Antunes (2005) afirma que na atualidade o trabalho tem sido identificado com a relação de emprego ou do não-emprego, mas é necessário ressaltar que a trajetória histórica revela que nem sempre foi assim. Portanto, o autor declara que o emprego, no sistema capitalista, é identificado na modernidade como sinônimo de trabalho, não sendo, portanto, assemelhado ao trabalho em toda sua grandeza e complexidade, pois se trata de um dos seus formatos e não o único. Para o autor, é importante reconhecer que junto à sociedade que naturalizou o emprego como sinônimo de trabalho, instituindo a classe-que-vive-do-trabalho9, há grande parcela da sociedade em que o trabalho é cada vez mais escasso, o que inclui uma proporção crescente de excluídos do mercado de trabalho.
O trabalho tem sido no decorrer da história da humanidade um dos alicerces da construção social, uma vez que, através dele, o homem torna-se partícipe do processo de formação da riqueza e da cultura. No entanto, a redistribuição do produto do trabalho no sistema capitalista não se processa de forma igualitária. O trabalho passa por uma transformação: a sociedade onde o trabalho é a fonte da própria estrutura social, em que praticamente todas as instâncias se organizam em prol dele e são, a ele, subordinadas. Em seguida, será abordado o trabalho, considerando duas dimensões: a perspectiva do emprego e do contrato.
Para Offe (1989), na relação de emprego em que há a figura do empregador, ou seja, o proprietário dos meios de produção, não há apenas uma relação legal, formal ou ainda racional. Nessa interface há um conjunto de interesses sintonizados com as necessidades de empregados e empregadores que estão entrelaçados pelas expectativas de ambos, emergindo conflitos que impactam essa relação. É nesse contexto do trabalho como um emprego, no qual o trabalhador está desvinculado do produto do seu trabalho, que são estabelecidas relações de satisfação/insatisfação; produtividade/desperdício; saúde/doença, justiça/injustiça e tantos
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Expressão utilizada por Antunes e Mészáros para conferir validade contemporânea ao conceito marxiano de classe trabalhadora, não restringindo nenhum tipo de trabalho, já que o conceito marxiano prioriza o trabalhador manual. Englobam tanto o proletariado industrial, os trabalhadores da área de serviços e ainda os desempregados, ou seja, a totalidade de trabalhadores que vendem sua força de trabalho. (ANTUNES, 2000)
outros elementos que transcendem a relação formal de trabalho, ou seja, o contrato de trabalho.
Consoante Siqueira e Gomide Júnior, (2004) além do vínculo contratual formal, outros se estabelecem entre indivíduos e o trabalho e, especificamente, entre estes e as organizações, fornecendo elementos específicos para a emergência da subjetividade mediante as percepções e comportamentos que se apresentam como desafios inerentes às relações interpessoais e intergrupais.
A quebra desse vínculo, expressa no contrato a partir da premissa de que os trabalhadores e os empregadores são livres para rescindi-lo, é legitimada pela demissão. A demissão se caracteriza pela existência de uma motivação, pelo menos de uma das partes para a descontinuidade do contrato; e que, em algumas situações implica em desemprego, um sintoma da sociedade pós-moderna.
Enquanto o emprego é estabelecido numa relação contratual, em que uma das partes vende seus serviços e a outra paga, para Marx (2006), o trabalho reveste-se de outra essência, uma vez que se refere à humanização do homem e a intervenção deste na natureza para modificá-la conforme suas necessidades, de modo intencional e consciente.
É esse distanciamento entre o trabalho e o seu produto que mobiliza em alguns autores, como Rifkin (1995), a defesa da não centralidade do trabalho na contemporaneidade, uma vez que o trabalho voltado para atender a reprodução do capital, segundo esses autores, não consegue expressar sua centralidade, portanto perdeu sua condição de central na vida humana. Ciampa (2007, p. 72) declara que “a tendência geral do capitalismo é constituir o homem como mero suporte do capital, que o determina, negando-o enquanto homem, já que se torna algo coisificado.”
Os autores contemporâneos Antunes (2005) e Arendt (2008) advogam a centralidade do trabalho, argumentando que é por meio do trabalho que os indivíduos conseguem exercer um papel social e um status. Reconhecem a contradição imposta pela sociabilidade capitalista, sobretudo porque o trabalho é escasso e vem sendo substituído pela tecnologia e pela otimização dos processos de gestão, que reduzem o número de postos de trabalho.
Antunes (2005) defende que o trabalho realizado sob condições precárias é valorizado não pelo seu caráter concreto, compreendido pela sua ação propriamente dita sobre a natureza, mas pelo que representa na dimensão dos aspectos abstratos. Nesse sentido, o trabalho revela sua centralidade, primeiro porque envolve praticamente todas as instâncias sociais, e é considerado como uma fonte de “realização” das necessidades de consumo, vitais para a manutenção da sociedade atual.
Uma reflexão merece destaque sobre a questão da centralidade do trabalho e continua a povoar as discussões teóricas, pois, diante de tantas modificações, constata-se que o capital não pode prescindir do trabalho humano, haja vista que constitui uma propriedade implícita da formação do capital. Como pode haver exploração e mais valia sem o trabalho humano? Antunes (2005) reforça essa compreensão que confirma a posição de centralidade do trabalho. Para ele, muitas são as interconexões e transversalidades que mostram o trabalho como questão central nos nossos dias, citando a destruição ambiental e a questão feminina. Segundo o autor, não há como se falar de questão ambiental sem salientar os efeitos nefastos que a exploração do homem fez sobre o capitalismo, num movimento de submissão de todos os recursos naturais ao capital. Quanto à questão feminina, tem-se o ingresso da mulher no mercado de trabalho e o seu crescimento, alimentando novas formas de convivência, valores e novas habilidades, profissões e ocupações. Assim, o labor humano mostra-se como questão vital para a humanidade.
