5 QUILOMBO DO SERROTE DO GADO BRABO
5.4 Dinâmica do cotidiano escolar e seus desafios
Os dados apresentados na sequência resultam das observações que realizei durante as aulas na escola José Pedro da Silva, bem como das conversas com a coordenação da escola e servidores da Secretaria de Educação de São Bento do Una. As conversas e observações fortaleceram o conhecimento da realidade estudada, assim como os êxitos e desafios da docência naquele contexto. Destaco que minha presença em sala de aula também possibilitou
alguns momentos mais interventivos. Considerando a existência de turmas multisseriadas45, busquei auxiliar as professoras nas atividades que eram propostas, o que me permitiu maior aproximação com os discentes. Iniciando a contextualização da escola em que realizamos nosso estudo, destacamos alguns dados quantitativos. Em seguida, prosseguimos com informações referentes à dinâmica cotidiana e os desafios nela existentes.
Assim como as demais escolas do município, a escola está subordinada ao programa Qualiescola, ofertado pelo Instituto Qualidade no Ensino (IQE). A partir das Diretrizes do programa, as avaliações são elaboradas também via Secretaria de Educação e encaminhadas às escolas do município. Na mesma perspectiva, a aplicação das sequências didáticas emitidas pelo mesmo órgão também é uma atividade comum no cotidiano escolar.
Como em outros quilombos, a escola é constituída por duas turmas multisseriadas. A primeira funciona com estudantes distribuídos nos seguintes níveis de ensino: Pré I, Pré II, 1º e 2º anos. A segunda turma é composta por discentes dos 3º, 4º e 5ºanos. Ao todo, no ano de 2017, foram 34 estudantes matriculados. Vale pontuar que a heterogeneidade das turmas no que diz respeito ao perfil discente (faixa etária diversificada, formação familiar, entre outros) e a quantidade de turmas a serem atendidas, faz com que as professoras apresentem uma performance bastante dinâmica em sala de aula, a fim de atender as demandas de todas as turmas. No caso da primeira turma, os estudantes têm de quatro a sete anos de idade. O quantitativo discente por turma está distribuído da seguinte maneira:
Figura 14: Quantidade de estudantes por ano (Turma 01)
Fonte: gráfico sistematizado pela pesquisadora a partir das informações colhidas em sala de aula.
45Entende-se por escola ou turma multisseriada a “forma de organização escolar em que alunos de diferentes idades e tempo ou níveis de escolarização (o que conhecemos por série) ocupam uma mesma sala de aula, sob a responsabilidade de um mesmo professor. No contexto do campo, as escolas/classes multisseriadas são frutos de um período histórico que nos remete ao Brasil colônia, com as professoras leigas e ambulantes que davam aulas aos filhos dos donos das terras e por consequência aos filhos dos seus trabalhadores, após a expulsão dos jesuítas do país em 1759” (JANATA; ANHAIA, 2015, p. 2).
27% 40% 20% 13% Pré I Pré II 1º Ano 2º Ano
Considerando esse perfil, as aulas são iniciadas com atividades lúdicas (músicas e brincadeiras), momento que é importante para a socialização dos pequenos. Após essa atividade, são trabalhados os conteúdos curriculares de português, matemática, ciências e artes. Destaco o momento de escuta de histórias, onde os(as) estudantes, muitas vezes inquietos(as), permanecem concentrados(as), demonstrando bastante interesse. Em algumas oportunidades, em uma linguagem fácil para os discentes, a professora costuma repassar algumas informações sobre a história da cidade e da origem da comunidade.
A pouca idade discente não torna o contexto desta sala de aula menos provocador para o docente no trato das relações étnicas. Mesmo entre as crianças persiste o problema da discriminação racial. Exemplifico essa questão narrando um momento específico das observações. Percebendo que a professora estava ocupada com um outro grupo de discentes, uma aluna pediu minha intervenção, pois um colega de classe acabara de proferir injúria racial contra uma estudante. Essas são questões que traduzem a complexidade da relação entre racismo e infância, onde a mediação dessas relações demandam mais que uma repreensão.
Passamos a descrever algumas questões referentes à segunda turma. Nela os estudantes estão divididos da seguinte maneira:
Figura 15: Quantidade de estudantes por ano (Turma 02)
Fonte: gráfico sistematizado pela pesquisadora a partir das informações colhidas em sala de aula.
Na prática cotidiana, são ministrados conteúdos de português matemática, artes, geografia e história, as duas primeiras disciplinas com maior carga horária. Os estudantes da segunda turma estão situados na faixa etária de 8 a 12 anos.
É possível perceber as dificuldades que o alunado apresenta na realização de algumas atividades, bem como nas avaliações propostas pelo Programa Mais Educação. Em um momento específico, percebendo os maus resultados na avaliação, os estudantes ameaçaram
52%
5%
43% 3º
4º 5º
não participar da próximas atividades avaliativas. Os estudantes apresentam boa capacidade interpretativa e oral, mas não obtêm êxito nas atividades que demandam leitura, escrita ou cálculo. Esse tipo de contexto impulsiona a professora a adequar o programa de ensino do IQE ao mais próximo possível da realidade discente.
