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DIMENSÕES DOS SISTEMAS SOCIAIS PARAECONÔMICOS

Num segundo nível de análise e planejamento de sistemas sociais, Guerreiro Ramos propõe ao administrador dimensões a serem consideradas nessa tarefa, de modo a possibilitar a oportunidade de desenvolvimento de sistemas sociais substantivos.

As dimensões a serem consideradas na tarefa de delinear sistemas sociais substantivos, extraídas de teorias e práticas dispersas em diversas abordagens, são a

tecnologia, o tamanho, a cognição, o espaço e o tempo. Na apresentação dessas dimensões, Guerreiro Ramos oferece uma série de fontes e autores que podem constituir uma bibliografia básica para a formação do planejador de sistemas sociais.

Com referência à tecnologia, Guerreiro Ramos afirma o reconhecimento, de modo geral, “que a tecnologia é uma parte essencial da estrutura de apoio de qualquer sistema social, e existe no conjunto de normas operacionais e de instrumentos através dos quais se consegue que as coisas sejam feitas” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.157). A análise de tecnologia deve verificar se ela propicia ou dificulta a consecução de sua meta, já existindo uma bem desenvolvida habilidade para buscar a “harmonia entre a tecnologia de um sistema social e os objetivos específicos do sistema” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.157), na teoria convencional da organização, na abordagem dos sistemas sócio-técnicos e seus autores6.

Já com relação ao tamanho dos sistemas sociais, a abordagem teórica da questão tem sido relativamente escassa. Contra a tendência da época, de considerar favorável o máximo crescimento na busca da eficiência, Guerreiro Ramos associa tamanho e resistência da organização. Para sistemas sociais substantivos, afirma que “a capacidade de um cenário social para fazer face e para corresponder, eficazmente, às necessidades de seus membros exige limites mínimos ou máximos a seu tamanho” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p. 159, grifos do original), sem que se trate no entanto do tamanho ótimo na forma conceituada na firma. Contudo, “nenhuma norma geral pode ser formulada para determinar, com precisão, antecipadamente, o limite de tamanho de um cenário social; a questão do tamanho constitui sempre um problema concreto, a ser resolvido mediante investigação ad hoc, no próprio contexto” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p. 159, grifos do original). Para ele, deve-se ainda considerar que “a intensidade das relações diretas entre os membros de um cenário social tende a declinar na proporção direta do aumento de seu tamanho” (GUERREIRO RAMOS,

1989, p.159, grifos do original), sendo que esse tipo de relacionamento é um requisito para os sistemas substantivos.

Isonomias, portanto, tipicamente apresentam dimensão moderada em tamanho. Fenonomias são compostas por grupos pequenos. Economias teriam tendência a crescer, em função da divisão do trabalho, especialização e impessoalidade. As sociedades de massa favoreceriam a anomia, em virtude da predominância dos relacionamentos funcionais, e os ambientes pequenos são mais capazes de possibilitar tratamentos adequados dos indivíduos anômicos.

Sobre a dimensão da cognição nos sistemas sociais, Guerreiro Ramos cita a abordagem de Georges Gurvitch, mas vale-se da idéia de Habermas de que os sistemas cognitivos podem ser classificados segundo o seu interesse dominante. Quando o interesse é a produção, o sistema é funcional; quando o interesse é o controle do ambiente, o sistema é político, e assim por diante. Guerreiro Ramos indica que, “Misturados de várias maneiras, esses sistemas podem existir simultaneamente num único cenário social, mas o sistema cognitivo político, nas isonomias, o sistema cognitivo personalístico, nas fenonomias e, finalmente, o sistema cognitivo deformado é bem característico dos indivíduos e/ou grupos anômicos” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.161). Mostra ele que “Há concretamente, sistemas sociais em que mais de um tipo de sistema cognitivo assume, paralelamente, o caráter dominante. Esse é, por exemplo, o caso das economias de natureza isonômica e de muitas instituições educacionais em que a informação pessoal e o fomento do bem, na sociedade, se revestem de fundamental importância” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.161). Sobre este tópico, a abordagem substantiva deveria buscar “proporcionar aos indivíduos condições adequadas a seus específicos e dominantes interesses cognitivos” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.161).

Sobre a dimensão do espaço dos sistemas sociais, Guerreiro Ramos busca demonstrar seus efeitos sobre os mesmos e faz uma extensa abordagem de autores que tratam do espaço de forma substantiva. Cita principalmente Hall e Steele. Guerreiro Ramos afirma que “exigências específicas de dimensões espaciais são inerentes a cada tipo de cenário social” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.163), e tais autores fornecem elementos substantivos para o tratamento do espaço. Variações dessa dimensão seriam os espaços determinados, semideterminados e falsamente determinados, segundo as impressões de movimento sugeridos pelos seus diversos elementos (estruturas, paredes removíveis, móveis etc.). Distingue também entre espaços sócio-aproximadores e sócio-afastadores. Como regra geral, a variedade é necessária, para atender às necessidades segundo variados momentos dos indivíduos, momentos de maior convivência exigem espaços sócio-aproximadores, mas esses mesmos indivíduos necessitam também de desfrutar momentos de recolhimento e reflexão. Uma implicação da ampliação do problema do espaço na esfera organizacional – classicamente mais associado a problemas de leiaute e conexos com a produção econômica – é de que sua consideração não é mais limitada a esse enfoque produtivo, mas se amplia em termos conceituais para dimensões substantivas e para a interação com outras disciplinas, como a geografia, o planejamento urbano etc.

A dimensão do tempo recebe de Guerreiro Ramos um tratamento valioso. Aponta ele que o tempo considerado na teoria da organização tem sido apenas vista pelo seu aspecto cronológico para fins econômicos, tornando-se também uma mercadoria. Uma teoria substantiva não pode se limitar a essa concepção mecanicista do tempo newtoniano. Nos sistemas sociais, Guerreiro Ramos recupera os estudos de Gurvitch sobre o tempo social. Gurvitch demonstra “que o tempo das organizações formais não é idêntico ao tempo característico dos sistemas sociais em que prevalecem a intimidade e uma intensa reciprocidade interpessoal” (GUERREIRO RAMOS, 1989, p.167). Para os fins da

paraeconomia, Guerreiro propõe considerar o tempo serial, linear ou seqüencial, segundo o registro do cronos, o tempo cronológico ao qual costumam se restringir as abordagens atuais, e que orientam o tipo economia de sistema social; o tempo convivial, característico da isonomia, que orienta uma interação substantiva entre as pessoas; o tempo de salto – leap time – o tempo do kairos, da oportunidade e do acontecimento, da criatividade, seria típico das fenonomias; e o tempo errante, que embora seja mais do tipo anômico, pode por vezes ser um tempo necessário ao processo de auto-atualização.

A abordagem de Guerreiro Ramos se mostra muito atualizada, inclusive com os conceitos de tempo que têm orientado as ciências naturais (OLIVEIRA, Luiz A., 2003). Vergara e Milani (2005) apresentaram artigo recente apresentando dimensões do tempo como importantes categorias da análise organizacional, mas não se valem dos insights de Guerreiro Ramos.

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