: Martim Claret, 2002.
SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, em um trecho tantas vezes citado, mas ainda prenhe de potencialidades heurísticas, afirma:
O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. E é tão característica, entre nós, essa maneira de ser, que não desaparece sequer nos tipos de atividade que devem alimentar-se normalmente da concorrência. Um negociante da Filadélfia manifestou certa vez a André Siegfried seu espanto ao verificar que, no Brasil como na Argentina, para conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo274.
O que abordagens, como a acima citada, apontam, mesmo se o termo aí não aparece explicitamente, é a dimensão estruturalmente frágil da esfera pública no Brasil. Por outro lado, na abordagem de Sérgio Buarque de Holanda, o que emerge, também, com perspicácia, é o embaralhamento das fronteiras entre dimensões distintas da vida social. A esfera pública sendo “contaminada” pelas demandas e buscas que, em outras partes, só são legítimas nos espaços privados.
Em suma, um espaço público colonizado pela pessoalidade expressava um Estado divorciado da sociedade. Guiados pelo ideário positivista, os republicanos brasileiros incorporaram e ampliaram o medo e a desconfiança das elites coloniais em relação à “plebe rude”. Por esta razão é que, embora engendrando algumas instituições modernas e populares, essa elite impõe uma série de barreiras ao seu funcionamento pleno: Foi assim que, a despeito de instituir um poderoso conjunto de mecanismos de realização da democracia direta (e semidireta) no art. 14, incisos I, II e III, da Constituição Federal, cercaram-lhes os constituintes de 1988 de obstáculos à sua implementação, como referido anteriormente. Isso praticamente os inviabilizou, ademais das dificuldades que se apresentam, no país continental que é o Brasil, tocantes ao território e à população que, todavia, estas que poderão ser vencidas a partir da intercessão das tecnologias da informação e comunicação, afastadas que sejam as barreiras constitucionais e legislativas, aliás, o núcleo deste trabalho de reflexão jurídico-política.
Inequívoco é que, percebida como incapaz de perceber a grandeza das tarefas que a construção da nação exigia de seus dirigentes, a maior parte da população foi excluída de direitos que, em outros países, se constituíram elementos basilares da vida democrática, como
o voto livre e universal. Tragédia histórica: o impulso republicano foi tragado por uma corrente ideológica que levou o jovem oficialato do Exército brasileiro, no primeiro quartel do século XX, por caminhos transversos, a realizar e defender os interesses arcaicos (aristocracia e latifúndio) que, intimamente, imaginava contrapor-se. Assim, as eleições de “bico de pena”275, ícone folclórico de um drama político dilacerador, qual seja o controle das eleições pelos coronéis locais durante todo período histórico denominado de “República Velha”, condensam tanto a ausência de um espaço público com nítidos contornos republicanos, quanto a desconfiança histórica dos “de cima” em relação aos “de baixo”.
A referência aos “de cima” e aos “de baixo” não é fortuita, nem tem desiderato ideologizante, como poderia parecer à primeira vista. Trata-se de uma forma de referência (e reverência) ao mais criativo e crítico intelectual brasileiro do século, o sociólogo FLORESTAN FERNANDES. Não raras vezes, em escritos especialmente devotados ao combate político, o professor da Universidade de São Paulo utilizou aqueles termos para dar conta das clivagens e disputas que atravancavam (e quiçá, ainda atravancam) a sociedade brasileira.
E vem da obra de FLORESTAN FERNANDES, mais exatamente do seu “A integração do negro na sociedade de classes”276, a crítica mais contundente e vigorosa ao processo de exclusão política e de negação da cidadania aos “de baixo” no Brasil. Alicerçado em um rigoroso (e, naquele momento, pioneiro) trabalho de investigação sociológica, o fundador da moderna sociologia no Brasil apontou a dimensão étnica da negação da participação política das classes populares no Brasil. A população negra, encontrava-se especialmente inadaptada à lógica subjacente à moderna economia capitalista já que, até poucos anos antes da proclamação da República, eram-lhe negadas não apenas a cidadania e a individualidade, mas também o que é bem pior, a própria condição humana.
