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PARTE I- O território de pesquisa e características do trabalho no comércio popular

3. O TRABALHO NO COMÉRCIO POPULAR: TRAJETÓRIAS E EXPERIÊNCIAS

3.4. Dinâmicas do trabalho no comércio popular

Como o foco do trabalho aqui desenvolvido são os comerciantes que trabalham nos espaços fechados, os “novos empreendedores” do comércio popular, apresentarei a seguir uma descrição da rotina de trabalho de Davi na Feirinha da Madrugada. Davi e eu nos conhecemos durante o período de pesquisa e, ao longo dos meses em que frequentei o Brás, estabelecemos uma relação de confiança e amizade. Consequentemente, foi a partir das conversas com ele que obtive os dados de pesquisa mais ricos e também foi seu cotidiano de trabalho que acompanhei mais sistematicamente.

Todos os dias, por voltas das 2h30 da manhã, Davi e sua esposa atravessam uma passarela sobre a linha férrea próxima à estação do Brás. Eles moram em um apartamento localizado a 15 minutos de caminhada até a Feirinha da Madrugada. Nesse horário, o caminho é quase deserto. No percurso, as primeiras pessoas que encontram são moradores de rua e usuários de drogas que ocupam as escadas da passarela e as margens da ferrovia diuturnamente. “Eu fico um pouco preocupado, fico esperto. Graças a Deus, em todo esse tempo, nunca me aconteceu nada”, ele relata.

Em geral, quando ele chega na Feirinha, os portões de entrada já estão abertos e alguns comerciantes já levantaram as portas de seus boxes. Davi e a esposa também começam a abertura do seu, em um ritual diário. Ele abre a porta de aço de enrolar que tranca o box. Dentro estão cuidadosamente encaixados os manequins, dois banquinhos, as roupas em cabides que deixa expostas do lado de fora, todo o estoque de mercadorias e um balcão com rodinhas, que é puxado alguns centímetros para fora do box, ganhando mais algum espaço interno. Davi vende exclusivamente roupa infantil masculina, principalmente calças jeans e bermudas, podendo eventualmente haver algumas peças de camisetas e jaquetas.

A geografia dos pontos comerciais na Feirinha é importante para o fluxo de vendas e impacta no valor de cada box. A posição do box de Davi é privilegiada por ficar em uma esquina, no encontro do fim de um dos corredores com uma via de circulação mais ampla, que divide dois blocos de boxes.

Ele e a esposa começam a preparar a exposição do box. Os quatro “manequins-criança” são posicionados na lateral do box em face à via de circulação larga. Nessa parede, ele

instalou também uma grade em que pendura algumas peças de roupas em cabides. Organiza então o balcão, dispondo com algum ordenamento o porta-canetas, a caixa de cartões de visita, a calculadora e o caderno onde faz a contabilidade diária da mercadoria que sai. Sempre que vendem alguma coisa, Davi ou a esposa, logo em seguida, registram no caderno o que foi vendido e o valor, mantendo razoável controle do caixa e do estoque – ao contrário da desordem geralmente associada a esse trabalho.

O ritual de abertura dos boxes é praticamente o mesmo entre os comerciantes, diferindo na estética e na organização dos balcões, na forma de exposição e volume do estoque. Os boxes que ficam no meio dos corredores, e por isso não contam com a lateral para a exposição das mercadorias, dispõem seus manequins em frente ao balcão e na parede de divisória com o box vizinho, sempre sob alguma negociação do espaço com os outros comerciantes. “Esse aí vive invadindo meu espaço, não fala nem ‘bom dia’, mas invade meu espaço”, reclama uma comerciante a respeito do colega ao lado. Quando há algum box fechado no corredor, a porta deste também se torna um espaço para exposição dos vizinhos.

Em um ambiente com tanta concorrência, a forma de apresentação da mercadoria também é fundamental para a visibilidade do box, que precisa atrair a atenção dos compradores como condição para a sobrevivência econômica do empreendimento. A quantidade de mercadoria no interior do box, por exemplo, é um diferencial importante. É quase senso comum entre os comerciantes que a ostentação de mercadoria atrai clientes, mesmo que a variedade de opções seja restrita. Um box “pobre”, por sua vez, tende a ser pouco atrativo. “Dá a impressão de que não vai ter o que você procura, ou de que a mercadoria não é boa”, explica uma comerciante. Nestes casos, em vez de a parede do fundo do box estar coberta pelo estoque, vê-se os blocos da construção. De fato, transmite uma sensação de decadência.

Davi não leva nada do box para casa, tudo o que precisa para o dia de trabalho está disposto ali. Outros comerciantes, porém, armazenam parte do estoque em suas residências. Ele confia na segurança proporcionada pelo espaço da Feirinha, e cujo financiamento está incluído no valor do TPU pago mensalmente pelos comerciantes, R$910 em 2017. Pelos seus cálculos, o box, de tamanho padrão com 3m², é capaz de armazenar R$200 mil em mercadorias, do tipo que ele comercializa. Durante todo o tempo em que acompanhei Davi ali, nunca vi seu box com menos da metade de sua lotação total. Após tudo organizado, ele espera a chegada dos compradores.

