3.1 ECODESENVOLVIMENTO
3.1.1 Dimensões de sustentabilidade do ecodesenvolvimento
Depois de apresentar a visão de conjunto das idéias de Ignacy Sachs sobre o ecodesenvolvimento, abordaremos nessa seção a questão da sustentabilidade do ecodesenvolvimento. A ideia geral de sustentabilidade se refere à manutenção de coisas através do tempo. O termo “sustentabilidade”, segundo Houaiss (2001) significa: característica ou condição do que é sustentável. Já “sustentável” indica o que pode ser sustentado, mantido, alimentado. E, por sua vez, “sustentar” significa, dentre outras coisas: garantir e fornecer os recursos necessários para a realização e continuação de uma atividade. Assim, quando se pensa em projetos de desenvolvimento que sejam sustentáveis deve-se analisar de que modo isso pode realizar-se através do tempo, tendo em vista necessidades de cunho ecológico, econômico e social de populações e ambientes envolvidos no processo. Sachs (2007), discute a questão da sustentabilidade introduzindo uma distinção entre sustentabilidades parciais e sustentabilidade global (integral).
Na medida em que o ecodesenvolvimento é um construto processual multidimensional e em aberto, para se alcançar um desenvolvimento genuinamente sustentável e sadio, os critérios de sustentabilidade precisam ser satisfeitos em todas as dimensões pertinentes do desenvolvimento. Numa primeira abordagem, podemos apontar, assim, a necessidade de se levar em conta, simultaneamente, os seguintes critérios:
- Sustentabilidade social e seu corolário – a sustentabilidade cultural;
- Sustentabilidade ecológica (preservação do capital da natureza), suplementada pelas sustentabilidades ambiental e terrtitorial, sendo a primeira relativa à resiliência dos ecossistemas naturais usados como
“esgotos”, e a última à avaliação da distribuição espacial das atividades humanas e das configurações rurais-urbanas,
- Sustentabilidade econômica assumida em seu estado lato de eficiência dos sistemas econômicos (instituições, políticas e regras de funcionamento), no esforço de assegurar, de forma contínua, um progresso socialmente equitativo – quantitativa e qualitativamente;
- Sustentabilidade política, oferecendo um quadro de referência geral considerado satisfatório para a governança em nível nacional e internacional (SACHS, 2007 p. 296-297).
Para Sachs (2007), a sustentabilidade social vem em primeiro lugar, pois ela se sobrepõe à própria finalidade do desenvolvimento. A sustentabilidade econômica e a política são, ao contrário, de natureza instrumental, enquanto a ecológica ocupa uma posição intermediária, pois faz parte de ambos os domínios (finalidade e instrumentalidade). O autor destaca que todo esforço de planejamento do desenvolvimento precisa levar em conta, simultaneamente, as seguintes dimensões do conceito de sustentabilidade:
1. Sustentabilidade social, entendida como a criação de um processo de desenvolvimento que seja sustentado por uma outra lógica de crescimento e subsidiado por uma outra visão do que seja uma boa sociedade. A meta é construir uma civilização com maior equidade na distribuição de renda e de bens, de modo a reduzir o abismo entre os padrões de vida dos ricos e dos pobres.
2. Sustentabilidade econômica, que deve ser viabilizada mediante a alocação e o gerenciamento mais eficiente dos recursos e de um fluxo constante de investimentos públicos e privados. Para tanto, torna-se necessário superar as configurações externas negativas resultantes do ônus do serviço da dívida e da drenagem liquida de recursos financeiros do Sul, dos termos de troca desfavoráveis, das barreiras protecionistas ainda existentes no Norte e do acesso limitado à ciência e tecnologia. A eficiência econômica deve ser avaliada em termos macrossociais, e não apenas por meio do critério da rentabilidade empresarial de caráter microeconômico.
3. Sustentabilidade ecológica, que pode ser melhorada utilizando-se as seguintes ferramentas; ampliar a capacidade de carga da espaçonave Terra por meio de soluções engenhosas, intensificando-se o uso do potencial de recursos dos diversos ecossistemas com o mínimo possível de danos aos sistemas de sustentação da vida; limitar o consumo de combustíveis fosseis e de outros recursos e produtos que são facilmente esgotáveis ou danosos ao meio ambiente, substituindo-os por recursos ou produtos renováveis e/ou abundantes, usados de forma não agressiva ao meio ambiente; reduzir o volume de resíduos e de poluição, por meio da conservação de energia e de recursos, além da reciclagem; promover a autolimitação no consumo material por parte dos países ricos e dos indivíduos em todo o planeta;
intensificar a pesquisa para a obtenção de tecnologias de baixo teor de resíduos e eficientes no uso de recursos para o desenvolvimento urbano rural e industrial; definir normas para uma
adequada proteção ambiental, desenhando a máquina institucional e selecionando a combinação de instrumentos econômicos, legais e administrativos necessários para o seu cumprimento.
4. Sustentabilidade espacial, que deve ser dirigida para a obtenção de uma configuração rural-urbana mais equilibrada e de uma melhor distribuição territorial dos assentamentos humanos e das atividades econômicas com ênfase no que se segue: reduzir a concentração excessiva nas áreas metropolitanas; frear a destruição de ecossistemas frágeis, mas de importância vital, decorrente de processos de colonização efetivados sem controle;
promover práticas modernas e regenerativas de agricultura e agrossilvicultura, envolvendo os pequenos agricultores e empregando adequadamente pacotes tecnológicos, crédito e acesso a mercados; explorar o potencial da industrialização descentralizada, acoplada à nova geração de tecnologias, com referência especial às insdústrias de biomassa e ao seu papel na criação de oportunidades de emprego não-agrícolas nas áreas rurais; criar uma rede de reservas naturais e de Reservas da Biosfera, para proteger a biodiversidade.
