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3.3 CASO N.º 2

3.3.4 DINÂMICA FAMILIAR E DO PACIÊNTE

A mãe de RC., Regina, é uma mulher conservadora e invasora, prepotente e que gosta de constranger as pessoas. Relata, numa das entrevistas, que RC. tem dificuldade de dormir desde os 11 meses de idade e que nunca pára quieto.

Antes de tomar o Tofranil, fazia cocó e xixi nas calças. Com algumas paradas e mudanças do medicamento, ele toma calmante desde os 11 meses.

Regina, nos seus contactos comigo, deixou bem claro que se RC. Mudasse seu comportamento, não permitia que continuasse fazendo psicoterapia. Ela fez ameaças, quis me intimidar, tentou constranger e mostrar o poder que exerce sobre o filho.

Fiquei perplexa ao perceber sua insistência em me convencer de que o RC. era hiperactivo e de que precisava continuar a tomar o medicamento. Chegou ao ponto de dizer-me que se trata de uma hiperactividade genética e comenta que tem uma tia agitada, portanto, nas mesmas condições.

Após a sessão, desconcertada e triste me perguntei qual seria o interesse desta mãe em convencer-me da hiperactividade do seu filho. Porque que Regina quer manter o filho nesta condição?

Ainda me faço esta pergunta até hoje.

No dia seguinte, liguei para a neurologista de RC., a Dra. Vânia, que me disse não acreditar que seja um caso de hiperactividade, mas um problema (distúrbio emocional ou comportamental, pois, os exames realizados deram negativos.

Foi a médica que tinha insistido para que Regina procurasse uma psicoterapeuta e desse modo, poderia aos poucos, diminuir e até excluir o medicamento.

A Dra. Vânia percebeu, por parte da mãe, também uma certa resistência em retirar o medicamento. Regina não quis aceitar a possibilidade do filho não ser hiperactivo e vai sozinha ao consultório buscar a receita para comprar o medicamento.

Nas vezes em que o RC. acompanhou a mãe ao consultório, ela falou do xixi e do cocó, na sua frente o que o deixou constrangido.

Nas primeiras sessões com RC., percebi que na presença da mãe, ele tinha um comportamento agitado, infantilizado e então curiosamente, este comportamento desaparece quando fica a sós comigo. Suas atitudes, não pareciam tão agitadas quanto queriam demonstrar, pois, ele também tentou me convencer que era hiperactivo. Isso parecia um trunfo, algo a ser exibido com prazer.

Não me deixei convencer e fui, aos poucos, dizendo para ele que suas atitudes, na minha presença, não demonstravam uma agitação fora do comum. Parecia, na verdade, que queriam fazer-me acreditar em algo que eu não sentia e não via.

Nesse aspecto, a mãe e filho estavam identificados. Os dois, parceiros e cúmplices, sustentavam uma situação onde o meu paciente saía prejudicado: RC é obrigado a tomar o medicamento e a permanecer numa situação infantilizada, de dependência. Perguntei-me sobre os motivos que estariam a levar RC a concordar com tal situação. Aos poucos, percebi que a cumplicidade desses dois os leva a praticar maldades e passei a utilizar esta palavra para designar um conjunto de atitudes onde a outra pessoa é constrangida e humilhada.

Regina tentou fazer isso comigo e, sem a menor cerimónia, faz isso com o próprio filho. Meu paciente, de sedutor e engraçadinho, passou a demonstrar que sente muito prazer em constranger amigos, parentes, desconhecidos e até a própria psicóloga.

Passei a denominá-lo de lobo em pele de cordeiro e defini suas atitudes como “maldades”. Sem dúvida que a fonte do aprendizado dessas maldades está a Regina e RC. demonstrou ser um aprendiz aplicado.

Numa das sessões, meu paciente traz um desenho que fez, era um curinga.

