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A freguesia de São Domingos de Benfica, em contraste com a cidade de Lisboa, teve um aumento populacional entre 2011 e 2021 (Fig. 8 e 9). Esta perda de população é algo que está a afetar a cidade de Lisboa e muitas das suas freguesias, pois só 12 das 24 freguesias da cidade é que tiveram um aumento de população no último período intercensitário. Deve referir-se que a perda de população é especialmente significativa nas freguesias do centro de Lisboa.

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O crescimento da população na freguesia de S. Domingos de Benfica neste espaço de 10 anos pode ser devido às reabilitações e construções novas (poucas, mas existentes) que têm aparecido, sobretudo na zona do Alto dos Moinhos, pois um aumento populacional de cerca de mil pessoas (3,1%), entre 2011 e 2021 não é muito significativo se considerarmos que a freguesia tinha mais de 33 000 residentes no ano inicial (fig.8).

Apesar do crescimento demográfico relativo não ser muito significativo, este só é

2021 2011

População reisdente (nº) em

Lisboa 545923 552700

0 100000 200000 300000 400000 500000 600000

População residente (nº) em Lisboa

FIGURA 8,POPULAÇÃO RESIDENTE (Nº), EM SÃO DOMINGOS DE BENFICA,CENSOS

2011 E 2021

FIGURA 9,POPULAÇÃO RESIDENTE (Nº), EM LISBOA,CENSOS 2011 E 2021

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ultrapassado por freguesias em que estão a ocorrer processos de gentrificação reconhecidos relacionados com a presença tradicional de classe média-alta (Alvalade, Avenidas Novas e mesmo Areeiro), instalação significativa de imigrantes não comunitários (Arroios) ou localizadas em áreas mais periféricas da cidade (Santa Clara, Parque das Nações), esta última a conhecer um aumento significativo da oferta residencial nova destinada a classes média-alta e alta (INE, Censos de 2021).

Há pouco espaço para construções novas na maioria das freguesias de Lisboa e aquelas que conseguem atrair população através de construções novas e de processos de renovação ou reabilitação vão beneficiar disso. A realidade é que muitas destas edificações ou são de luxo ou direcionadas para a classe alta, média/alta, dificultando o acesso à habitação às classes mais baixas e mesmo à classe média.

Tal como se esperava, inclusive pela opinião recolhida nas entrevistas, a freguesia continua a ter uma grande percentagem de população envelhecida - em 2011 a percentagem de população de 65 e mais anos era 24,8% e em 2021 de 26,4% (Fig. 10), ou seja, o peso da população idosa na freguesia aumentou no espaço dos 10 anos em análise. Em comparação, a cidade de Lisboa registou uma diminuição muito ligeira na percentagem de pessoas com 65 e mais anos passando de 23,70% em 2011 para 23,40% em 2021 (Fig. 11). Apesar de não ser uma grande diminuição (cerca de 3352 pessoas), a evolução deste grupo etário em Lisboa foi em sentido contrário ao

observado na freguesia de S. Domingos de Benfica. Isto pode ser um indicativo de que o desalojamento direto de população idosa, um dos grupos vulneráveis na análise de Atkinson (1999), é inexistente ou quase inexistente em S. Domingos de Benfica.

Em termos de explicações, pode assumir-se que o aumento da população mais idosa em São Domingos de Benfica pode estar a ocorrer por dois fatores. Em primeiro lugar, o poder de fixação de população desta freguesia estará a contribuir para que os residentes que aqui viviam há 10 anos e que envelheceram beneficiando do processo de aumento da esperança média de vida em idades mais avançadas, se tenham mantido, passando nos censos de 2021 a fazer parte do grupo etário dos 65 e mais anos. O outro fator é que a população mais velha, a caminhar para a idade da reforma, não só tende a manifestar menor propensão para a mobilidade residencial autónoma, como pode

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ocupar cargos superiores com melhores rendimentos que conjugados com muitos anos de poupanças, facilitam a manutenção em residências com rendas mais elevadas.

Ademais, tendo adquirido casa própria, muitos destes residentes mais velhos e pertencentes a uma classe média-média e, em menor grau, média-alta, encontrarão nessa situação mais um fator inibidor da mobilidade residencial.

