3.3 DWORKIN E AS CONCEPÇÕES DE DIREITO
3.3.3 Direito como Integridade (Law as integrity)
O direito como integridade, por sua vez, “aceita sem reservas o direito e as pretensões juridicamente asseguradas” 103, mas supõe que a vinculação da coerção
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DWORKIN, Ronald. O império do direito. trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 119.
ao Direito garante a segurança jurídica e a “eqüidade processual” e, além disso, assegura um tipo de igualdade que “torna sua comunidade mais genuína e aperfeiçoa sua justificativa moral para exercer o poder político que exerce”104. Essa corrente entende que direitos e responsabilidades estão vinculados com o passado não apenas no que está expresso nas decisões anteriores, como também no que se relaciona aos princípios de moral pessoal e política que as justificaram.
Mas em que sentido adotamos a expressão integridade? Para Dworkin, a integridade deve ter o status de ideal político, é um “requisito prévio de civilização” no qual leva-se em conta certas divergências no conceito de agir moral, mas cobra- se do Estado ou da comunidade uma postura coerente neste modo de agir, ou seja,
a integridade torna-se um ideal político quando exigimos o mesmo do Estado ou da comunidade considerados como agentes morais, quando insistimos em que o Estado aja segundo um conjunto único e coerente de princípios mesmo quando seus cidadãos estão divididos quanto à natureza exata dos princípios de justiça e eqüidade corretos
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Por isso mesmo a integridade deve ser vista como virtude política, visto ser o ponto de partida para que, dentro de uma comunidade, os cidadãos respeitem uns aos outros e, a partir daí, seja possível alcançar a efetividade dos princípios da responsabilidade pessoal e do valor intrínseco.
Dworkin situa a virtude política da integridade ao lado das virtudes políticas constitutivas das “teorias políticas tradicionais”: eqüidade (busca dos procedimentos políticos adequados à justa distribuição de poder político), justiça (distribuição de recursos materiais, preservação e implementação dos direitos que garantam um resultado moralmente justificável) e processo legal adjetivo (“procedimentos corretos para julgar se algum cidadão infringiu as leis estabelecidas pelos procedimentos políticos”106, ressaltando que esta virtude não deve ser confundida com o princípio do devido processo legal, conforme alerta o próprio autor), considerando a virtude política da integridade como elemento fundamental à compreensão da interpretação constitutiva do direito (vide item 3.3), visto que suas exigências são de duas ordens: 104
Ibidem, p. 120.
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Ibidem, p. 202.
legislativa (princípio da integridade na legislação, ligado à teoria da legislação elaborada por Dworkin e desenvolvida no item 3.4.1), que roga aos legisladores a produção de leis coerentes com os princípios e judicial (princípio de integridade no julgamento, conectado à teoria da decisão judicial elaborada por Dworkin, desenvolvida no item 3.4.2.), que estabelece aos magistrados que julguem de forma coerente com os princípios, ressaltando, assim a importância do passado —e, por conseguinte, dos precedentes— para o Direito, vislumbrando-o como um corpo e não como uma série de decisões desconexas entre si.
Há que se ressaltar que a integridade deve ser tomada como paradigma e pressupõe uma personificação profunda do Estado e da comunidade enquanto agente moral, ou seja, a comunidade como um todo deve ser fiel às suas concepções (de eqüidade, justiça e devido processo legal adjetivo, concepções estas próprias da law as integrity), não obstante sejam estas concepções, muitas vezes, diversas daquelas que cada indivíduo daquela comunidade adotaria para si.
Dworkin defende que a integridade contribui para a eficiência do Direito, tendo em vista que, ao basear-se em princípios, lhe confere maior flexibilidade na interpretação, podendo expandir-se e contrair-se organicamente, conforme a evolução da sociedade, que, por sua vez, aceita ser regida não apenas por regras explícitas, mas por princípios o que lhes confere maior segurança jurídica, especialmente quando tem em mente que efetivamente participam das normas que regem a sua comunidade.
Vislumbramos aqui mais uma concepção de Dworkin fundamental ao efetivo exercício da cidadania, tendo em vista sua característica inclusiva. Ao basear-se em princípios e ao enxergar o Direito como um todo que concatena decisões e legislação, passado e futuro, permite que os cidadãos sintam-se parte de um processo e parte da sociedade. Como preleciona o autor:
A integridade expande e aprofunda o papel que os cidadãos podem desempenhar individualmente para desenvolver as normas públicas de sua comunidade, pois exige que tratem as relações entre si mesmos como se estas fossem regidas de modo característico, e não espasmódico, por essas normas. [...] A integridade, portanto,
promove a união da vida moral e política dos seus cidadãos: pede ao bom cidadão, ao decidir como tratar seu vizinho quando os interesses de ambos entram em conflito, que interprete a organização comum da justiça à qual estão comprometidos em virtude da cidadania.107
Vale ressaltar, no entanto, que a integridade não se reduz à mera coerência do ordenamento jurídico, mas vai além, exigindo “que as normas públicas da comunidade sejam criadas e vistas, na medida do possível, de modo a expressar um sistema único e coerente de justiça e equidade, na correta proporção”108 . Por outro lado, não se estende a uma coerência política “cega”, exigindo que o legislativo, por exemplo, tome apenas decisões políticas equânimes, desconectadas da realidade. Neste ponto, temos que a integridade, contrariamente ao afirmado por muitos opositores a Dworkin, não é uma concepção abstrata, pelo contrário, apresenta uma visão pragmática e flexível do Direito, utilizando-o para favorecer o desenvolvimento e a participação política na sociedade, e não como fator de “engessamento” dos outros poderes.