CAPÍTULO III – Representação Voluntária em Matéria de Cuidados de Saúde
8. Enquadramento da procuração de cuidados de saúde na disciplina civilística do instituto
8.3. Viabilidade da representação voluntária de direitos especiais de personalidade
8.3.2. Direito ao desenvolvimento da personalidade
Como afirma André Dias Pereira «Em norma paralela ao art. 70º e com o alcance dogmático de reforçar o princípio da unidade da ordem jurídica, a Constituição da República Portuguesa conta, desde 1997, com o direito fundamental ao desenvolvimento da personalidade (art. 26º, nº1)»405. Numa perspetiva lógica e não cronológica, este direito era já corolário do valor
axiológico fundamental vertido no nº 1 do art.º 1 da CRP: a dignidade da pessoa humana406.
A dignidade da pessoa humana é um conceito aberto, concretizado em várias normas, e por isso suscetível de diversas interpretações, mas que contudo encerra uma dimensão geral de que a pessoa é colocada como fim último. Com Rui Nunes «…a dignidade confere-lhe o direito de ser sempre considerado como sujeito, em si mesmo, com uma finalidade própria...»407.
Enquanto conceito dotado de um elevado grau de abstração e generalidade, o princípio da dignidade da pessoa humana, tem sido objeto de várias interpretações que, segundo Vera Lúcia Raposo, podem reduzir-se a duas grandes conceções: a dignidade como proteção do indivíduo408, tradicional da cultura jurídica norte-americana; e a dignidade como autonomia do indivíduo, tradicional da cultura jurídica europeia409.
Da segunda conceção podemos assacar o resultado de que o conceito de dignidade deve ser interpretado em harmonia com o direito ao livre desenvolvimento da personalidade, em virtude da proteção constitucional que lhe foi conferida.
Neste sentido, e seguindo Benedita MacCrorie «…com o reconhecimento constitucional de um direito ao livre desenvolvimento da personalidade, procura-se deixar consagrado um direito à liberdade do indivíduo em relação aos modelos de personalidade, que integra um direito à
405 PEREIRA, André Dias – Direitos dos Pacientes e Responsabilidade Médica, p. 149; VASCONCELOS, Pedro
Pais de – Direito de Personalidade, p. 74.
406 PEREIRA, André Dias – Direitos dos Pacientes e Responsabilidade Médica, p. 149. 407 NUNES, Rui; Melo, Helena Pereira de, op. cit., p. 31.
408 No seguimento do raciocínio de Benedita MacCrorie, o acolhimento da corrente que defende a dignidade como
proteção do indivíduo implica a aceitação de uma conceção paternalista de dignidade da pessoa humana que cumprirá a função de «…legitimar a intervenção do Estado…Se o Estado se considerar competente para assumir uma determinada perspectiva acerca do que é exigível para as pessoas viverem uma vida digna, poderá impor restrições à liberdade que estas têm de fazer escolhas, sendo a dignidade interpretada de forma a restringir a liberdade individual», Vide, MACCRORIE, apud, OLIVEIRA, Nuno – O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e a Regulação Jurídica da Bioética. Lex Medicinae – Revista Portuguesa de Direito da Saúde. Coimbra: Coimbra Editora. ISSN 1646-0359. Ano 8, nº 15 (jan.-jun 2011). p. 32.
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diferença e que permite a cada um eleger o seu modo de vida desde que não cause prejuízo a terceiros»410.
Com efeito, Stela Barbas esclarece que «A pessoa é um ser dotado de liberdade, ou é de per si liberdade; goza de autonomia, autodetermina-se, é um ser racional e autónomo»411.
Na esteira de Rui Nunes, podemos ainda afirmar, que a riqueza do paradigma do livre desenvolvimento e expressão da personalidade humana reside na diversidade individual de autodeterminação 412 . Assim, no desenvolvimento da personalidade da cada pessoa, individualmente considerada, se revela o poder de autodeterminação do seu titular413.
Ora, o Direito Civil é a esfera de independência da pessoa, da pessoa sujeito de direitos, e do reconhecimento do valor eminente da pessoa tout court414. Por conseguinte, os direitos de personalidade consubstanciam os instrumentos jurídicos concretizadores dos direitos fundamentais415, v.g. o desenvolvimento da personalidade.
A personalidade humana, no âmbito da cláusula geral de tutela prevista no art.º 70 do CC, pressupõe a proteção desta sua faceta que é o desenvolvimento – à conceção abstrata de desenvolvimento encontra-se subjacente, por sua vez, um caráter dinâmico e não estático. Neste sentido, afirma Rabindranath Capelo de Sousa, que «…a personalidade humana é juscivilisticamente tutelada no seu ciclo evolutivo…», concluindo que «....se tutela no direito civil não só a estática mas também a dinâmica de tais elementos…», referindo-se ao conteúdo dos diversos elementos do bem geral da personalidade, v.g. as capacidades, as potencialidades,
410 MACCRORIE, apud, OLIVEIRA, Nuno – O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e a Regulação Jurídica
da Bioética. Lex Medicinae – Revista Portuguesa de Direito da Saúde, p. 32; Em sentido próximo, mas não totalmente coincidente, «Não é suficiente clamar do Estado que cumpra o seu dever de proteger a dignidade de cada pessoa; é muito mais forte e eficiente que cada um exija o respeito da sua própria personalidade e da sua própria dignidade», Vide, VASCONCELOS, Pedro Pais de – Direito de Personalidade, p. 48.
411 BARBAS, Stela Marcos de Almeida Neves – Direito do Genoma Humano, p. 498.
412 NUNES, Rui – Consentimento Informado e Boa Prática Clínica. Julgar – Número Especial. Consentimento
Informado. Lisboa. ISSN 1646-6853. (2014), p. 124.
413 Acompanhando Orlando de Carvalho, note-se que o poder de autodeterminação pessoal precede o próprio
direito geral de personalidade, uma vez que este exprime uma vocação jurisgénica de que o poder de autodeterminação é manifestação em concreto. «É porque a pessoa é um poder de autodeterminação que tem este poder (poder concreto) de exigir o respeito de si própria como sede e conformadora de semelhante poder», Vide, CARVALHO, Orlando de – Teoria Geral do Direito Civil, op. cit., p. 106.
414 CARVALHO, Orlando de – Teoria Geral do Direito Civil, op. cit., p. 136.
415 FERNANDES, Luís Alberto Carvalho – Teoria Geral do Direito Civil. Vol. I. Introdução e Pressupostos da
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os níveis e os estádios evolutivos alcançados ou suscetíveis de obtenção e o poder de autodeterminação do seu titular 416.
Para que a pessoa seja verdadeiramente pessoa – enquanto valor ou bem mais elevado reconhecido pelo sistema de normas – é necessário garantir condições essenciais para que a pessoa se desenvolva naquilo que é, naquilo que vai sendo e naquilo que virá a ser, considerando que a personalidade é inesgotável417. Essas condições essenciais, orientadas para assegurar o
ser e devir da pessoa, são os direitos de personalidade418.
8.3.3. Carateres dos poderes jurídicos dos direitos de personalidade: