3 MARCO TEÓRICO
3.3 EXOTOPIA COMO CONSTRUCTO METAFÓRICO PARA A TEORIA DO SELF DIALÓGICO: DIMENSÕES ESPACIAL E PSICOLÓGICA
3.3.1 Da dimensão espacial da exotopia
A dimensão espacial da exotopia é, talvez, seu aspecto mais fundamental. Na concepção bakhtiniana, a princípio interessada na produção estética literária, havia a constatação de que um autor só é capaz de construir uma personagem, na medida em que possa se colocar numa posição de exterioridade em relação à última. Essa seria uma condição indispensável dentro do processo de elaboração estética literária: se o autor se confundisse com a própria personagem, não haveria possibilidade para o nascimento da criação artística de modo profícuo.
Para isso, então, o autor-real precisaria se colocar numa outra posição – autor contemplador –, a fim de suscitar sua disponibilidade artística criadora. Somente de uma posição externa (autor-contemplador), o autor-real se colocaria numa condição de “olhar” para a personagem de um ponto de vista de exterioridade que implica, necessariamente, um excedente de visão. Nas palavras de Bakhtin (1990, p. 24), “[...] essas ações de contemplação, provenientes do excesso de minha visão externa e interna do outro ser humano, que constituem as ações puramente estéticas”. Esse seria, na sua visão, o pressuposto mais importante para o processo de criação estética.
Vejamos como Bakhtin delineia seu pensamento e, primeiramente, elucida a dimensão espacial física dos processos exotópicos:
Quando contemplo um homem situado fora de mim e à minha frente, nossos horizontes concretos, tais como são efetivamente vividos por nós dois, não coincidem. Por mais perto de mim que possa estar esse outro, sempre verei e saberei algo que ele próprio, na posição que ocupa, e que o situa fora de mim e à minha frente, não pode ver: as partes de seu corpo inacessíveis ao seu próprio olhar — a cabeça, o rosto, a expressão do rosto —, o mundo ao qual ele dá as costas, toda uma série de objetos e de relações que, em função da respectiva relação em que podemos situar-nos, são acessíveis a mim e inacessíveis a ele. Quando estamos nos olhando, dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos. (Bakhtin, 1997, p. 44).
Diante do outro, estou fora dele. Não posso viver a vida dele. Da mesma forma que ele não pode viver a minha vida. Mesmo para compreender o outro, vou até ele, mas volto ao meu lugar. Apenas do meu lugar, único, singular, ocupado apenas por mim, é que posso compreender o outro e estabelecer com ele uma “inter-ação” (Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, GEGE, 2009).
Como é possível notar, a dimensão espacial exotópica - a posição de exterioridade – disponibiliza a quem ocupa e exerce essa posição exotópica uma visão a mais acerca do outro: se A observa B, podemos afirmar que A possui um excedente de visão dos aspectos físicos de B, em contrapartida se B observa A, do mesmo modo, B, por sua vez, terá uma visão excedente que A, que de sua específica posição, não pode contemplar por si só. Na interação entre A e B, ambas as partes tem a habilidade de “ver além” do que cada uma pode poderia ver de si mesma sozinha.
Esse aspecto espacial da exotopia é a condição primeira do processo de produção estética literária para Bakhtin (1990, 1997). Entretanto, pouco a pouco, o autor exemplifica as implicações do seu pensamento acerca do processo de criação literária para a vida cotidiana. De acordo com Todorov (1997), uma vida encontra um
sentido, e com isso, se torna um ingrediente possível da construção estética, somente se é vista do exterior, como um todo; ela deve estar completamente englobada no horizonte de alguma outra pessoa; e, para a personagem, essa alguma outra pessoa é, claro, o autor: nos termos de Bakhtin é exatamente a “exotopia” desse último (Todorov, 1997).
Do ponto de vista conceitual, é relevante considerar que, embora Bakhtin estivesse a princípio interessado na descrição fenomenológica do ato estético de criação literária, no seu processo argumentativo, o autor tece diversas considerações acerca de atitudes e comportamentos humanos na vida cotidiana.
Nesse caso, é relevante apontar para o papel da dimensão psicológica da exotopia, como uma metáfora referente à Teoria do Self Dialógico. Reconsiderando o fato de que cada Posição do Eu precisa de pelo menos um “outro” (personagem, voz, pessoa, Deus) para fazer referência, essa condição essencial estabelece relação significativa com a exotopia. Na concepção de Hermans (2002), cada Posição do Eu tem autonomia e capacidade autoral diante de cada outra e, como uma minissociedade, o self se organiza a partir de uma realidade polifônica, na qual múltiplas vozes internalizadas podem entrar em embate umas com as outras na dinâmica que envolve o desempenho da dominância ou silenciamento no self.
A ideia, portanto, da importância da posição de exterioridade na contemplação estética é um fundamento para a compreensão do papel da exotopia na elaboração literária. O autor-contemplador se põe do lado de fora da personagem, a fim de poder exercer seu poder criativo, num olhar exterior que possibilita o excedente de visão sobre as personagens.
A extralocalização é que põe meu compromisso ético nesse processo. Se outro vivesse minha vida, se pudesse ver o mundo como apenas eu vejo, se tivesse os mesmos pontos de vista que eu, então eu não precisaria pensar e expressar meu olhar único sobre as coisas e a vida. A exotopia é minha possibilidade de responder e, além disso, é também minha obrigação assumir essa minha responsabilidade. Ser responsivo e responsável são decorrências de minha extralocalização em relação ao outro (GEGE, 2009). Nessa perspectiva, é elucidativo observar o exemplo levantado por Bakhtin (1990):
[O homem] que sofre não experimenta a plenitude de sua própria expressão externa em ser; Ele apenas experimenta essa expressão parcialmente, e depois na linguagem de suas sensações internas de si mesmo. Ele não vê a tensão agonizante de seus próprios músculos, não vê a postura inteira, plasticamente consumada de seu próprio corpo, nem a expressão de sofrimento em seu próprio rosto. Ele não vê o céu azul claro no fundo do qual sua imagem
exterior sofredora é delineada para mim. E mesmo que ele pudesse ver todas essas características - se, por exemplo, ele estivesse na frente de um espelho - ele não teria a abordagem emocional e volitiva apropriada para essas características. Ou seja, essas características não ocupariam o mesmo lugar em sua própria consciência do mesmo modo chegam para o seu contemplador. [tradução nossa] (Bakhtin, 1990, p. 25).
Na vida interpessoal, em relações concretas, diante dos outros, assumimos uma posição exotópica em relação a eles, o que nos faz classificá-los como bons, ruins, inteligentes, sagazes e outros. Similarmente, cada Posição de Eu, ao estar diante de outra, numa posição exotópica (exterioridade), dispõe de sua propriedade de observá-la de fora e exercer, com isso, um excedente de visão. Ou seja, se para Bakhtin parecia óbvio que nas relações sociais concretas da vida, acabávamos exercendo essa habilidade de “ver além” do que o outro poderia por si só, o self como uma minissociedade dispõe de um sistema de Posições do Eu autônomas e plurais, análogas à vida social, que podem exercer a mesma característica e habilidade, só que do ponto de vista microgenético.