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3 METODOLOGIA

4.2 As Perspectivas de Comando da Polícia Militar de Santa Catarina e as

4.2.3 Impactos das Políticas e Estratégias de Comando da Polícia

4.2.3.6 Direcionamento do CFO ao Bacharelado em Direito

As modificações curriculares no CFO, motivadas pela abertura do ensino policial às universidades mediante intercâmbios e convênios, e o cenário nacional, direcionaram o foco do ensino para outras áreas que não a militar ou policial. Se em determinado período a desmilitarização do ensino direcionou o currículo do CFO às atividades de Segurança Pública em detrimento da Segurança Interna, em outro, por conseqüência, aumentou o número e a carga horária das disciplinas das Áreas de Ciências Humanas e Sociais, Administração e Jurídica, integrando a Área de Ensino Fundamental. Tal fato fez com que a carga horária da Área de Ensino Fundamental suplantasse em número, as do Ensino Profissional que é constituída por disciplinas voltadas ao exercícios das atividades policiais operacionais.

Esta Política e Estratégia de Comando voltada ao CFO, tem gerado questionamentos no Corpo de Oficiais, com adesões e manifestações contrárias, conforme pode ser observado na opinião de um dos entrevistados:

[...] minha geração teve um pouco de abandono da parte militar no ensino, com um privilegiamento da área de ciências Jurídicas. O currículo mudou a partir do 1º Ano (92) com o ingresso das Faculdades, alterando substancialmente o currículo do curso, dando- se muita, mas muita importância mesmo, as matérias da área jurídica [...].

O Comando da Polícia Militar, na década de 80, em sua Política, manifestava o entendimento da necessidade do Oficial de Polícia ser um profundo conhecedor da área jurídica, para o exercício de suas atividades. Face a este pressuposto, definiu a política de adequação das disciplinas do CFO às do Curso de Direito da UFSC, quanto à denominação e créditos. Tal fato veio a permitir que Oficiais concluintes do CFO, ante a vagas disponíveis nas instituições de ensino

superior, viessem a ser matriculados na sexta fase do Curso de Direito, sem prestarem os exames vestibulares. Em resumo, havia um Curso de Direito embutido no CFO, até a sexta fase. Naturalmente, havia um direcionamento, indireto, dos oficiais, após a conclusão do CFO, à realização do Curso de Direito, validando as disciplinas já realizadas em sua formação.

Sobre este fato assim se manifesta um dos entrevistados:

[...] O apoio dado a Área Jurídica foi uma deformidade, um vislumbre, dada como necessária e ideal, deixando de lado as áreas das ciências sociais e área policial, muito mais importantes. Esta situação continua até hoje em meu entender. Os alunos entendem que a Academia é a ante-sala do Curso de Direito a ser concluído futuramente em uma Faculdade, seja pública ou privada e que o Oficial precisa necessariamente, ser Bacharel em Direito, para ser elevado simultaneamente ao estatus de Delegado de Polícia [...].

Se por um lado havia uma ênfase nas ciências jurídicas, outra área de ensino importante ao exercício da função do oficial era colocada em xeque, a das Ciências da Administração, que na década de 90, foi literalmente banida do currículo do CFO, para dar lugar as de Ciências Jurídicas.

Esta situação pode ser percebida no depoimento do entrevistado abaixo:

[...] As ciências da Administração também ficaram relegadas a um segundo plano. Os oficiais em suas atividades administrativas de comando, prescindem de conhecimentos administrativos para a validação de seus atos e gestão dos recurso humanos, financeiros e logísticos a sua disposição. Os ensinamentos no entanto, eram muito superficiais e não permitiam uma vivência de suas práticas. Por outro lado, cometia-se o absurdo de colocar um tenente recém- formado, sem experiência operacional anterior em um batalhão da PM, a comandar um Pelotão em um município do Estado. Seríssimo candidato a inquérito administrativo, por inoperância operacional [...].

