• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – Valorização do Espaço Urbano do município de Varginha (1882-

3.5. Concentração fundiária e êxodo rural

4.1.6. Dinheiro, Dívidas Ativas e Dívidas Passivas

Pela observação da tabela 4.2., podemos notar que, com o passar do tempo, os investimentos em dinheiro, em dívidas ativas e em dívidas passivas aumentaram.

Segundo Luciana Suarez Lopes, a categoria de dinheiro referia-se ao arrolamento de algum bem do espólio para manutenção da família do falecido, enquanto o processo de inventário estava acontecendo; ou dizia respeito a bens que, por serem perecíveis, poderiam deteriorar-se, caso os envolvidos esperassem a conclusão do inventário para vendê-los432.

Jesus estava Marianna Clara de Gouvêa, a baronesa de Lavras, que foi inventariante de seu marido, o barão de Lavras (João Alves de Gouvêa) em 1889.

428 Inventário de Joana Maria de Jesus, 1883, AJCV, informações não identificadas. 429

Como nossa pesquisa inicia-se no ano de 1882, o inventário de Joanna Silveria da Motta não foi contabilizado no total de documentos. Entretanto, o destacamos no tópico sobre escravos pelo fato de a inventariada possuir escravos e seus preços serem relevantes.

430 Inventário de Joanna Silveria da Motta, 1880, AJCV, cx. 724, doc. nº 01. 431

Sobre detalhes da localização dos processos de inventários que possuíam escravos (processos dispostos de acordo com a data de início do inventário dos bens):

Joanna Silveria da Motta, 1880, AJCV, cx. 724, doc. nº 01. Maria das Dores de Jesus, 1882, AJCV, cx. 528, doc. nº 06. José Ferreira Ribeiro, 1882, AJCV, cx. 541, doc. nº 09. Gabriel José Junqueira, 1883, AJCV, cx. 508, doc. nº 03. Sebastião Rodrigues da Silva, 1883, AJCV, cx. 620, doc. nº 01. Joana Maria de Jesus, 1883, AJCV, informações não identificadas. Maria das Dores Meirelles, 1884, AJCV, cx. 528, doc. nº 07. Maria das Dores de Britto,1884, AJCV, cx. 529, doc. nº 08. Francisco de Paula Dias, 1885, AJCV, cx. 472, doc. nº 06. Manoel Paulino de Almeida, 1885, AJCV, cx. 599, doc. nº 07. Lino José Ribeiro, 1885, AJCV, cx. 600, doc. nº 06.

Domingos Pinto Ribeiro, 1886, AJCV, cx. 600, doc. nº 02. Silvério José Cabral, 1886, AJCV, cx. 620, doc. nº 02. Manoel Cardoso da Silva, 1887, AJCV, cx. 599, doc. nº 08. Prudenciana Maxima do Carmo, 1887, AJCV, cx. 607, doc. nº 03. 432

LOPES, Luciana Suarez. Sob os olhos de São Sebastião. A cafeicultura e as mutações da riqueza em Ribeirão

Preto 1849-1900. 2005. Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

As dívidas ativas passaram por considerável aumento da primeira para a segunda década de formação de Varginha, e depois mantiveram-se com valores de investimento altos, comparados com a primeira década. As dívidas passivas também passaram por considerável ampliação de investimento, comparando com a primeira década de emancipação de Varginha.

Na primeira década de formação do município, vimos que havia 15 documentos com escravos, quase a metade de inventários que a década possuía. Nos inventários que continham escravos, o investimento estava voltado, sobretudo, para escravos, bens imóveis rurais, animais e bens móveis. Havia pouca diversificação do monte-mor daqueles inventariados em imóveis urbanos, dinheiro e dívidas ativas e passivas.

Na segunda década de formação de Varginha, quando não havia mais a categoria de escravos presente nos inventários, notamos aumento do investimento em dívidas ativas e passivas e em dinheiro, bem como dos bens imóveis urbanos, acompanhada de queda nos imóveis rurais.

O fim da escravidão foi uma importante mudança para a sociedade brasileira como um todo. Sem os escravos para o sustento das fazendas, pode ser sim que os possuidores de escravos passaram, aos poucos, a investir em dinheiro (também guardando dinheiro em casa e nos bancos), em dívidas e em imóveis urbanos. Escravo era um ativo caro.

