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Direito anglo-saxão e o contempt of court

2. DIREITO COMPARADO – BREVES NOTAS

2.2 Direito anglo-saxão e o contempt of court

No direito anglo-saxão, o exercício da atividade jurisdicional ampara- se no instituto conhecido como contempt of court, que confere ao órgão judicial o poder de coagir o jurisdicionado à cooperação, ainda que de maneira indireta, por meio da aplicação de sanções109. Trata-se, em linhas gerais, de mecanismo que

105 H., L. e J. Mazeaud e F. Chabas, op. cit., II-1, n. 953, p. 1.033; Starck, Roland e Boyer, op. cit., n. 572, p. 243. Verificar, ainda, sobre o campo de incidência da astreinte: H., L. e J. Mazeaud e F. Chabas, op. cit., II-1, n. 947-950, p. 1.031-1.032; Starck, Roland e Boyer, op. cit., n. 584-597, p. 246-251.

106 H., L. e J. Mazeaud e F. Chabas, op. cit., II-1, n. 948, p. 1.032; Starck, Roland e Boyer, op. cit., n. 594, p. 250.

107 Obrigações de fazer e não fazer: direito material e processo. Revista de Processo, nº 99, p. 39.

108 Cf. Marcelo Lima Guerra, Execução indireta, p. 108.

109 Cf. Araken de Assis, O contempt of court no direito brasileiro, Revista de Processo, nº 111, p. 19.

visa à preservação do respeito e da obediência devida à autoridade jurisdicional, garantindo o cumprimento das ordens judiciais110.

Araken de Assis, apesar de admitir que, em nossa língua portuguesa, não há tradução precisa para denominar o exato significado da palavra contempt, esclarece-nos que o vocábulo pode ser entendido a partir da concepção dada ao termo na língua espanhola, que o traduz como desacato111.

O contempt of court 112, assim, pode ser definido das seguintes maneiras: (a) segundo Cleon Oliphant Swayzee113, como “a prática de qualquer ato que tenda a ofender um tribunal na administração da justiça ou a diminuir sua autoridade ou dignidade, incluindo a desobediência a uma ordem” 114; (b) segundo Edward M. Dangel115, como “a ofensa ao órgão judiciário ou à pessoa do juiz, que recebeu o poder de julgar do povo, comportando-se a parte conforme suas conveniências, sem respeitar a ordem emanada da autoridade judicial” 116, e (c) segundo Júlio César Bueno, como “meio de proteção da dignidade e administração da justiça e de coerção do jurisdicionado, a fim de compeli-lo ao cumprimento de uma ordem judicial legítima que haja sido proferida, servindo ao resgate da autoridade do Poder Judiciário e contribuindo, assim, para a solução de sua aventada crise” 117.

De acordo com a doutrina dominante, o contempt divide-se em criminal e civil. O contempt criminal ocorre quando o jurisdicionado afronta a dignidade e a autoridade do órgão jurisdicional ou de seus agentes, mediante a

110Cf. Júlio César Bueno, O contempt of court por descumprimento de ordem judicial, Revista do Advogado, n. 84, p. 136, nota de rodapé n. 18, “não cabe contempt of court para a

efetivação de ordens de pagamento de valor. Tais ordens criam uma responsabilidade para o obrigado, que deverá ser satisfeita pelos modos próprios de execução” (grifado no original). 111 Cf. Araken de Assis, ibid., p. 20.

112 Sobre o tema, verificar: no direito inglês, C. J. Miller, Contempt of court, cap. 1, 2 e 14; no direito americano, Geoffrey C. Hazard Jr., American civil procedure, cap. 10, p. 202-204. 113Contempt of court in labor injunction cases, p. 17.

114 Cf. Ada Pellegrini Grinover, Ética, abuso do processo e resistência às ordens judiciárias: o contempt of court, Revista de Processo, nº 102, p. 222.

115National lawyer’s manual of contempt, including civil and criminal contempts, p. 2. 116 Cf. Araken de Assis, ibid., mesma página.

criação de obstáculos, impedindo o movimento dos atos processuais, retardando a prestação jurisdicional, contribuindo, enfim, para a morosidade do processo. Essa conduta, que pode se verificar no âmbito do processo civil ou penal, influencia, por óbvio, na má reputação do Judiciário, sendo certo que as sanções, nesse caso, revelam nítido caráter punitivo, pois visam reprimir o autor da ofensa e dissuadir (o próprio ofensor) e outras pessoas de comportamento semelhante. O contempt civil, por sua vez, acontece quando o destinatário da ordem judicial adota conduta omissiva, deixando de cumprir determinado preceito fixado pelo tribunal a favor da outra parte. Nessa hipótese, em que a atitude desrespeitosa prejudica, impede ou frustra a realização de direito alheio, as sanções apresentam caráter coercitivo, porquanto o objetivo é evitar a desobediência do comando judicial118.

