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Ao propor um debate em torno do processo comunicacional latino- americano que se desloque dos meios para as mediações29, Martín-Barbero (1997)

apresenta este último campo como aquele constituído por dispositivos que, utilizados pela hegemonia, são capazes de transformar o sentido prático e cotidiano dos sujeitos e das comunidades. É nesse sentido que, entre os anos 1930 e 1950, a comunicação de massas na América Latina, então representada pelo cinema e pelo rádio30, foi capaz de gerar a “transmutação da ideia política de Nação em vivência,

em sentimento e cotidianidade” (Martín-Barbero, 1997, p. 230, grifo do autor), permitindo aos moradores das mais diversas regiões do continente vivenciarem, em

29 Martín-Barbero (1997) propõe o pensamento em torno dos processos de comunicação a partir da cultura de onde provêm as construções e as configurações neles inseridas.

muitos casos pela primeira vez, o sentimento de unidade diretamente relacionada ao Estado nacional ao qual pertencia o território que estes habitavam.

Benedict Anderson (1983), a fim de buscar uma interpretação para o nacionalismo e discuti-lo a partir da noção de que este, assim como a nacionalidade, é um produto cultural específico, apresenta sua ideia de nação como uma comunidade imaginada como soberana e limitada. Para o autor, ela se caracteriza como tal pois ainda que na menor das nações, seus membros “no conecerán jamás a la mayoría de sus compatriotas, no los verán ni oirán siquiera hablar de ellos, pero en la mente de cada uno vive la imagen de su comunión” (Anderson, 1983, p. 23) . Anthony Smith e Rosamaría Núñez (1998), por sua vez, no artigo “Conmemorando a los muertos, inspirando a los vivos. Mapas, recuerdos y moralejas en la recreación de las identidades nacionales” discutem o nacionalismo sob seus aspectos étnicos e históricos enquanto necessariamente relacionado a um “nexo de ideas, sentimientos y experiencias” que atravessa gerações. De acordo com tal perspectiva o pertencimento à nação31 alcança os sentimentos dos indivíduos de uma determinada

comunidade, mas também essencialmente compõe a realidade destes sujeitos. Nessa direção, Alonso (1994, p. 382) assinala:

Hegemonic strategies, at once material and symbolic, produce the idea of the state while concretizing the imagined community of the nation by articulating spatial, bodily and temporal matrixes through everyday routines, rituals and policies of the state system. (ALONSO, 1984, p. 382).

Nesses termos, a autora discute o aspecto material de maneira complementar ao aspecto simbólico na conformação das identidades nacionais no espaço social como parte do desenvolvimento de estratégias hegemônicas que compõem esse processo. Baseada na proposição de Alonso (1994), ao discutir o conceito de “aboriginalidad”32, Kropff (2005) aponta para a dinâmica de inclusão e

exclusão presente na criação da matriz estado-nação-território no contexto argentino onde, para que haja um “nós” nacional, o indígena é necessariamente construído como um “outro interno”.

31 A definição de nação trazida no texto diz respeito a “una población humana denominada que ocupa un territorio histórico y comparte mitos y recuerdos, una colectividad, una cultura pública, una sola economía y derechos jurídicos y obligaciones comunes” (SMITH apud SMITH e NÚÑEZ, 1998, p. 62).

32 Conceito utilizado por Beckett (1988) e Briones (1998) (apud Briones 2002; Briones 2004; Kropff 2005) para identificar os sujeitos pertencentes às populações originárias, assim como distingui-los de outros grupos étnicos e raciais nas construções de alteridade nos Estados nacionais e coloniais.

Nessa perspectiva e indo ao encontro com tais apontamentos, Guiñazu e Marks (2013) salientam a presença de um discurso homogeneizador e barbarizador33 em torno dos povos originários durante a “Conquista del Desierto”

como parte de uma “misión civilizadora” (Delrio 2005 apud Guiñazu e Marks, 2013) promovida no período pelo Estado nacional argentino. Simultânea às operações militares realizadas para as expansões territoriais, tal construção narrativa ignorava as particularidades históricas dos povos ali presentes e, ao mesmo tempo, promovia seu distanciamento da comunidade nacional argentina. Dessa forma, “el indígena representaba, entonces, un ‘otro’ externo a la nación pero interno al territorio que el estado reclamaba como nacional” (DELRIO, 2005 apud GUIÑAZU e MARKS, 2013, p. 5).