No percurso das aulas, é comum que os estudantes comentem sobre situações ocorridas no sítio. Fazem comentários sobre episódios cotidianos. Tratando-se de alguma situação de perigo, a professora orienta sobre os cuidados que os estudantes devem ter e por vezes retoma a outros exemplos ocorridos na comunidade para realizar esse aconselhamento.
Finalizado o primeiro turno de aula, os estudantes almoçam na escola e aguardam as atividades ofertadas pelo Programa Mais Educação. No turno da tarde, os discentes das turmas de 3º, 4º e 5º anos permanecem para as atividades de português e matemática (aulas de reforço), artesanato e música (percussão). Nos anos anteriores, com o suporte do governo local, a escola também sediou projetos outros artístico-culturais com os estudantes quilombolas. A educação musical, nesse caso, é concebida através das atividades de um grupo de percussão, despertando o interesse dos estudantes para atividade musical. Em São Bento do Una, apenas duas escolas rurais contam com instrumentos musicais, sendo a José Pedro da Silva uma das contempladas.
Um momento que chama a atenção na dinâmica escolar é o intervalo. Diferentemente de outros contextos escolares, o uso de tecnologias não gera dependência ou problemas, pois os estudantes, em sua maioria, não as possuem. Assim, distante de computadores e aparelhos celulares, o corpo é a maior fonte de recreação. Os estudantes, ao correrem e brincarem no pequeno pátio da escola, também provocam intervalos agitados, o que demanda extremo cuidado por parte das professoras, principalmente para que os estudantes não se machuquem. A equipe escolar se preocupa ainda com a sociabilidade das crianças e dos adolescentes da escola, já que dificilmente os estudantes saem da comunidade e conhecem outros lugares. Assim, a escola também ganha importância nesse sentido, na medida em que organiza atividades em que os estudantes possam conhecer outras realidades.
Propostas que levem em consideração aspectos históricos ou socioculturais da comunidade são sazonais. Anualmente, a Secretaria de Educação promove projetos temáticos que são trabalhados em todo o município. No caso das escolas quilombolas, as temáticas são ajustadas para a realidade local. Foi-nos disponibilizado o projeto do ano de 2016, intitulado “#Por uma infância sem racismo”. As atividades realizadas consistem na realização de pesquisas, divulgação de plataformas que abordem o tema, produção de maquetes, textos, cartazes, peças teatrais, apresentações artísticas, entre outros. O cronograma de atividades se estende entre os meses de agosto a dezembro. Em 2017, o tema trabalhado foi “Recordando as
tradições com as gerações”. Na escola campo de nosso estudo, este momento foi vivenciado também com participação dos moradores da comunidade.
Figura 16: Vivência do projeto “Recordando as tradições com as gerações”, na escola José Pedro da
Silva
Fonte: Silva, 2017.
É no mês de novembro (mês da Consciência Negra) que se faz a culminância do projeto. As professoras me explicaram que nesse período, geralmente as demais escolas do município, e também instituições de ensino superior participam das ações. A escola José Pedro da Silva torna-se em uma espécie de sede para as festividades. A importância da escola para a consecução das atividades é explicitada no projeto: “A Escola José Pedro da Silva compartilhará com as escolas (previamente agendadas), uma oficina de música e apresentação contendo o histórico da Comunidade” (SÃO BENTO DO UNA, 2016).
Embora sejam percebidos os esforços da administração municipal no que concerne à realização de projetos e atividades de conscientização, o dilema da auto representação negra é uma questão emergente e que gera conflitos no contexto quilombola. As professoras narram o incômodo que a discussão sobre pele negra e cabelos crespos traz para muitas crianças e adolescentes da escola.
Outro aspecto que tem desafiado a gestão local é a evasão. Segundo as docentes, a escola já chegou a funcionar nos três turnos, mas a evasão é um problema que tem interferido no funcionamento escolar. Um dos motivos para a evasão seria a insatisfação dos pais dos alunos com a “qualidade” do ensino local, ministrado pelas professoras quilombolas, em que pese o fato das docentes serem graduadas e participarem das formações regularmente ofertadas pelo município. Assim, preferem que seus filhos estudem em outros estabelecimentos, diante da crença de que outras escolas do entorno possam oferecer melhores condições. Esse delicado contexto indicia algumas fragilidades quanto à compreensão da importância de uma educação local, protagonizada pelos sujeitos da comunidade. Essa abordagem também será pontuada em nosso trabalho, através de algumas inquietudes que emergiram no diálogo com as docentes.
A despeito dos esforços no trato das questões étnicas, ainda persiste certa hifenização com outras dimensões possíveis de uma educação diferenciada, e muitos podem ser os motivos para esse afastamento, os quais tratamos ao longo desse trabalho, notadamente a partir das conversas com as professoras.