275
Refere-se ROLIM, Francisco Sales Cartaxo. Do bico de pena à urna eletrônica. Recife: Bagaço, 2006, p. 40-41, que o oligarca paraibano Epitácio Pessoa (Ministro da Justiça no governo Campos Sales [1898-1901], Procurador-Geral da República e Ministro do Supremo Tribunal Federal [1902-1912] e, finalmente, presidente da República [1919-1922]), de currículo político vistoso, "conhecia como poucos os meadros do processo eleitoral da República Velha, beneficiário que foi de arranjos políticos, de atas encantadas, que inverteram posições, ao obter o reconhecimento de seus candidatos ao Congresso, em detrimento da chapa organizada pelo governador Gama e Melo, na Paraíba, episódio que não passou despercebido a Edgar Carone que o comentou num dos seus muitos livros a respeito da República Velha: [...] em 1900, sob Campos Sales, o governador Gama
e Melo, com seu partido, não conseguiu o reconhecimento de um deputado sequer, nem do senador. Campos Sales abandonou, neste caso, a políotica dos governadores, e ficou com o seu ministro - Epitácio Pessoa - a
quem deu de mão beijada todos os representantes da Paraíba no Congresso Nacional" (grifou-se).
Qual a consequência sócio-política dessa situação da população negra, não esqueçamos, parcela considerável da população da nascente república?! Em primeiro lugar, a não reparação da barbárie da escravidão, algo que ocorrera, por exemplo, nos Estados Unidos com a famosa indenização de “uma mula e 40 acres de terra”. Assim, quando foram libertos dos seus senhores, os escravos tornaram-se párias em uma sociedade que, ao menos nos seus polos mais dinâmicos, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, já se encaminhava, a passos largos, para o universo ideológico do “self made man”. Sem experiências sociais anteriores que lhes servissem de capital social para navegar na nova ordem, os negros viram- se não apenas abandonados à própria sorte, mas sem ferramentas mínimas (nem ao menos uma memória socialmente partilhada ou uma identidade coletiva, mesmo que tênue) que pudessem ser mobilizadas para a sua afirmação social. Em segundo lugar, uma população que, pela sua própria experiência histórica, tinha, em relação ao trabalho, uma avaliação pesadamente negativa. E o trabalho ou, mais precisamente, a ética do trabalho é condição sine qua non para a afirmação nas esferas políticas e sociais da sociedade burguesa.
Essa valoração negativa do trabalho, irônica e tragicamente, será contraditada, no mesmo momento histórico em que emerge, pelo ethos dos migrantes alemães, italianos e japoneses que começavam a chegar. Eles, dado o acúmulo histórico de suas experiências sociais anteriores na Europa, já eram dotados dos atributos necessários para a navegação em uma ordem social competitiva e marcada pela impessoalidade como aquela subjacente ao capitalismo moderno.
Observe-se que, paradoxalmente, o ethos de desvalorização do trabalho também era partilhado, por razões diametralmente opostas, pelas elites descendentes dos portugueses. Não por acaso, essa junção resulta em um caldo de cultura que se funde em um mesmo princípio fundamental para a vida social: um caminho fácil (e rápido) para a busca do dinheiro. De certo modo, no início da primeira década do século XX, em um grande ensaio de interpretação da economia moderna, MAX WEBER já abordara esse mesmo traço cultural, mostrando como a ganância pura e simples não se constituía requisito importante para a emergência de um “espírito do capitalismo277”. O que era necessário era a incorporação de um
277
espírito que se retroalimentava do cálculo racional e do trabalho planejado, para alcançar determinados fins.
Por outro lado, a imensa massa, liberta da escravidão, mas, se não excluída, ao menos incorporada gradativa e timidamente pelas instituições republicanas, pouco acumulou, em termos de experiências coletivas e pessoais, que pudessem ser mobilizadas como referentes de cidadania. Assim, durante grande parte do século XX, quando centros urbanos industriais e modernos, como São Paulo e Rio de Janeiro, irradiavam valores e traços culturais típicos da modernidade política européia, como os primeiros movimentos operários, uma grande parcela da população, formada por negros e mestiços, ainda estava inserida em relações hierárquicas. Se lembrarmos que até 1970, quando o ciclo da industrialização já começava a declinar, o cenário demográfico do país era representado por uma distribuição populacional em que 70% dos habitantes residiam nas áreas rurais e 30% nas zonas urbanas. E os habitantes das zonas rurais, em sua maioria, como acontece até hoje, em que pese a reversão, em menos de trinta anos, daquela distribuição populacional, eram negros e pardos.