Destacam-se, em apertada síntese, as seguintes diferenças entre essas duas modalidades de contempt of court, a saber: (i) em relação ao destinatário da conduta atentatória – no civil, a ofensa atinge a parte; no criminal, o desacato mancha a imagem do Judiciário; (ii) quanto aos efeitos – no civil, a aplicação da sanção requer a instauração de procedimento próprio, no qual deve ser observada a garantia do devido processo legal; no criminal, a punição é imediata, independentemente de formalidades que tais, mediante a instauração, de ofício ou a pedido da parte interessada, de processo autônomo e sumário; (iii) no que tange às sanções – no civil, a punição dá-se por tempo indeterminado, enquanto perdurar o descumprimento da ordem judicial, podendo motivar o contempt criminal, se e quando houver impossibilidade de cumprimento da decisão, hipótese em que a sanção do contempt civil deve cessar; no criminal, para aplicação da pena, que pode ser a prisão ou a multa (de quantia e período

118 Cf. Araken de Assis, op. cit., p. 20 e Ada Pellegrini Grinover, op. cit., p. 222. Ao estudar o papel do contempt of court por descumprimento no direito anglo-saxão, Júlio César Bueno, op. cit., p. 133, conclui que o respectivo processo “pode ser enquadrado entre esses meios e procedimentos de execução e seu objetivo principal é o de garantir a observância de ordens judiciais. Para tanto, serve à punição dos desobedientes e afrontadores (o contemnnor) de modo a garantir que os jurisdicionados compreendam que essas decisões não podem ser ignoradas com impunidade” (grifado no original).

de duração indeterminados) e sumariamente impostas, não se exige o descumprimento de norma legal, mas, sim, de ordem judicial119.

Interessa, para o escopo do presente trabalho, uma breve análise das sanções aplicáveis no contempt of court, com especial ênfase para a multa, importando destacar, de início, os seguintes requisitos para responsabilização do ofensor (contemnor) e aplicação da respectiva sanção, quais sejam: (a) existência de uma ordem judicial clara (de fácil entendimento), compreensível (inteligível) e específica (que determine um fazer ou não-fazer alguma coisa a uma das partes no processo); (b) inexistência de dúvida quanto à adequada cientificação do ofensor (contemnor) em relação aos exatos termos da ordem judicial, e (c) existência de prova inequívoca do descumprimento do comando judicial ou demonstração da forte plausibilidade de sua iminência120.

Observa-se, na doutrina examinada, que a multa pode ser condicional (quando possui caráter coercitivo, indutor do cumprimento da ordem judicial pelo respectivo destinatário) e definitiva (quando revela caráter repressivo, punitivo). Em se tratando de contempt civil, a multa sempre reverterá a favor da parte atingida pela ofensa, como forma de compensação dos prejuízos sofridos com a conduta (comissiva ou omissa) do destinatário da ordem judicial. Nesse

119 Cf. Araken de Assis, op. cit., p. 21, cujo autor esclarece que “o desacato enseja duas espécies de sanção: a multa e a prisão” (ibid., p. 22) e Ada Pellegrini Grinover, op. cit., p. 223, que, por sua vez, relaciona quatro espécies de sanções: a prisão, a multa, a perda de direitos processuais e o seqüestro. Ainda, Júlio César Bueno, op. cit., p. 136-137, admitindo a existência de diversas modalidades de sanções, explica que, “para os casos em que se pode antever uma mudança comportamental do contemnor, quando a sua insubordinação não é, assim, tão determinada e inquebrantável, nem a afronta ao juízo ou tribunal mostra-se tão evidente, aplica-se, então, uma sanção por prazo indeterminado, seja ela a privação da liberdade do contemnor, o seqüestro de seus bens ou a multa que se soma, diária ou mensalmente” (grifado no original).

120 Nesse sentido, Júlio César Bueno, op. cit., p. 135-136, de cuja obra se extrai interessante fragmento: “As sanções aplicáveis aos contempt of court por descumprimento, como meio executivo impróprio, de modo geral apresentam um espírito orientador e disciplinador, conexo à idéia do pleno respeito às atividades de administração da justiça. Objetivam, assim, induzir ou compelir o contemnor a um determinado comportamento perante a Corte, ativo ou passivo, a fim de que a pretensão à adequada prestação jurisdicional seja, a final, satisfeita. A sanção aplicável ao caso concreto deverá ser, então, proporcional e condizente à gravidade da ofensa já ocorrida ou iminente, bem como levar em consideração o grau de relutância do agente recalcitrante em obedecer à ordem judicial” (ibid., p. 136) (grifado no original).

caso, de reversão à parte ofendida, o valor da multa fica limitado ao dano realmente experimentado121.

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