Compreendi que estava a falar de si, que ele é como o curinga: pratica maldades fazendo gracinhas. Eis algumas de suas proezas:

- Quebrar as lâmpadas do corredor do colégio onde estuda;

- Vigiar para que seus colegas quebrem a porta de uma das salas de aula;

- Em casa, deixa de propósito a gaiola dos passarinhos do lado de fora no frio, para que morram;

- Em casa, ao brincar, deixa vazar muita água a ponto de molhar vários cómodos. A imagem do Curinga foi de grande auxílio para mim, pois passei a apontar para o meu paciente que suas gracinhas não eram inocentes nem casuais, além disso, essas atitudes causavam constrangimento e incómodo. Eram, na verdade, “maldades” disfarçadas de gracinhas.

Apontei o enorme prazer que sentia em realizar suas proezas e enfatizei que não conseguia mais enganar-me: eu sabia muito bem o que estava a fazer e não considerava nem um pouco engraçadas as suas atitudes. Ele ainda tentou me convencer, mas mantive a posição e, desse modo, a estratégia do curinga não funciona mais.

Confrontei claramente as atitudes de RC. e questionei suas intenções.

Também, fui apontando, aos poucos, outras alternativas de relacionamento com as pessoas e as coisas ao seu redor.

Com isso, fui adquirindo importância para ele e acabei ocupando o lugar simbólico da mãe, ou seja desempenhei a função materna.

O RC. confiava em mim, dava importância ao que eu dizia e, desse modo, podíamos aprofundar o que estava acontecer com ele.

Como transformou-me numa outra possibilidade de mãe começou a trazer seu ódio por Regina e logo o estendeu á irmã.

De identificado e cúmplice da mãe, passou a demonstrar hostilidade por ela e, também certo ressentimento.

Deu a entender que não queria mais manter a “farsa” da hiperactividade.

Há muito tempo, eu havia abandonado a crença na hiperactividade, também defendia que a questão era emocional, mas ainda não havia conseguido estabelecer uma hipótese que me convencesse. Foi, então, que aconteceu uma sessão muito interessante que forneceu pistas valiosas para uma possível compreensão.

Naquele dia, ao chegar á clínica, RC. viu me a conversar com algumas colegas na sala de espera. Entrou, furioso, para o atendimento e, inquieto, agitado, começou a destruir o que via pela frente. Fui tentando fazer com que não destruísse as coisas até que se colocou atrás de mim mais furioso ainda, assustada, precisei mudar de lugar para poder vê-lo.

Nesta sessão e nas que se seguiram, conversamos sobre o que havia acontecido. A hipótese que formulei foi a seguinte: RC se sentiu traído quando me viu com outras pessoas associou-se esta “traição”com a de sua mãe quando sua irmã nasceu. Em sua fantasia, o nascimento da irmã o tirou do lugar de preferido para colocá-lo na condição de preterido.

Ele não aceita esta situação, está inconformado e ressentido. Aumentou as dosagens de “maldades” como uma espécie de vingança da mãe: resolveu incrementar aquilo que aprendeu com ela para dela se vingar.

Outro aspecto da questão é que parece não compreender como pôde ser “traído” se era tão bom aprendiz; isso o torna vulnerável, frágil. Ele sentiu a “traição” como um abandono.

O RC. relata que deixar de ser o único, foi muito triste, doloroso e solitário.

Criar e manter a “farsa” da hiperactividade satisfazia uma vontade da mãe e o torna especial.

A hiperactividade era uma espécie de atestado da cumplicidade dos dois, da forte identificação que existe entre eles. Praticar maldades também parece funcionar como um atestado da cumplicidade dos dois: mãe e filho se reconhecem nisso.

A “traição o feriu mortalmente, mas serviu de alerta: ele pôde buscar outras alternativas para si mesmo, o ressentimento relacionado á mãe o empurra para a busca de novas fontes de inspiração.

Exactamente aqui que me incluo tende o como objectivo ser /fornecer novos modelos de relacionamento para o meu paciente.

A forte transferência estabelecida em relação a mim tem sido o principal instrumento de trabalho. Ele tem manifestado progresso significativo, já disse que pretende utilizar sua mania de mexer e destruir coisas para estudar uma profissão (analista de sistemas ou engenharia informática). Outro dado significativo é que escreveu no gesso (quebrou o braço) M.T.L. que significa maldades tem limite.