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Dinheiro como medida de valor e como meio de troca universal

CAPÍTULO 2. O CAPITAL FICTÍCIO E SUA PREDOMINÂNCIA NO CAPITALISMO MUNDIALIZADO: NOTAS PARA O SEU DESVENDAMENTO.

2.1 A mercadoria dinheiro na teoria do valor de Karl Mar

2.1.1 Dinheiro como medida de valor e como meio de troca universal

Como já mencionado, o dinheiro existe muito antes do modo de produção capitalista, e tem particularidades em cada estágio histórico. Ateremo-nos, por ora, às suas duas primeiras determinações citadas acima, as quais se desenvolveram anteriormente à terceira determinação: o dinheiro enquanto capital.

no tempo socialmente necessário de produção delas, mesmo que o valor individual, portanto o tempo de trabalho individual, não tenha mudado.

O dinheiro, em seu funcionamento como medida de valor, deve sempre corresponder a um quantum de uma matéria determinada, assim, adquire um nome (medida do valor) e um padrão de preços (quantidade de metais, por exemplo). O padrão de preço, ou seja, o dinheiro como medida universal dos valores, prescinde de uma forma física ou material para exercer a função de medida de valor. O dinheiro aparece apenas como dinheiro representado ou ideal.

Assim, cada uma das inúmeras mercadorias que se colocam no mercado relaciona-se com uma quantidade particular de ouro, estabelecendo uma equivalência entre os tempos de trabalho socialmente necessários à produção da mercadoria e do ouro. Fixadas essas equivalências através dos hábitos, uma determinada quantidade de ouro recebe um nome monetário que em geral é o nome padrão de medida física, uma unidade de peso. Dessa maneira, todas as mercadorias passam a expressar o seu valor através das unidades monetárias, unidades de certo volume de ouro, que se constituem, assim, em um padrão de preços. (NAKATANI; GOMES, 2011, p. 108).

“[...] em sua determinação como medida, em que o dinheiro só é usado idealmente, a sua substância material é essencial, embora sua quantidade e sua existência sejam absolutamente indiferentes” (MARX, 2011, p. 158), mas na sua segunda determinação, como meio de troca, o quantum determinado de ouro e de prata, ou seja, seu substrato material, não é relevante, porque ele é apenas signo, desde que ele expresse um quantum determinado de sua unidade. Interessa, portanto, a quantidade desse signo que é representado na forma de dinheiro, de forma que o dinheiro simbólico pode substituir o dinheiro real.

Segue-se daí que o dinheiro, como ouro e prata, na condição exclusiva de meio de circulação, meio de troca, pode ser substituído por qualquer outro signo que expresse um quantum determinado de sua unidade e, dessa maneira, o dinheiro simbólico pode substituir o dinheiro real, porque o próprio dinheiro material, como simples meio de troca, é simbólico. (MARX, 2011, p. 158).

Assim se explica a existência do papel moeda88 como signo de ouro ou signo de dinheiro. Os papéis moeda são os valores mercantis expressos idealmente, representantes de quantidades de ouro, as quais, por conseguinte, expressam também quantidades de valor. Portanto, o papel moeda é signo de valor (MARX, 1983, p. 109).

Até então Marx não está se referindo ao mercado capitalista plenamente desenvolvido. Aqui o dinheiro aparece diante do processo de circulação simples, no ciclo M-D-M (Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria). O dinheiro não é outra coisa, na sua segunda determinação, que meio de circulação. O objetivo aqui é atender às necessidades pessoais, a mercadoria é o fim e o dinheiro é o meio de conseguir a mercadoria.

O dinheiro é um valor de troca universal e ao mesmo tempo um valor de troca particular: é instrumento de dominação, de exploração e de reificação das relações humanas (SABADINI, 2008, p. 33). O dinheiro enquanto meio de troca universal, representante geral da riqueza material, aparece como ilimitado, pois pode ser trocado por qualquer mercadoria. Entretanto, toda soma efetiva de dinheiro é quantitativamente limitada, sendo, dessa forma, meio de compra de eficácia limitada. Essa contradição entre a limitação quantitativa e o caráter qualitativamente ilimitado do dinheiro impulsiona o entesouramento (MARX, 1983, p. 113).

O entesourador é aquele que boicota os próprios prazeres em nome do fetiche do ouro, porque entesourar significa impedir o dinheiro de circular, de modo a fazê-lo perder sua função de meio de compra. O entesourador “abraça com seriedade o evangelho da abstenção” (MARX, 1983, p. 113). Entretanto, ele tem uma função social, que é a de escoar dinheiro ou de criar fundos de reserva diante das constantes oscilações da circulação das mercadorias.

