3.4 COMENTÁRIOS ACERCA DA CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS
3.4.1 Dimensões Objetiva e Subjetiva dos Direitos Fundamentais
A compreensão dos direitos fundamentais sob duas perspectivas, a objetiva e a subjetiva, demonstra uma relevante formulação do direito constitucional moderno, principalmente para a compreensão das funções exercidas por esses direitos.
A perspectiva objetiva dos direitos fundamentais originou-se na Alemanha, num julgamento famoso realizado pelo Tribunal Federal Constitucional, chamado caso Lüth, no ano de 1958, no qual ficou assentado que se encontrava incorporado um ordenamento axiológico objetivo às normas de direito fundamental, constituindo-se em “decisões valorativas de natureza jurídico-objetiva da Constituição, com eficácia em todo o ordenamento jurídico e que fornecem diretrizes para os órgãos estatais”127.
Os direitos fundamentais, sob essa perspectiva, possuem uma eficácia dirigente em relação aos Poderes Públicos, incumbindo ao Estado a tarefa permanente de concretização desses direitos. Ademais, costuma-se afirmar que esses direitos possuem uma eficácia irradiante, fornecendo diretrizes para a aplicação do direito infraconstitucional como modalidade assemelhada à técnica da interpretação conforme a Constituição128. Essa irradiação deve ser entendida como um direcionamento do legislador para agir segundo os
127 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais, op. cit., p. 143. 128 ANDRADE, José Carlos Vieira de. Op. cit., p. 168.
preceitos definidos na Lei Maior, fazendo com que seus efeitos atinjam os Poderes Públicos e as relações privadas.
A eficácia privada, denominada também de eficácia horizontal dos direitos fundamentais, deve existir nas relações interpessoais, pois ela assegura que os direitos individuais e coletivos sejam aceitos e reconhecidos por todas as pessoas, vinculando os particulares a um dever de respeito aos direitos fundamentais.
A dimensão objetiva dos direitos fundamentais é constituída por princípios superiores do ordenamento constitucional, no âmbito dos componentes estruturais da ordem jurídica, configurando decisões valorativas com eficácia abrangente para todos os Poderes Estatais, seja o Legislativo, Executivo ou Judiciário.
O legislador deve atuar positivamente, criando leis necessárias à concretização dos direitos fundamentais; o Poder Executivo, por sua vez, deve realizar as políticas públicas necessárias à efetivação dos direitos e ao Judiciário cabe a tarefa de julgar conforme as leis e preceitos constitucionais de forma a não permitir o desrespeito dos princípios que fundamentam a Constituição.
Um dos desdobramentos da perspectiva objetiva é gerar efeitos não somente na relação existente entre Estado e indivíduo, mas também nas relações entre particulares. Nessa dimensão, os direitos fundamentais não são considerados exclusivamente sob o âmbito individualista (subjetiva), fazendo com que o bem por eles tutelado seja reconhecido como um valor em si, que deve ser protegido.
Sob esse enfoque, o Estado deve adotar medidas (materiais e/ou jurídicas) que efetivamente resguardem os direitos fundamentais, deixando transparecer que “a dimensão objetiva interfere na dimensão subjetiva dos direitos fundamentais, neste caso atribuindo-lhe reforço de efetividade”129.
Um fato importante que não deve ser esquecido é que a perspectiva objetiva, apesar de criar um direito à prestação associado ao direito de defesa, deve estar vinculada à reserva do possível e à liberdade conformativa do Poder Legislativo.
Já os direitos fundamentais, sob a perspectiva subjetiva, representam um poder conferido ao seu titular de requerer dos Poderes Públicos a satisfação dos direitos fundamentais, institucionalmente e materialmente. É uma pretensão a que seja adotado determinado comportamento, expressado, também, na vontade de produzir efeitos sobre determinadas relações jurídicas. Aqui os direitos fundamentais são pensados do ponto de vista
129 MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 190.
individual, conferindo ao particular a possibilidade de exigir do Poder Público seus direitos conferidos objetivamente pela Constituição. Essa possibilidade que o indivíduo possui de exigir um comportamento do Estado pode ser pleiteada perante o Judiciário.
José Carlos Vieira de Andrade130 entende que o reconhecimento da perspectiva subjetiva está relacionado “à proteção de uma determinada esfera de auto-regulamentação ou de um espaço de decisão individual; tal como é associado a um certo poder de exigir ou pretender comportamentos ou de produzir autonomamente efeitos jurídicos”.
O titular de um direito fundamental possui uma gama de possibilidades que estão condicionadas à conformação da norma que o confere, sendo constituídos pela possibilidade de exigir ações positivas e negativas do Estado e dos particulares. Nem o Poder Público nem os particulares podem agredir posições jurídicas concernentes ao âmbito de proteção dos direitos fundamentais.
De acordo com Clèmerson Merlin Clève131, a perspectiva subjetiva dos direitos fundamentais possui três funções, sendo a primeira de defesa do indivíduo em relação ao poder estatal que venha obstar a satisfação de determinado direito fundamental; em segundo, de prestação, no qual o indivíduo tem a possibilidade de demandar a realização do objeto do direito fundamental e, por fim, de não discriminação, pois o indivíduo deve ter ao seu dispor os bens necessários à realização dos direitos fundamentais, sem diferenciação em relação aos seus pares.
Ademais, o Estado deve garantir o direito fundamental, protegendo-se seu núcleo essencial, entendendo J. J. Gomes Canotilho132 que “a proteção do núcleo essencial não pode abdicar da dimensão subjectiva dos direitos fundamentais e daí a necessidade de evitar restrições conducentes à aniquilação de um direito subjectivo individual”.
Nesse contexto, no âmbito das prestações existenciais mínimas (por exemplo, direito à vida e saúde), o ser humano possui um direito subjetivo originário ao qual está associado um dever correlativo por parte do Poder Público.
Esse plano jurídico-subjetivo confere a aptidão de exercer positivamente os direitos fundamentais, visto como uma liberdade positiva e de requerer omissões do Estado, evitando agressões por parte do mesmo (liberdade negativa).
130 ANDRADE, José Carlos Vieira de. Op. cit., p. 163.
131 CLÈVE, Clèmerson Merlin. O desafio da efetividade dos direitos fundamentais sociais. Revista da
Academia Brasileira de Direito Constitucional, v. 3, 2003, p. 23.
Corroborando com a afirmação supra, Leonardo Martins133 leciona que na perspectiva subjetiva “ao Estado é endereçada, por sua vez, uma obrigação negativa [...] de não intervir na esfera individual protegida pela norma de direito fundamental, salvo se houver uma legitimação constitucional para tanto”. Além dessa competência negativa, observa que existe um status positivus quando “ao indivíduo é conferido um status de liberdade positiva (liberdade para alguma coisa), a qual pressupõe a ação estatal, tendo como efeito a proibição da omissão por parte do Estado”.
A dupla dimensão dos direitos fundamentais demonstra a existência de suas variadas funções no ordenamento jurídico, sendo fruto tanto da perspectiva objetiva quanto da subjetiva, as quais influenciaram o constituinte de 1988 quando da formulação do rol desses direitos fundamentais, demonstrando sua multifuncionalidade.
A verificação desse caráter multifuncional dos direitos fundamentais, em razão dos novos desdobramentos relacionados às suas perspectivas objetiva e subjetiva, pode ser reconduzida à teoria dos quatro status de Georg Jellinek, analisada a seguir.