Essa população rural não foi inserida na construção do Estado-Nação nem mesmo no pacto social que pressupôs o modelo corporativo de Estado iniciado pelo varguismo. Getúlio Vargas, mesmo na última experiência de governo, efetivada no interregno democrático iniciado em 1945, impôs um acordo social que incorporava o operariado urbano, através do sindicalismo controlado pelo Estado, e pelas lideranças políticas do PTB - o chamado "peleguismo" - mas, pouco avançou na alteração da estrutura hierárquica e paternalista que se mantinha no mundo rural. Isso porque o seu pacto, de algum modo, implicava mexer pouco, ou quase nada, com os interesses dos latifúndios.
Durante muitas décadas do século XX a tradução sóciocultural dessa exclusão política demonstra que uma parcela significativa da população brasileira vivenciou os processos eleitorais, especialmente aqueles em que se disputavam os aparatos locais do Estado, como “gente de”. Os que conseguiam os requisitos básicos para votar, quando o faziam era na condição de “pessoas”, não de “cidadãos”. Essa pessoalização das relações sociais, como já se chamou a atenção em farta literatura acadêmica e jornalística, formatou o nosso espaço público com a lógica das relações privadas. Mas, eis o eixo da questão, não do privatismo do ethos capitalista impessoal e individualista.
Adicione-se ainda o fato de que os movimentos operários das duas ou três primeiras décadas do século XX, conduzidos em parte por imigrantes ou descendentes de imigrantes europeus, notadamente anarquistas italianos, pouco dialogaram com essa grande parcela da população. Como um complemento, os movimentos sociais que supostamente buscavam radicalizar ou substantivar a democracia, como o "Tenentismo" e a Coluna Prestes, expressavam-se através de ações e concepções políticas e ideológicas assentadas em um viés etnocêntrico que se traduzia em projetos mudancistas vanguardistas e pouco afeitos ao aprendizado a partir da participação efetiva dos de baixo.
O que foi apontado acima parece corroborar a tese, tantas vezes repetida no nosso meio acadêmico, de que, entre nós, o Estado é que fundaria a sociedade. Proposição sedutora, com referentes empíricos que a corroboram, mas, nem por isso, menos simplista. Trata-se, em verdade, de uma realidade mais complexa aquela da relação entre as instituições estatais e os cidadãos e atores sociais da sociedade civil brasileira. Traduziu-se, entre outros aspectos, na reprodução do modelo burocrático paternalista, vigente na metrópole colonial e transplantado, com a vinda da Coroa Portuguesa, para o Brasil, em 1808.
Esse paternalismo burocrático impôs-se às próprias leis e regras do mercado. Não apenas pelo fato de que, como assevera SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, em trecho citado mais acima, as transações econômicas em terras tropicais não conterem a impessoalidade que as regeriam nos Estados Unidos da América, mas, sobretudo, pelo fato de que, por aqui, o mercado era pouco autônomo. Essa forte presença estatal na economia, expressão de uma demanda regulatória da própria sociedade, engessou desde sempre as trocas e aumentou o custo de transação na economia brasileira. Tema pouco explorado no mundo intelectual mais situado à esquerda no nosso espectro político, essa colonização do Mercado pelo Estado também implicou uma diminuição significativa dos espaços e momentos de intercâmbios livres que as relações mercantis poderiam ter alimentado mais substantivamente.
A exclusão dos setores populares das transações de mercado foi abordada, na produção acadêmica, quase exclusivamente sob a ótica da exclusão deles como consumidores. Em consequência, a restrição, imposta pelo Estado, da entrada em cena desses setores como agentes no mercado foi explorada superficialmente pela literatura acadêmica hegemônica. Em verdade, tantos os trabalhadores urbanos quanto os pequenos proprietários rurais foram impedidos, por mecanismos vários que vão da legislação trabalhista corporativista às regras
draconianas impostas pelos poderes locais para a negociação dos excedentes camponeses, de vivenciar os aprendizados oriundos das vivências das negociações livres no mercado. Essa também é uma exclusão que limitou o alargamento do espaço público e que se traduz, ainda hoje, em uma pessoalização dos processos decisórios. Especialmente, no que nos toca mais de perto, dado o objetivo que encima o presente trabalho, nos momentos eleitorais.
Sobre o que mais acima denominou-se como “pessoalização dos processos decisórios”, vale a pena referir, mesmo que de forma um tanto esquemática, às contribuições seminais do antropólogo ROBERTO DAMATTA. Produtor de uma obra singular, alicerçada na busca de uma compreensão totalizante da singularidade do ser social brasileiro, DaMatta