O aumento de população entre os 25 e 64 anos, faixa etária à qual normalmente pertencem os gentrifiers (Mendes, 2008), é praticamente inexpressivo, tendo-se registado um crescimento absoluto de 11 pessoas. Ora esta evolução acaba por se traduzir numa redução no peso relativo dos residentes deste grupo etário na freguesia, passando de 53,1% em 2011, para 51,5% em 2021. Note-se que esta evolução relativa está em sintonia com a tendência observada na cidade de Lisboa durante o mesmo período, se bem que neste último caso a variação é menos acentuada: 53,60% em 2011 e 53,50% em 2021.

Isto pode ser indicativo de que este grupo etário vai tendo cada vez menos poder de compra para se mudar para esta área (e para a maioria das freguesias de Lisboa…), podendo assumir-se que a perda de população dos 0 aos 14 anos em S. Domingos de Benfica (12,40% em 2011 e 11,90% em 2021) também pode estar a refletir este processo. É verdade que se verifica uma tendência para a diminuição geral da fecundidade em Portugal que está a contribuir para o declínio do grupo etário dos jovens. No entanto, na cidade de Lisboa esta coorte não se reduz em termos relativos (corresponde a 13% do total, tanto em 2011 como em 2021), podendo assumir-se que há menos agregados jovens que estejam a começar a constituir família e a mudar-se para a freguesia de São Domingos de Benfica, o que aponta para ausência de gentrificação ou, pelo menos, para que esta seja limitada e eventualmente circunscrita a áreas específicas da freguesia.

Para além dos idosos, o outro grupo etário que teve um aumento populacional foi o dos 15 aos 24 anos. A evolução populacional desta coorte entre 2011 e 2021 foi muito semelhante em S. Domingos de Benfica e em Lisboa: enquanto em 2011 este grupo etário representava 9,70% da população residente na freguesia em análise e na capital

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portuguesa, em 2021 esta aumentou para 10,20% em S. Domingos de Benfica e 10,10%

no conjunto da cidade (figuras 10 e 11).

Identifica-se assim um reforço dos jovens, tanto na freguesia de São Domingos de Benfica, como na cidade de Lisboa, se bem que ligeiramente mais intenso na primeira.

Isto está em sintonia com a perceção dos entrevistados de que está a ocorrer algum

“rejuvenescimento” na freguesia, mais especificamente na Estrada de Benfica e nas envolventes, que pode ser explicado por alguns processos de gentrificação marginal protagonizados por jovens estudantes, nacionais e estrangeiros, que aqui se instalaram, e, eventualmente, por alguns regressos de jovens oriundos desta área que regressaram, ocupando agora a casa dos pais após o falecimento destes. Note-se que a perceção da presença de jovens é também acentuada pelos efeitos decorrentes das alterações recentes do espaço público e do aparecimento de estabelecimentos mais modernos que atraem pessoas mais jovens a utilizar esses espaços, alterando assim as práticas sociais públicas da freguesia. Ou seja, os entrevistados observam mais jovens na rua e a frequentar os estabelecimentos, não por o seu número ter aumentado muito na freguesia, mas por estes passarem mais tempo nos equipamentos requalificados nela existentes.

FIGURA 10,POPULAÇÃO RESIDENTE (%) POR GRUPO ETÁRIO, EM SÃO DOMINGOS DE BENFICA,CENSOS 2011 E

2021

79 FIGURA 11,POPULAÇÃO RESIDENTE (%) POR GRUPO ETÁRIO, EM LISBOA,CENSOS 2011 E 2021

A evolução dos níveis de ensino na freguesia é notória. Em 2011, a percentagem de população com ensino superior era 39,3% e em 2021 era de 48,5% (Fig. 12), um aumento significativo, pois quase metade da população da freguesia tem agora o ensino superior.

Efetivamente, ocorreu um maior aumento na população com ensino superior (3561 pessoas) na freguesia do que nos residentes totais. Isto pode ser indicativo de que tem havido uma saída de população menos instruída e uma chegada de população nova, infelizmente não há dados mais aprofundados sobre as trocas populacionais que possam estar a ocorrer na freguesia de S. Domingos de Benfica.

É necessário também referir que o aumento dos níveis de instrução é algo estrutural, com o falecimento dos cidadãos mais velhos e a substituição destes por jovens mais instruídos. Como podemos ver nos dados da cidade de Lisboa, mesmo com a perda de população na cidade, a percentagem de população com o ensino superior aumentou, passando de 27,40% para 38,60% no último período intercensitário (Fig.13).

