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DILMA REAGE E ATACA „MORALISTAS SEM MORAL‟

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DILMA REAGE E ATACA „MORALISTAS SEM MORAL‟

Primeiramente, trata-se de enunciações apresentadas sob o modo do relato narrativo filiado ao gênero manchete. Percebe-se, nesses relatos, a presença de um enunciador complexo – O Globo – que realiza seus papéis linguageiros, teoricamente apagando-se no discurso, e, por isso, assumindo um comportamento delocutivo. Entretanto, por meio da análise dos referidos enunciados, percebe-se a posição desse enunciador que não condiz exatamente com o distanciamento prescrito na prerrogativa da delocução.

Segundo postula Charaudeau (2014, p. 83) acerca do comportamento delocutivo, o sujeito falante se apaga de seu ato de enunciação e não implica o interlocutor. Nesse caso, ele testemunha a maneira pela qual os discursos de mundo – provenientes de um terceiro – se impõem a ele. O resultado é uma enunciação aparentemente objetiva, já que ele relata o que o

outro diz e como o outro diz.

No entanto, o próprio autor nos informa que esse relato objetivo dos fatos é singular, já que todo ato de linguagem depende, de um modo ou de outro, do sujeito falante e de seus diferentes pontos de vista. Isso significa dizer que o comportamento delocutivo nada mais é que um “jogo” protagonizado pelo sujeito falante, como se fosse possível desaparecer por completo do ato de enunciação e deixar o discurso falar por si.

89 por sujeitos com diferentes pontos de vista e atravessado por diferentes posições ideológicas, torna-se pertinente questionar o grau de subjetividade que está por detrás do comportamento delocutivo. Isso se justifica pelo fato de que o discurso de informação se sustenta no “fazer saber” – que está ligado à verdade – “a qual supõe que o mundo tem uma existência em si e seja reportado com seriedade numa cena de significação credível” (CHARAUDEAU, 2014, p. 87).

Para explicar de outro modo o impreciso “apagamento” do sujeito no discurso relatado, faz-se necessário situarmos os sujeitos de linguagem que figuram no quadro de comunicação midiática de O Globo, a propósito das manchetes sob exame. O sujeito, na Teoria Semiolinguística de Charaudeau, tem um lugar de relevo e é dotado de intencionalidades. Sob essa ótica, a intenção do jornal O Globo, ao reportar a fala de um político, preliminarmente, é não só informar o que o outro disse, mas também captar o leitor, levando-o a crer na informação transmitida, respeitando a dupla lógica da máquina midiática: cívica e comercial.

Com efeito, nos exemplos selecionados, o sujeito falante é uma pessoa de carne e osso que assume o papel de comunicante e dá voz a um enunciador que faz também o papel de relator. A princípio, o comunicante parece corresponder a Dilma e o enunciador ao jornal. Esses sujeitos visam, outrossim, a não só informar, mas captar o público leitor, seu destinatário, cuja voz é dada pelo sujeito interpretante, a saber, todos os futuros eleitores favoráveis ou não favoráveis à reeleição de Dilma Rousseff, à época.

No entanto, no que tange à enunciação sob análise, percebemos que há uma simbiose entre o EU-comunicante Dilma e o EU-enunciador Jornal. Teoricamente, o sujeito comunicante é um agente (como o TUi), localizado na esfera externa do ato de linguagem, mas responsável por sua organização. Todavia, o EU comunicante, Dilma, ainda que agente na esfera externa e produtora do ato de linguagem, não é a única responsável por sua organização, já que, no enunciado analisado, o discurso de origem foi transformado de diversas maneiras pelo enunciador-jornal. De fato parece haver uma gradação, ou seja, uma sobreposição de um em relação ao outro.

Podemos interpretar essa junção, exemplificando o primeiro enunciado, do seguinte modo:

1- Fala proferida por Dilma (discurso direto): “erro banal, de fácil detecção” – Nesse caso, o EUc Dilma e o EUe Dilma coincidem / O TUd idealizado é aquele que concordará

90 com ela.

