O Direito Urbanístico possui grande importância na tutela do meio
ambiente, sobretudo em seu aspecto urbano. Esse ramo do direito possui grande
relevância no enfrentamento das questões ambientais que afetam as cidades.
Um dos grandes problemas encontrados nos ambientes urbanos das cidades é o
crescendo número de animais não humanos em situação de rua. Esses animais
não humanos permanecem à sombra do direito, de seus guardiões e do poder
público que nada fazem para mudar essa situação caótica e aparentemente
invisível.
3.1 – O DIREITO URBANÍSTICO E A TUTELA DO MEIO AMBIENTE URBANO.
O Direito Urbanístico e o Direito Ambiental são disciplinas relativamente
novas no território brasileiro
55. O primeiro estuda principalmente o planejamento
urbanístico e o segundo estuda os impactos ambientais existentes no
zoneamento ambiental.
O autor José Afonso da Silva, estudioso na área, diferencia as duas
disciplinas e considera as normas de Direito Urbanístico:
―as que tenham por objeto disciplinar o planejamento urbano, o
uso e ocupação do solo urbano, as áreas de interesse especial
(como a execução das urbanificações, o disciplinamento dos
bens urbanísticos naturais e culturais), a ordenação urbanística
da atividade edilícia e a utilização dos instrumentos de
intervenção urbanística‖ (SILVA, 1995, p. 32).
Nesse mesmo sentido continua a doutrina ―um conjunto de medidas
estatais destinadas a organizar os espaços habitáveis, de modo a propiciar
melhores condições de vida ao homem na comunidade" (MEIRELLES, 2007, p.
511). Basicamente o Direito Urbanístico busca organizar os espaços habitáveis
para, desta feita, disponibilizar melhores condições de vida ao homem e sua
comunidade
56.
Sobre o Direito Ambiental, José Afonso da Silva demonstra que este
ramo do direito ―consiste no conjunto de normas jurídicas disciplinadoras da
proteção da qualidade do meio ambiente‖ (SILVA, 1995, p. 42).
55
Como não é a proposta do presente trabalho monográfico uma avaliação histórica do Direito Urbanístico, sugere-se a leitura da obra Direito Urbanístico de José Afonso da Silva (1995) que apresenta um breve histórico do Direito Urbanístico. Nesse ponto cabe destacar que já havia um ―gérmen‖ de Direito Urbanístico desde o século XVII, com as Ordenações Filipinas. A afirmação de que o Direito Urbanístico é relativamente novo, dá-se pela razão que desde a CRFB/88 sua interpretação e aplicação ganhou status constitucional e uma vertente mais humanística e sustentável.
56
Para uma leitura aprofundada do conceito desse ramo jurídico sugere-se a leitura de Rodrigues (2007)
Por mais que os ramos do direito sejam diferentes
57, ambos se
complementam e buscam administrar os impactos ao meio ambiente para
propiciar o bem estar humano. Neste sentido, afirma João Roberto Salazar
Junior:
―Como se vê, a despeito da absoluta distinção do objeto imediato
da tutela jurídica das normas de Direito Urbanístico e de Direito
Ambiental, verifica-se perfeita comunhão quanto à finalidade
mediata de ambas as disciplinas, consistente na melhoria da
qualidade de vida do ser humano‖ (SALAZAR JUNIOR, 2007, p.
168).
A partir da análise do artigo 225 da Constituição Federal de 1988,
observa-se que o termo ―qualidade de vida‖ está diretamente atrelado à proteção
ambiental. Desta feita, compreende-se que o Direito Urbanístico ao buscar a
qualidade de vida dos seres humanos, está diretamente vinculado à necessidade
de tutela do meio ambiente.