Segundo Antunes (2005), o capital hodiernamente amplificou a lei do valor, deu-lhe maior vigência, extraindo sobre-trabalho de todas as esferas das quais é possível extraí-lo: das fábricas, dos bancos, das escolas, dos serviços mercadorizados, das casas, etc. Nessa perspectiva, o autor confirma a centralidade do trabalho em superação as suas diversas modalidades e, numa sociedade em que a tecnologia elimina postos de trabalho, modifica o perfil dos que permanecem no mercado de recursos humanos, competindo por uma vaga, uma vez que o emprego passa a ser, para a grande maioria, a principal estratégia de sobrevivência e forma de trabalho.
A autora deste trabalho corrobora a idéia do referido teórico, quando o mesmo assinala que o trabalho representa a centralidade da vida produtiva, uma vez que o homem em sua essência tem a capacidade de ser sujeito de sua ação sobre o mundo. A capacidade de transformar a si mesmo e a sociedade por meio de uma ação consciente se utiliza do trabalho na sua essência, mas trata-se do trabalho descaracterizado dos processos de exploração o qual poderia se constituir na base de uma sociedade eqüitativa.
Conforme preconiza Antunes (2005), a sociedade capitalista requer o homem livre e apto, por um determinado período, a vender sua capacidade de trabalho. Esse trabalhador já estava preparado para submeter-se ao mercado de trabalho, desde a falência do sistema feudal, em que sua única alternativa seria vender sua força de trabalho como mercadoria, cujo valor dependerá da dinâmica desse mercado. Para Offe (1989, p.53), “no mercado de trabalho, ofertantes e demandantes estabelecem contratos de trabalho entre si.”
A ideologia burguesa pressupõe a existência de homens livres para o surgimento de uma relação contratual, conforme assinala Chauí (2006, p.390-391):
A idéia de contrato vem do Direito Romano, que exige para validar uma relação contratual, que as partes contratantes sejam livres e iguais. Para afirmar que a sociedade e o Estado nascem de um contrato social, a ideologia burguesa precisa afirmar que todos os homens nascem livres e iguais, embora a natureza os faça desiguais em talentos e a sociedade os faça desiguais economicamente. A ideologia burguesa precisa, portanto, da idéia de trabalhador livre. Por sua vez, o salário só aparecerá como legítimo se resultar de um contrato de trabalho entre os iguais e livres.
Com esteio nas idéias da autora, pode-se perceber que a ciência do Direito estabelece os requisitos de liberdade como condição inerente ao contrato e o amplia, destacando o papel sustentador que a Revolução Burguesa teve nesse processo. Corroborando esse pensamento, Codo (2007, p. 149) reconhece que essa Revolução “[...] tratou de deslocar o processo de exploração, de diferenciação entre as classes, do domínio divino-hereditário para o plano da livre concorrência – o poder herdado cede lugar ao poder adquirido”.
No que se refere ao contrato de trabalho, Offe (1989) esclarece que há algumas questões as quais lhe são peculiares, argumentando que num contrato comercial de compra e venda, as relações econômicas nos aspectos quantitativos e qualitativos estão amplamente especificadas, com pouca margem para equívocos, enquanto no contrato de trabalho há uma grande margem para ajustes. O autor salienta:
Essa singular indeterminação do contrato de trabalho, em vista do tipo e o volume das atividades a serem executadas pelo empregado, não está apenas relacionada à previsibilidade incompleta das necessidades concretas de seu engajamento no processo produtivo da empresa; ela se dá também porque na prática é impossível estabelecer uma previsão jurídica detalhada da atuação do empregado, mesmo em um desenrolar contínuo e rotinizado dos processos de trabalho na empresa. Isso é impossível porque o empregador não compra uma coisa com um determinado valor de uso mensurável ou estimável, mas sim uma força de trabalho “viva”, que efetivamente permanece sob controle de seu possuidor – o trabalhador – mesmo quando tiver sido juridicamente transferida ao âmbito da disposição do comprador – o empregador (OFFE, 1989, p.54-55).
O autor, ao se referir à indeterminação do contrato de trabalho, revela que toda atividade laboral enseja aspectos específicos e amplos os quais não podem ser previamente estabelecidos no contrato formal, uma vez que a subjetividade humana se manifesta no processo de concretização do trabalho. Offe (1989, p. 55) corrobora essa premissa ao assinalar:
O valor de uso que uma empresa extrai da força de trabalho está quantitativa e qualitativamente vinculado à subjetividade do trabalhador, a sua vontade e disposição para o trabalho, etc; por isso o tipo e o volume do desempenho a ser despendido pelo empregado, enquanto parte no contrato de trabalho, não pode ser juridicamente normatizado [...].
Embora a relação de emprego seja caracterizada por um conjunto de diretrizes que definem em algumas instâncias os direitos e os deveres dos trabalhadores e empregadores, convém reconhecer que essa relação não é simplesmente caracterizada por um documento de compra e venda como ocorre com os contratos comerciais, haja vista que no contrato de trabalho emergem elementos não claramente especificados, uma vez que são inerentes à subjetividade humana.