2. Fala reenunciada pelo jornal (discurso híbrido com deslizamento do indireto para o direto): “Presidente classifica como „banal‟ erro do IBGE” – Nesse caso, o EUc (que decide o que dizer e como dizer) é tanto a Dilma (como comprova o emprego das aspas em banal), quanto o jornal O Globo (que relata o que ela disse e ao fazê-lo modifica o dito de origem). Talvez o que se perceba aqui seja uma sobreposição de um em relação ao outro. Pergunta-se:

O Globo tem mais força sobre o dizer dela? Ou ela consegue angariar força diante do que diz

a despeito das modificações realizadas por O Globo em seu dizer? O TUd idealizado por Dilma é aquele que responde sim à segunda pergunta; já o TUd idealizado por O Globo é aquele que responde sim à primeira pergunta.

Dessa maneira, os parceiros da atividade linguageira, eu comunicante e tu interpretante, acabam por constituir o que Charaudeau23 define como uma assimetria de comunicação, já que o TUd do EUc Dilma e o TUd do EUc Jornal não coincidem em todos os pontos em seu projeto de fala. Por assim dizer, o sujeito falante, Dilma Rousseff, na manchete em quadro, espera que o contrato que está propondo ao outro, que é o sujeito interpretante e possivelmente seu futuro eleitor, será por ele percebido, e, aspira, também, que as estratégias que empregou na comunicação em pauta irão produzir o efeito desejado. Entretanto, como veremos na análise futura, o sujeito falante de origem (Dilma), possivelmente, não alcançou sua aposta, já que o relator jornal, que assumiu a voz de enunciador, possuía, por seu turno, outras estratégias – como Sujeito Comunicante que as institui – para captar o mesmo EU interpretante.

Para investigarmos as estratégias em curso no dito relatado, é necessário estabelecer o contrato que é determinado no seio da situação de comunicação. A situação de comunicação é, para Charaudeau como um palco, com suas restrições de espaço, de tempo, de relações, de palavras, no qual encenam as trocas sociais e aquilo que constitui o seu valor simbólico. E ainda continua: “as restrições são estabelecidas por um jogo de regulação das práticas sociais, instauradas pelos indivíduos que tentam viver em comunidade e pelos discursos de representação, produzidos para justificar essas mesmas práticas a fim de valorizá-las” (CHARAUDEAU, 2014, p. 67).

No que se refere a esse trabalho, o contrato de comunicação do jornal O Globo o

23

Informação obtida em conversa informal na ocasião do minicurso ministrado pelo professor Patrick Charaudeau em junho de 2015.

91 inscreve como um jornal de informação diário, que é voltado para as classes A e B, e, sendo assim, trata-se de um periódico consolidado com o ethos do sério, do objetivo e do imparcial, previsto por convenções e normas de comportamentos linguageiros, que se desdobram num espaço de estratégias, sem as quais não seria possível a comunicação diária com os leitores. Além do mais, o prestígio do jornal O Globo tornou-se mais consolidado pela expressão “jornal de referência” cunhada por Amaral em tese de doutorado sobre comunicação e informação (2004).

A partir desse momento, nos debruçaremos sobre as possíveis estratégias que O Globo utiliza na seleção e uso dos verbos dicendi ou dos verbos que estão inscritos no discurso de poder oficial, paraoficial e de oposição. Exatamente no espaço das estratégias, o jornal O

Globo mobiliza movimentos de credibilidade e de captação e, dessa forma, se apresenta

como um sujeito que se mostra neutro ou engajado. Também é nesse espaço que o jornal O

Globo atua sobre o outro com uma atitude polêmica ou sedutora, transformando o dito

relatado em uma manchete adulterada em relação ao texto original com a anuência (quando seduz), ou não, do entrevistado (quando polemiza).

E é nesse espaço entre o neutro e o engajado que o comportamento delocutivo cria uma simbiose entre o comportamento elocutivo e o alocutivo, já que o enunciador além de opinar ainda implica, implicitamente, o interlocutor.

Passemos, agora, para as análises mais específicas das ocorrências selecionadas para figurarem neste trabalho, levando em conta aquilo que possuem de peculiar no que tange às configurações formais, discursivas e textuais, à luz dos parâmetros selecionados para a análise.

92 Ocorrência nº 1

Fig. 12: Capa do primeiro caderno de 22 de setembro de 2014 Fonte: Acervo O Globo

Texto original publicado pelo jornal O

Globo de 22 de setembro de 2014

Texto retextualizado e transformado em citação, primeira página, caderno 1

Dois dias depois de o IBGE ter corrigido os dados de sua principal pesquisa, a

Pnad, a presidente

DILMA

ROUSSEFF AFIRMOU

ONTEM

que o

ERRO

do instituto foi

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