José Afonso da Silva, em sua obra denominada ―Direito Ambiental
Constitucional‖ trata sobre o estreito vínculo entre a atividade urbanística e a
necessidade de proteção ao ambiente, conforme se observa:
―Em suma, o que se está vendo é que a atividade urbanística tem
um sério compromisso com a preservação do meio ambiente
natural e cultural, buscando assegurar, de um lado, condições de
vida respirável e, de outro lado, a sobrevivência de legados
históricos e artísticos e a salvaguarda de belezas naturais e
paisagísticas de deleite do homem. Ao inverso, em certos casos a
ação urbanística incide em áreas envelhecidas e deterioradas,
procurando renová-las com o mesmo objetivo de criar condições
para o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e a
garantia do bem estar de seus habitantes‖ (SILVA 1, 1995, p.
153).
Após os conceitos demonstrados e discutidos, insta ressaltar que o
Direito Ambiental também envolve a proteção e conservação da fauna. Sendo
animais domésticos merecedores da tutela do Direito Ambiental, entende-se que
o Direito Urbanístico deverá estender seu poder de atuação sobre esses seres.
Encontrar um animal doméstico em uma cidade não é uma atividade
difícil. Desde os municípios aos maiores centros urbanos encontram-se
residências com um ou mais animais domésticos. Em contrapartida, não se torna
57 Sugere-se a leitura da obra de Édis Milaré ―Direito do Ambiente‖, como obra de referência sobre
os estudos de Direito Ambiental. Conforme o autor: ―o reconhecimento do direito a um meio ambiente sadio configura-se, na verdade, como extensão do direito à vida, quem sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos, quer quanto ao aspecto da dignidade dessa existência – a qualidade de vida -, que faz com que valha a pena viver‖ (2009, p.818)
difícil encontrar animais domésticos em situação de rua. Na mais remota cidade,
poder-se-á observar que existem cães e gatos abandonados que vivem à mercê
de sua própria sorte, caminhando por entre os carros e pessoas, como se
invisíveis fossem.
O crescente número de animais domésticos em situação de rua traz
graves consequências aos centros urbanos, à saúde pública e ao equilíbrio
ambiental. Tais problemas são graves, mas, possuem uma ―capa de
invisibilidade‖ que impede que a população e Poder Público os enxerguem e os
revertam.
Para a reversão e controle deste contratempo é necessário que os ramos
do Direito se aliem principalmente o Direito Ambiental e o Direito Urbanístico.
Desta maneira é possível a aplicação da proteção ao meio ambiente associada à
garantia da qualidade de vida dos seres humanos.
3.2 – A GUARDA IRRESPONSÁVEL E O ABANDONO ANIMAL.
A Constituição brasileira de 1988 pretende, através do texto normativo
descrito em seu artigo seu artigo 225, §1, VII, englobar a fauna e flora ao
conceito de ―meio ambiente‖, atribuindo-lhe proteção, conforme lê-se:
―Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade
o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações. § 1º Para assegurar a efetividade desse direito,
incumbe ao Poder Público: VII - proteger a fauna e a flora,
vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco
sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou
submetam os animais a crueldade‖ (grifo nosso).
Quando se trata de ―crime contra a natureza‖, tem-se aberto um grande
leque de possibilidades para a discussão. Da mesma forma ocorre quando se
trata de ―crime contra a fauna‖, vez que, o Brasil possui uma rica diversidade de
animais em seu território.
Neste momento, faz-se necessário dar atenção ao fato de que os animais
não humanos domesticados encontram-se no rol de animais que devem ser
protegidos.
O fato de estarem em convivência direta com o homem não elimina a
necessidade de tutela quanto a eles, pelo contrário: muitos animais domésticos
estão sujeitos à guarda irresponsável de seus donos.
Sobre o termo ―guarda responsável‖ é preferível utilizar ―guarda‖ em
detrimento de ―posse‖, visto que, ―é razoável deduzir que a vida, por sua própria
natureza, não pode ser sujeita à apropriação, à posse‖, segundo Silva (2012, p.
4).