O movimento no comércio varia de acordo com os dias da semana. O dia mais intenso é na madrugada de segunda-feira para terça-feira, que é quando os compradores se abastecem para revender no resto da semana em suas cidades de origem. Nos dias em que fui ao Brás durante a noite, me dediquei mais à observação da dinâmica do trabalho e à interação informal com os comerciantes do que propriamente à realização de entrevistas, algo praticamente impossível, dado o movimento. O box de Davi era um dos mais movimentados do corredor, mas mesmo aqueles que não vendem tanto (ou não vendem nada no dia), estão empenhados em atrair clientes. O contraste de Davi, que com fala baixa e sem muito alarde ia fazendo suas vendas, era Cláudia, sua vizinha de box, que, mais extrovertida, tentava cativar algum comprador em potencial: “Olha, freguesa! Cores, tamanhos”.

Uma das condições para desempenhar bem esse trabalho é desenvolver a capacidade de atender várias pessoas simultaneamente, sobretudo na madrugada. Essa é uma habilidade que se aprende com o tempo, com a experiência.

[A maior dificuldade] é atender várias pessoas ao mesmo tempo. [...] passar o troco. Tem que separar o pedido; tinha um cliente que pedia; atendia celular; o cliente que estava chegando; cliente que já estava lá esperando; e passar troco. [...] Você aprende na cabeça, tipo as contas normais, “ah, deu tantas calças”. Você já sabe de cabeça, porque você já fez tantas vezes que você acaba nem usando a calculadora, né. [...] Você pega ali tantas calças, você já fala “tanto” para ela, e ela dá o dinheiro e você já dá o troco. (Davi)

No interior da Feirinha, ao longo da madrugada, além do movimento de compradores, também há a circulação de vendedores de água, doces, pães, bolos e café, que servem tanto aos compradores quanto aos comerciantes. Quando não estão atendendo os clientes, os comerciantes interagem uns com os outros ou ficam absortos com seus celulares. Com o dia clareando, aqueles que contam com alguém para ajudar no box podem aproveitar para cochilar alguns minutos; os que estão sozinhos não tem outra opção senão lutar contra o sono. O cansaço fica estampado no rosto de todos.

Pela manhã, o movimento diminui, visto que a maioria dos compradores já está se organizando para voltar aos ônibus. Mas considerável circulação de pessoas na Feirinha se arrasta até por volta do meio dia. Para o almoço, aqueles que não trouxeram comida de casa, recorrem às marmitas que são oferecidas ali por pessoas que passam com caixas de entrega nas costas ou malas de viagem, onde ficam empilhadas as caixinhas de alumínio. Também é possível ligar para os entregadores e pedir que levem a comida até o box. Os preços variam em média de R$7 a R$15.

Com a diminuição do movimento, a interação fica mais solta. Por muitas vezes fiquei horas jogando baralho com Davi, e seus vizinhos de box. Não raro, especialmente às sextas-feiras, tomavam cerveja ou cachaça nesses momentos, enquanto conversávamos sobre futebol, política, religião, aspectos de nossas vidas e, muitas vezes, sobre o trabalho na Feirinha e os boatos que corriam no Brás sobre intervenções públicas na região ou a dinâmica do comércio – principalmente quanto às diferenças no movimento de compradores entre os distintos espaços comerciais, situação dos shoppings populares, etc. As brincadeiras e os jogos aqui são também estratégias espontâneas para lidar com as longas jornadas de trabalho, naturalizando-as e “produzindo consentimento” (BURAWOY, 1982) acerca da responsabilidade em fazer o próprio ganho. Por outro lado,

inspirado na crítica de Clawson e Fantasia (1983) a Burawoy, acerca da simplificação do “jogo” (brincadeiras) no processo de trabalho apenas enquanto harmonização de interesses, percebo que é também nessas horas que os agentes colocam em perspectiva suas condições de vida, tanto reconhecendo satisfação numa forma de trabalho considerada por eles próprios como menos submissa frente a outras disponíveis, quanto mapeando as relações de poder que pouco a pouco constrangem suas rendas e alteram seus espaços de trabalho. Mais do que apenas momentos de descontração e lazer no trabalho, essas eram situações privilegiadas para a circulação de informações entre os comerciantes, em que eram tecidas críticas à ação do poder público e expressas as esperanças e receios quanto às ações dos administradores da Feirinha. Era também nas conversas e mesas de baralho que circulavam conhecimentos sobre novas oportunidades e se elaboravam conjuntamente avaliações sobre riscos nos investimentos.

Após o meio dia, muitos boxes começavam a fechar. Davi costumava permanecer até por volta das 14h. Observei-o fazer grandes vendas nesse horário, atendendo a comerciantes retardatários. Havia, contudo, certa precaução de alguns comerciantes, que evitavam permanecer abertos quando a maioria dos boxes do corredor estava fechada. O receio de que pudessem ocorrer assaltos nessas situações era presente.

Após encerrar a jornada de quase doze horas de trabalho na Feirinha, muitos ainda não vão direto para casa. Permanecem ocupados em negociações com os fornecedores ou vão ao banco depositar o dinheiro recebido no dia, lembrando que grande parte das transações é feita com dinheiro vivo. Os fabricantes, que não só comercializam como atuam na produção de suas próprias mercadorias, apesar de poderem atingir uma percentagem maior de lucro sobre cada peça, têm a jornada estendida, pois ainda precisam tratar da compra dos tecidos, entrega de materiais e negociações com os trabalhadores que são contratados para produzir efetivamente essas mercadorias.

Davi chega novamente em casa por volta das 15h. Segundo ele, descansa algumas horas, vai à academia e, no máximo, às 22h está dormindo para enfrentar o próximo dia de trabalho. A Feirinha não abre aos domingos, e neste dia muitos dos comerciantes dizem evitar lidar com questões do trabalho. O comércio ali também não funciona nos feriados e a Feirinha fecha durante as festas de fim de ano.