Nas dívidas ativas encontramos algumas diferenciações. No caso de comerciantes, geralmente as dívidas ativas eram referentes ao estabelecimento comercial, como pode ser visto no inventário de Escolástica Emília de Carvalho, de 1890. A inventariada possuía o fundo de um negócio de secos e molhados, no valor de 8:102$060. No espólio de bens, havia 441 dívidas ativas e 29 dívidas passivas. O valor total das dívidas ativas era de 19:832$241 e o das dívidas passivas era de 8:700$801. Pela quantidade de dívidas ativas e pelos seus valores, nossa conclusão é a de que todas elas sejam referentes aos bens comercializados no negócio de Escolástica e de seu marido, José Antônio da Silveira Bragança. As dívidas ativas do casal iam de valores de $500 até 305$000. Das dívidas passivas, o valor de 6:699$427 do total era referente a compras feitas em casas comerciais do Rio de Janeiro.

Dos bens do casal comerciante, as dívidas ativas representavam a maior parte da riqueza, pois cerca de 60% do monte-mor era formado pelas dívidas ativas. Em bens móveis, incluindo-se o fundo do comércio, o valor do investimento era de 29% do monte-mor. Em animais investia-se cerca de 1%, em imóveis rurais o investimento nem chegava a 1% (era a

parte de um pasto no campo) e em imóveis urbanos o investimento era de aproximadamente 10%, referente a uma casa de morada433.

Havia documentos em que as dívidas ativas eram apólices da dívida pública, como era o caso de Gabriel dos Reis Silva, falecido em 1902. Declarou o inventariante, filho do falecido, Gabriel dos Reis Silva Júnior, que as dívidas ativas de seu pai eram compostas de 65 apólices da dívida pública, no valor nominal de 1:000$000 cada. O inventário era de 31 de março de 1902 e as apólices, com juros, valeriam 66:137$500 até o dia 07 de maio de 1902. Ainda, havia uma apólice da dívida pública no valor nominal de 500$000 que, com juros até 07 de maio de 1902, valeria 508$750.

Do monte-mor de Gabriel dos Reis Silva, 83% estava investido em dívidas ativas, cerca de 4% em imóveis urbanos, e aproximadamente 6,5% em bens móveis e 6,5% em animais. As dívidas passivas eram de 5:000$000434.

As dívidas ativas poderiam também ser ações de empresas. No processo de inventário do barão de Lavras – membro da elite agrária varginhense e que esteve presente na primeira reunião de vereadores da Câmara Municipal de Varginha – de suas dívidas ativas, somadas em 106:475$925, um valor de 6:000$000 era referente a 30 ações da Companhia de Fiação de Tecidos União Lavrense e 700$000 eram referentes a 3 ações da Companhia Pastoril Mineira. O falecido não possuía dívidas passivas.

Todavia, o monte-mor do barão foi investido de forma bem variada: o investimento em dívidas ativas era de aproximadamente 28% do monte-mor; em dinheiro, o valor correspondia a 1%; em imóveis urbanos foi investido cerca de 4%; em imóveis rurais, cerca de 45% da riqueza; em animais, quase 6%; em bens móveis, aproximadamente 5,5%; e, em culturas o investimento era de aproximadamente 10,5%. Da alocação de riqueza em culturas, no valor de 39:011$000, era direcionado para o café 32:315$000, ou seja, cerca de 83% do valor das culturas; a maioria do café estava na terra, em alqueires, e 5:500$000 era correspondente a 1.100 arrobas de café em coco.

Observando a tabela 4.2., constatamos que os investimentos sempre foram maiores para as dívidas ativas do que para as dívidas passivas. Entretanto, em alguns documentos, o valor das dívidas passivas era bastante alto em comparação ao valor do monte-mor. No inventário de Gabriel Antônio de Almeida, falecido em 1887, o valor das dívidas passivas era de 12:420$000, sendo o valor do monte-mor de 19:984$000435.

433

Inventário de Escolástica Emília de Carvalho, 1890, AJCV, cx. 473, doc. nº 04. 434 Inventário de Gabriel dos Reis Silva, 1902, AJCV, cx. 508, doc. nº 09.

No processo de inventário de Aleixo Ribeiro Mendes, falecido em 1909, o valor do monte-mor era de 4:404$000, sendo o de dívidas passivas de 2:990$000. Dentre as dívidas, estavam como credores a Fazenda Pública Estadual e a Secretaria das Finanças de Minas Gerais, com os impostos de aguardente e de indústria e profissões436.

Se nesta primeira seção nós desenvolvemos uma análise das categorias de bens presentes nos inventários post-mortem, destacando, em alguns casos, os inventariados que possuíam determinados bens, na seção abaixo vamos tecer considerações acerca da elite agrária do município, ou seja, do conjunto de 275 inventários, vamos observar a estrutura de riqueza dos moradores mais ricos da localidade, para averiguar as diferenciações em relação ao total da amostra.