O crescimento de casos envolvendo animais domésticos dá-se pelo
aumento da urbanização da sociedade. Os animais humanos permanecem cada
vez mais isolados em seus próprios lares (muitos transformam os lares em
verdadeiras fortalezas), e este fato ocasiona em uma maior proximidade com os
animais domésticos. Em casos não muito raros, pode-se observar que o animal
doméstico é compreendido como verdadeiro membro da família.
No entanto, nem sempre o relacionamento entre o guardião e o animal
doméstico é mantido de maneira consentânea, conforme expressa Carlos
Eduardo de Miranda Silva, in verbis:
―ocorre que esse relacionamento entre pessoas e animais nem
sempre é mantido de forma correta, sendo de fácil observação,
no cotidiano, arbitrariedades que as pessoas praticam,
arbitrariedades essas que aniquilam a dignidade dos seus
animais, ao promover toda a sorte de abusos, maus tratos e
crueldade, chegando a casos complexos, que ocorrem quando os
donos adestram seus animais para se tornarem violentos ou,
mais indigno, ainda, quando os abandonam, transformando-os
em vítimas inocentes e vetores de doenças, afetando, além da
dignidade do animal, a saúde pública‖ (SILVA, 2012, p. 4).
Conforme expresso pelo autor tem-se que o ato de abandono é um ato
que afronta a dignidade do animal não humano e que ocasiona crueldade ao
animal, bem como o transforma em vetor propício para inúmeras doenças
(zoonoses).
Infelizmente, esse assunto é pouco tratado no âmbito do Direito
Ambiental, contrastando com a quantidade assustadora de demandas que
necessitam da tutela do direito e não possuem.
O artigo 225 da Constituição Federal do Brasil de 1988 cumulado com o
artigo 32 da Lei 9.605/1998 (Lei dos Crimes Ambientais) permite considerar a
prática de crueldade para com os animais uma ação criminosa. Ou seja, tudo que
pode denegrir a dignidade do animal é considerado crime, conforme se observa
no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais:
―Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar
animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou
exóticos: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa. §
1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa
ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou
científicos, quando existirem recursos alternativos. § 2º A pena é
aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal‖
(grifo nosso).
Como ao abandono faz parte do rol dos atos que denigrem a dignidade
animal, entende-se que incidirá pena aos guardiões irresponsáveis que
praticarem esse ato tão desprezível de covardia e desamor. A pena disponível no
artigo acima citado não é suficiente e não é efetiva, pois, aquele que abandona
animais não humanos está colocando em risca a vida das pessoas, a saúde
pública e a vida do animal vítima desse ato irresponsável.
A guarda responsável compreende ―os valores que seres humanos
devem assumir com relação aos animais‖ (SILVA, 2012, p.5). Isso implica no fato
de um ser humano tomar para si o cuidado destes animais não humanos.
A União Internacional Protetora dos Animais – UIPA é a mais antiga
associação civil brasileira sem fins lucrativos que defende a proteção dos
animais.
58Ela instituiu o Movimento de Proteção Animal com o objetivo de lutar
contra a exploração, o abandono e a crueldade que vitimam os animais em nome
da diversão humana.
Segundo a UIPA, existem 20 regras básicas que devem ser seguidas a
fim de garantir o bem-estar-animal. Dentre essas regras, destaca-se a de número
8 (oito) que possui o seguinte texto: ―Não abandoná-lo em caso de doença, de
idade avançada, de viagem, de agressividade ou em qualquer outra hipótese‖
59.
O abandono é um ato de extrema covardia, não há justificativa que
autorize a sua ocorrência. O ser humano que abandona seu animal de estimação
está matando-o paulatinamente. O animal morre a cada dia, seja de fome, de
sede, de frio.
Um animal em situação de rua está exposto a inúmeros perigos, como
por exemplo, o atropelamento. Além do fato de que, este pode vir a contrair
centenas de enfermidades e tornar-se vetor das mesmas. A expectativa de vida
58 A União Internacional Protetora dos Animais – UIPA foi fundada em 1895, sendo a associação
mais antiga do Brasil, responsável pela instituição do Movimento de Proteção Animal no país, no século XIX.
59