Refira-se que, quer a ideia de um volume de população pertencente a classes médias-médias ou mesmo médias-médias-altas como significativo na freguesia, quer a perceção de que os residentes novos são essencialmente pessoas com uma boa formação académica parecem ser confirmadas pelos dados censitários comentados acima.

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A população com ensino secundário também aumentou passando de 16,80% em 2011, para 17,50% em 2021 (350 pessoas) (Fig. 12). Na cidade de Lisboa a percentagem de população com ensino secundário também cresceu, passando de 15,70% para 18,30%

(Fig. 13).

A percentagem de população com os níveis de ensino abaixo do secundário e pós-secundário tiveram uma diminuição de 2011 para 2021 tanto em S. Domingos de Benfica, como em Lisboa (Fig. 12 e 13). Isto poderá indicar desalojamento das populações menos instruídas, mas a componente explicativa mais forte deve corresponder a processos estruturais com componentes demográficas, designadamente a diminuição de população dos 0 aos 14 anos e o falecimento progressivo de idosos de gerações passadas, caraterizados por possuírem menores níveis de instrução.

Refira-se que as alterações nos níveis de instrução da população residente na freguesia de São Domingos de Benfica são semelhantes às observadas na cidade de Lisboa, o que leva a querer que esta evolução é acima de tudo algo estrutural que decorre do aumento significativo dos níveis de escolaridade da população associado ao falecimento dos mais idosos com menos ou nenhum nível de instrução formal. A fixação de alguns residentes novos mais instruídos estará também a contribuir para as alterações identificadas.

FIGURA 12,POPULAÇÃO RESIDENTE (%) POR NÍVEIS DE ENSINO, EM SÃO DOMINGOS DE BENFICA,CENSOS 2011 E

2021

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No que concerne à população residente por estado civil, verificou-se uma diminuição na percentagem de pessoas casadas que passaram de 40,90% em 2011, para 34,70%, em 2021, e, também, nos viúvos - evolução de 7,90% para 7, 40% no mesmo período.

Ao contrário, ocorreu um aumento nos solteiros, de 42,40% para 48,00%, verificando-se igualmente um acréscimo nos divorciados de 8,80% para 9,90% (Fig. 14). Na cidade de Lisboa, a evolução foi semelhante, tendo os casados passado de 37,60% para 31,90%, e os viúvos de 8,80% para 7,40%. Já os solteiros evoluíram de 45,60% para 51,60% e os divorciados de 8,00% para 9,20% (Fig. 15).

Refira-se que diminuição registada nas pessoas casadas residentes na freguesia vai contra a opinião recolhida nas entrevistas, que destaca a ideia de que os novos residentes são maioritariamente casados com filhos. Efetivamente, podem observar-se mais casais com filhos no espaço público da freguesia pelo motivo referido a propósito da presença dos jovens: os processos de reabilitação existentes qualificaram os espaços para as pessoas conviverem e passearem sem terem de sair da sua zona de residência.

FIGURA 13,POPULAÇÃO RESIDENTE (%) POR NÍVEIS DE ENSINO, EM LISBOA, CENSOS 2011 E 2021

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Tal como em outras variáveis, a evolução do estado civil da população residente na freguesia de São Domingos de Benfica e no conjunto da cidade de Lisboa, são semelhantes. Isto leva-nos a crer que apesar de poder haver alguns processos específicos relacionados com a chegada de novos residentes à freguesia e à substituição de pessoas nesta, esta evolução é acima de tudo estrutural, refletindo a redução dos casamentos que está a ter lugar na sociedade portuguesa e o aumento dos divórcios e das pessoas que mantêm a situação de “solteiros” (que casam mais tarde ou que, mesmo coabitando, não formalizam o matrimónio).

FIGURA 14,POPULAÇÃO RESIDENTE (%) POR ESTADO CIVIL EM SÃO DOMINGOS DE BENFICA,CENSOS 2011 E 2021

´

FIGURA 15,POPULAÇÃO RESIDENTE (%), POR ESTADO CIVIL, EM LISBOA,CENSOS 2011 E 2021

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4.3 Requalificação residencial, melhorias arquitetónicas e uma mudança