A desumanização dos povos indígenas decorrente de uma elaboração simbólica e narrativa que os compreende como bárbaros ou selvagens, no entanto, antecede o processo específico argentino do final do século XIX. A esse respeito, Pagden (1988), ao discutir as transformações do significado do termo “bárbaro” ao longo do tempo, lembra que, no período de colonização da América, os observadores europeus consideravam sob esta denominação todos aqueles identificados como “alheios” à sua sociedade e à sua cultura através de métodos de classificação que levavam em conta características físicas e comportamentais. De acordo com o autor, o termo teve como função primária estabelecer uma hierarquia entre as sociedades, e seu significado transitou entre a ausência de civilidade e a desumanização de indivíduos que fossem estranhos culturalmente para os europeus.

Sobre esse mesmo aspecto, Viveiros de Castro (2015, p. 37), afirma que para os espanhóis havia uma descrença de que os “corpos dos outros contivessem uma alma formalmente semelhante às que habitavam os seus próprios corpos”. Essa assertiva reforça a ideia de que, a partir da perspectiva europeia, toda a cultura que não representasse o seu próprio povo se deslocava para outro “corpo” cultural e assumia um status de inferioridade.

Tais considerações se relacionam com os apontamentos de Jose Millánen Paillal (2006) acerca da subordinação e da centralização do poder

33 No sentido de transformar discursivamente os sujeitos em bárbaros ou selvagens. No texto de Guiñazu e Marks (2013) é utilizado o termo “salvajizar”.

enquanto elementos inerentes à sociedade ocidental. De acordo com o autor, através destes princípios são estabelecidos níveis de desenvolvimento cultural entre as sociedades, tendo em vista a civilização e o progresso como principais conceitos norteadores dos processos aos quais devem ser submetidos aqueles que se distanciam da cultura ocidental.

Acerca da relação entre construções simbólicas e narrativas e ocupações territoriais em um contexto de colonização, vale trazer as considerações de Boaventura de Sousa Santos (2009, p.29) a respeito da desumanização dos povos indígenas associada à incompreensão de suas práticas e perspectivas próprias:

A completa estranheza de tais práticas conduziu à própria negação da natureza humana dos seus agentes. Com base nas suas refinadas concepções de humanidade e de dignidade humana, os humanistas dos séculos XV e XVI chegaram à conclusão de que os selvagens eram sub- humanos. A questão era: os índios têm alma? Quando o Papa Paulo III respondeu afirmativamente na bula Sublimis Deus, de 1537, fê-lo concebendo a alma dos povos selvagens como um receptáculo vazio, uma

anima nullius, muito semelhante à terra nullius, o conceito de vazio jurídico

que justificou a invasão e ocupação dos territórios indígenas.

Nesses termos, é possível vislumbrar o esvaziamento simbólico das almas dos povos originários aliado ao esvaziamento físico de seus territórios. Nessa perspectiva, ao voltarmos nossa atenção ao processo da “Conquista del Desierto” realizada em Puelmapu, podemos afirmar que as construções narrativas formuladas a respeito dos povos originários ali presentes impulsionaram também sua negação e invisibilização (Guiñazu e Marks, 2013) estreitamente associadas ao esvaziamento territorial. Segundo Navarro Floria (2002), a própria utilização do termo “deserto” escolhido para designar o espaço a ser conquistado pelo Estado argentino teve como função primordial categorizar aquele território como vazio, a fim de promover a ideia de que eram terras ainda não utilizadas como deveriam de acordo com a perspectiva ocidental.

Além da negação por meio da invisibilização dos povos indígenas de

Wallmapu para a legitimação das ocupações militares na região, uma outra

construção narrativa utilizada na época se relacionava ao conceito de “araucanización de las pampas” (Cañuqueo et al, 2005). Empregado para sugerir a presença de indígenas “chilenos” em território “argentino”, o termo foi introduzido

através de produções intelectuais vinculadas a uma narrativa nacional que passou a construir os povos originários que ali habitavam sob uma condição alóctone. Segundo Briones (1999 apud Cañuqueo et al, 2005), tal construção narrativa tem sido utilizada ainda recentemente para deslegitimar as reivindicações territoriais mapuche.

2.2 PERSPECTIVAS, NARRATIVAS E MEMÓRIAS – TERRITÓRIOS DE