Com a edição da Constituição de 1988 e a participação da UNIVALI na realização integral do CFO, via processo licitatório, cresceu a tendência das

disciplinas curriculares centradas na preservação dos direitos humanos, e com ela, a idéia de que o oficial de polícia militar devesse ser também Bacharel em Direito, a exemplo dos Delegados de Polícia. Buscou-se o fortalecimentos desta intenção, tendo por referência outras Corporações Militares que estavam implantando este novo conceito de formação de oficial, entre elas a Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

A partir de 2000, estudos chegaram a ser feitos para que o ingresso no CFO, fosse franquiado aos Bacharéis em Direito, via concurso, conforme demonstra o depoimento de um dos entrevistados abaixo:

[...] Com relação a modificação dos procedimentos para ingresso no CFO, estabelecendo a exigência do Bacharelado em Direito, esta situação realmente existiu, e nós chegamos a trabalhar efetivamente com esta hipótese, durante 03 (três) anos, enquanto observávamos esta experiência em outras corporações, por se tratar de uma mudança radical e traumática. Exposição de motivo que autorizava este procedimento chegou até a DIE, com a observação do governo do estado que autorizava esse procedimento, fazendo menção de que devesse também nesse momento se começar o processo de integração das polícias. A alta cúpula da Polícia Militar reunida, decidiu abandonar esta alteração para ingresso no CFO, permanecendo a sistemática anterior [...].

Outras reações podem ser percebidas, nos depoimentos dos entrevistados abaixo, contrários a efetivação desta política de comando:

[...] Quanto ao requisito do nível superior, Bacharel em Direito para ingresso no CFO, acredita ser uma “macaquice” . E uma cópia do modelo adotado pela Brigada Militar, que não deu certo, que já estão arrependidos e buscando alternativas de solução, pelos inúmeros problemas trazidos. Aqui há um considerável número de oficiais defendendo esta idéia, a qual sou totalmente contra. Tome-se por exemplo os oficiais do quadro de saúde, que não “vestem a camisa”, preferem ser chamados de doutor do que pelo posto. As pessoas que viriam para o ingresso no CFO, quem seriam? Os melhores já concursados e aprovados na magistratura, no ministério público? Ou, aqueles que ainda não obtveram uma classificação no mercado de trabalho. E quanto a formação nos padrões exigidos pela

corporação, acredito que passaram da idade para a sua assimilação e adesão [...].

[...] Havia uma proposta muito personalística, no meu entender, de um comandante que queria estabelecer como pré requisito para ingresso no CFO, ser possuidor do título de bacharel em direito. O CFO nesta proposta, teria a duração de até 02 anos e visava equiparar funcionalmente os oficiais aos Delegados de Polícia. Esta proposta chegou a ser muito debatida e contestada pelos oficiais, sendo que particularmente falei ao comandante que ele estaria assinando a extinção da instituição Polícia Militar. Esta intenção felizmente não vingou [...].

Como ficou evidenciado nos depoimentos, a equiparação dos oficiais ao status de Delegados de Polícia, via exigência do ingresso de Bacharéis em Direito no CFO, face a fortes resistências internas, deixou de ser idealizada, retirando o Comando Geral da época, a implantação desta Política.

A idealização das Políticas e Estratégias de Comando direcionadas à Gestão Acadêmica do CFO deixa evidente um discussão centrada no futuro papel do cadete, quando oficial: ser o comandante de fração, ser o gestor da coisa pública ou ser o policial. Permeando esta discussão, a transformação do CFO em Bacharelado em Segurança Pública teve em vista certos objetivos estratégicos, qual seja, o primeiro deles, uma adaptação aos novos tempos dando ao oficial uma titulação adequada com o qual pudesse se apresentar a sociedade como um graduado. A segunda questão faz menção a questão salarial, buscando-se uma equiparação com os Delegados de Polícia, também bacharéis e terceiro seria a necessidade de se fazer uma licitação, para que uma universidade se instalasse no Centro de Ensino para desenvolver este bacharelado, que é mais ou menos o Curso de Direito até a sétima fase , acrescido das matérias policiais.