5. Sustentabilidade cultural, incluindo a procura das raízes endógenas de modelos de modernização e de sistemas agrícolas integrados, processos de mudança que resguardem a continuidade cultural e que traduzam o conceito normativo de ecodesenvolvimento numa pluralidade de soluções, ajustadas à especificidade de cada contexto sócio-ecológico (SACHS, 2007, p.
181-183).
Uma lista experimental, criada com base nos critérios de sustentabilidade parcial formulados por Sachs (2007), é mostrada no Quadro 1. De acordo com o autor, esses critérios devem ser interpretados como pontos de referência de indicadores mais da direção desejada dos processos do que de um estado final, pois não estamos na presença de um ponto zero de uma situação estática (sustentabilidade ou falta de sustentabilidade).
DIMENSÃO CRITÉRIOS DE SUSTENTABILIDADE PARCIAL
Social
– alcançar um justo grau de homogeneidade social;
– distribuição equitativa de renda;
– pelo emprego e / ou auto emprego, permitindo a produção de meios de subsistência decentes;
– acesso equitativo aos recursos e aos serviços sociais.
Cultural
– mudança em meio à continuidade (equilíbrio entre o respeito e à tradição e a inovação);
– capacidade de concepção independente de um “projeto nacional”:
autonomia, “endogeneidade” (em contraposição à cópia servil de modelos estrangeiros) e autoconfiança, combinadas com uma abertura para o mundo.
Ecológica – preservar o potencial do “capital natural” para produzir recursos renováveis;
– limitar o uso de recursos não-renováveis.
Ambiental – respeitar e aumentar a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais.
Territorial
– configurações rural-urbanas equilibradas (eliminação de vieses urbanos na alocação de investimentos públicos);
– melhorar os ambientes urbanos;
– superar as disparidades inter-regionais
– criar estratégias ambientalmente sadias para áreas ecologicamente frágeis (conservação da biodiversidade mediante o ecodesenvolvimento).
Econômica
– desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado;
– segurança alimentar;
– capacidade de modernização contínua do aparato produtivo;
– grau razoável de autonomia na pesquisa científica e tecnológica;
– inserção soberana na economia mundial.
Política (nacional)
– democracia definida em termos de apropriação universal do conjunto de direitos humanos;
– um Estado desenvolvimentista capaz de implementar o projeto nacional em parceria com todos os atores sociais interessados;
– um grau razoável de coesão social.
Política (internacional)
– um sistema efetivo das Nações Unidas para prevenir guerras, proteger a paz e promover a cooperação internacional;
– um programa de co-desenvolvimento Norte Sul, baseado no princípio da equidade (regras de jogo e compartilhamento do fardo direcionados em favor dos parceiros mais fracos);
– controle institucional efetivo das finanças e do comércio internacionais;
– controle institucional efetivo da aplicação do princípio da precaução na gestão dos recursos ambientais e naturais, prevenção das mudanças negativas do meio ambiente global, proteção da biodiversidasde biológica (e cultural) e gestão dos bens comuns globais como parte do patrimônio comum da humanidade;
– sistema internacional de cooperação científica e tecnológica efetivo, desmercantilização parcial da ciência e da tecnologia como elementos que pertencem também ao patrimônio da humanidade.
QUADRO 1 – CRITÉRIOS DE SUSTENTABILIDADE PARCIAL DAS DIMENSÕES DO ECODESENVOLVIMENTO
FONTE: Adaptado de SACHS (2007)
Sachs (2007, p. 297), destaca que no mundo real, a definição rigorosa de sustentabilidade integral deve ser relaxada, exceto na projeção de um futuro ideal, desde que se disponha de uma perspectiva geral de planejamento societário de longo prazo. Para o autor, vai ser muito difícil atender simultaneamente a todos os critérios parciais, ou mesmo progredir ao longo de todas as trajetórias:
O mundo real está cheio de trade offs. Mas isso não nos autoriza a sermos complacentes. Ao contrário, devemos rejeitar alguns deles como claramente inaceitáveis, ao mesmo tempo que nos preparamos para tolerar alguns outros apenas por um período limitado de tempo (SACHS, 2007, p. 299).
Dessa forma, o desenvolvimento integral é incompatível com o crescimento econômico alcançado mediante a desigualdade social crescente e / ou a violação da democracia, mesmo que seus impactos ambientais sejam mantidos sob controle. A prudência ambiental, por mais necessária que seja, não pode servir de substituto para a equidade social. A preocupação com o meio ambiente não deveria tornar-se um desvio dos imperativos fundamentais de justiça social e democracia plena – os dois valores básicos do desenvolvimento integral (SACHS, 2007). Este autor pondera que, em contraste, podemos abrandar parcialmente o rigor dos critérios de sustentabilidade ecológica desde que, pelas razões já explicitadas, o crescimento econômico temperado pela responsabilidade ecológica se mantenha, no transcurso das próximas décadas, como a condição necessária para se alcançar a “transição social” para um estado estacionário – definida por analogia com a transição demográfica para uma população estacionária.