Como já apontamos, com o desenvolvimento da produção e, portanto, da forma valor, ocorre uma separação espacial e temporal entre compra e venda (M-D e D-M). Surgem, assim, duas figuras: o devedor e o credor. Em que medida isso ocorre? Na medida em que se compra uma mercadoria antes de pagá-la. O dinheiro assume, então, uma nova função: torna-se meio de pagamento (MARX, 1983, p. 114).

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É importante assinalar que dinheiro e moeda não são sinônimos para Marx. Moeda é dinheiro, porém o inverso não é verdadeiro. Dinheiro é uma categoria teórica e geral, enquanto a moeda é o dinheiro de uma nação, que recebe um nome e uma figura material (NAKATANI; GOMES, 2011).

O credor e o devedor se originam antes do desenvolvimento pleno do modo de produção capitalista, na circulação simples89. Mas na circulação de mercadorias é que se desenvolvem as condições da separação temporal entre a alienação da mercadoria e a realização de seu preço.

Retomando que o dinheiro, na circulação de mercadorias, funciona como medida de valor na determinação do preço da mercadoria a ser vendida, a qual, contratualmente, estabelece a obrigação do comprador em soma de dinheiro. Funciona também como meio de compra, na medida em que é meio de troca universal, mas constitui um compromisso monetário determinado em relações individuais, o que faz com que as mercadorias mudem de mãos. O que aparece de novidade na função do dinheiro como meio de pagamento é que existe um prazo para que o dinheiro chegue às mãos do vendedor, que não necessariamente coincide com o prazo para que o vendedor repasse a mercadoria ao comprador. Apenas ao vencer o prazo estipulado é que o meio de pagamento entra na circulação, ou seja, passa das mãos do comprador para as do vendedor. Destarte, só entra na circulação depois que a mercadoria já saiu dela. “A figura de valor da mercadoria, dinheiro, torna-se, portanto, agora um fim em si da venda, em virtude de uma necessidade social que se origina das condições do próprio processo de circulação” (MARX, 1983, p. 115).

Aqui o tesouro ganha relevância, porque o meio circulante converte-se em tesouro enquanto a mercadoria já saiu de circulação e o meio de pagamento não entrou. O que existe antes do meio de pagamento entrar na circulação é apenas um título de crédito de direito privado.

É, portanto, da figura do meio de pagamento que surge o dinheiro de crédito, já que são colocados em circulação os próprios certificados de dívidas por mercadorias vendidas no lugar do dinheiro. Isso se acirra com a formação do mercado mundial, portanto, do dinheiro mundial.

O dinheiro mundial funciona como meio geral de pagamento. Daí a relevância dos fundos de reserva para a circulação do mercado mundial, onde a mercadoria monetária

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Oliveira (2009, p. 9) explica que na circulação simples, a moderna sociedade burguesa está apenas pressuposta. O capitalismo, nela, aparece na sua forma “epidérmica”. Segundo ele, “a moderna sociedade burguesa está pressuposta mesmo quando abstrai-se dela determinações fundamentais, como ocorre na circulação simples”.

efetiva era sempre o ouro e a prata. “As funções dos tesouros surgem, assim, em parte da função do dinheiro como meio interno de pagamento ou de circulação, em parte de sua função como dinheiro mundial90” (MARX, 1983, p. 120). São as nações mais poderosas que acabam tendo suas moedas escolhidas ou impostas como dinheiro mundial (NAKATANI; GOMES, 2011, p. 116).

O dinheiro passa a funcionar plenamente como mercadoria, cujas contradições se acirram em momentos de crises comerciais e de produção. Quando há perturbação na cadeia de pagamentos, o dinheiro torna-se muito mais desejoso que a mercadoria, o valor de uso das mercadorias subitamente desaparece, somente o dinheiro é mercadoria. A essa crise, Marx (1983) denomina crise monetária. E aí não importa a forma que o dinheiro assume.

Na crise, a antítese entre a mercadoria e sua figura de valor, o dinheiro, é elevada a uma contradição absoluta. A forma de manifestação do dinheiro é aqui portanto também indiferente. A fome de dinheiro é a mesma, quer se tenha de pagar em ouro ou em dinheiro de crédito, em notas de banco, por exemplo. (MARX, 1983, p. 116).

Todo esse desenvolvimento da forma valor, da circulação de mercadorias e da forma dinheiro são alicerces para a compreensão da forma fictícia do capital, cuja explicação será desenvolvida adiante.

Seguimos neste momento para a análise do dinheiro como capital, a terceira determinação do dinheiro na análise de Karl Marx.