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DIREITO COMPARADO – O CONTEXTO DAS UNIÕES

As uniões homoafetivas, infelizmente, não têm recebido o tratamento jurídico desejável nos dias atuais. Contudo percebe-se uma conscientização por parte da sociedade no sentido de aceitar as uniões homoafetivas e seus respectivos direitos. Com o devido respeito pela Igreja Católica, ela é a maior responsável pelo preconceito e homofobia que foram instituídos na mentalidade das pessoas em todo o mundo.

De acordo com a Igreja, a homoafetividade foi considerada pecado e até mesmo doença; porém nunca existiram provas a respeito de tais considerações. A partir do momento em que os médicos passaram a atestar a naturalidade da homossexualidade, doença, perversão e desvio psicológico deixaram de ser relacionados à homossexualidade. Fundamentos religiosos não devem interferir e muito menos determinar aspectos jurídicos da sociedade.

Em interessante prisma, Enézio de Deus Silva Júnior afirma:

O amor, destarte, que não comporta barreiras e nem se curva ante o preconceito, é o responsável por todos os sentimentos, aptidões emocionais e desejos comuns aos indivíduos (independente da atração sexual que os movimenta), a exemplo do preparo para a maternidade, para a paternidade, bem como do desenvolvimento da estabilidade e do compromisso afetivo mútuo, que formam uma base familiar. Ousando, hoje, dizer o seu nome – ao contrário do que percebera Oscar Wilde na sua época vitoriana -, o amor homossexual exige dos Estados, fundamentado na base maior da dignidade, da igualdade e dos direitos humanos, os mesmos efeitos jurídicos dos vínculos afetivos tidos convencionais, de vez que os preconceitos, com relação à homossexualidade (os de natureza religiosa, em especial), sempre se constituíram os principais entraves à regulamentação da união homoafetiva (em países formalmente democráticos, como o Brasil) e à justa interpretação e aplicação das leis através da jurisprudência.179

A breve análise da legislação estrangeira servirá de subsídio para a construção da legislação nacional a respeito das uniões homoafetivas.

179 SILVA JÚNIOR, Enézio de Deus. A possibilidade jurídica de adoção por casais

As uniões homoafetivas constituem tema de interesse universal. E apesar de várias conquistas e avanços relacionados a tais uniões, ainda hoje, temos alguns países que possuem estrutura teocrática de governo, ou seja, a política sendo dirigida pela religião.

Nesse sentido, Paulo Vecchiatti180 “destaca a interpretação que, normalmente, os líderes religiosos dão a seus livros sagrados: Deus seria contrário à

união amorosa entre pessoas do mesmo sexo”.

Nesses países, há punições criminais para a homossexualidade. Não admitem relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo.

Há forte tendência mundial ao reconhecimento das uniões homoafetivas e a Dinamarca foi o primeiro país que reconheceu, legalmente, a união homoafetiva por meio da Lei 372, de junho de 1989. Estabeleceram, praticamente, os mesmos direitos e deveres previstos aos cônjuges com exceções relativas à adoção e procriação assistida.

Em 1993, na Noruega, foi promulgada a Lei 40 que também permitiu o registro civil das uniões homoafetivas. Aplica-se a mesma legislação que regulamenta o casamento, mas proíbe a adoção. E, em 1º de janeiro de 2009, na Noruega, entrou em vigor a lei que admite o casamento homossexual.

Em 07 de julho de 1994, o Parlamento Sueco aprovou a lei da parceria registrada que entrou em vigor em 1 de janeiro de 1995. Na Suécia, tal formalidade tem caráter de cerimônia.

Em 04 de junho de 1996, na Islândia foi criada a oportunidade para registrar a convivência fixa entre pessoas do mesmo sexo. Entrou em vigor em 27 de junho de 1996 (comemoração do dia do orgulho gay).

Em 1999, na França, foi aprovado o PAC’S (Pacto Civil de Solidariedade) com efeitos semelhantes aos da família formalizada. O modelo é o mesmo para homossexuais e heterossexuais. O primeiro artigo do PAC’S define: “um pacto civil de solidariedade é um contrato concluído por duas pessoas físicas, maiores, de sexo diferente ou igual, a fim de organizarem a própria vida em comum”181.

180 VECCHIATTI, Paulo Roberto Iotti. Op.cit., p.568.

181 “Art. 515-1. Un pacte civil de solidarité est un contrat conclu par deux personnes physiques

No sistema francês, são os próprios parceiros quem procedem ao fim do pacto. O judiciário só decidirá as consequências patrimoniais, se for impossível um acordo entre tais parceiros, conforme disposto na parte final do artigo 515-7.182

No tocante aos direitos referentes às uniões homoafetivas, a Holanda é um

dos países mais avançados. Desde 1998, é possível o contrato de parceria civil registrada e, em 2001, entrou em vigor a Lei 26.672, que, alterando alguns artigos do Código Civil holandês, permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Inclusive a Holanda é o primeiro país a permitir a adoção por duas pessoas do mesmo sexo.

Em Portugal, a Lei n.7/2001, de 11 de maio de 2001, estipulou que os parceiros homossexuais ou heterossexuais, em união de fato por mais de dois anos, possuem tutela jurídica semelhante à dos heterossexuais unidos pelo casamento.183 Quanto à questão da adoção, a lei confere sua possibilidade exclusivamente às uniões heterossexuais.184

Na Alemanha, em 1º de agosto de 2001, entrou em vigor a legislação que atribuiu direitos aos parceiros homossexuais (parceria registrada). A legislação diz respeito aos companheiros do mesmo sexo. Um deles pode adotar o sobrenome do outro. São considerados herdeiros.

Apesar de a Inglaterra não demonstrar tendência ao reconhecimento das uniões homoafetivas, em 05 de setembro de 2001, foi feito o primeiro registro de união civil da Grã-Bretanha.

Em 12 de dezembro de 2002, foi sancionada a lei municipal n. 1004, em Buenos Aires, Argentina, que criou a possibilidade de se formalizarem as uniões civis publicamente, criando até mesmo um Registro Público próprio para tanto.185

182

“Art.515-7. (...) Les partenaires procèdent eux-mêmes à la liquidation des droits et obligations résultant pour eux du pacte civil de solidarité. A défaut d’accord, lê juge statue sur les conséquences patrimoniales de la rupture, sans préjudice de la réparation du dommage éventuellement subi”.

183

“Artigo 1º. Objecto 1 A presente lei regula a situação jurídica de duas pessoas, independentemente do sexo, que vivam em união de facto há mais de dois anos”.

184

“Artigo 7º Adopção. Nos termos do actual regime de adopção, constante do livro IV, título IV, do Código Civil, é reconhecido às pessoas de sexo diferente que vivam em união de facto nos termos da presente lei o direito de adopção em condições análogas às previstas no artigo 1979 do Código Civil, sem prejuízo das disposições legais respeitantes à adopção por pessoas não casadas.

185

“Artículo 2°. Registro Público de Uniones Civiles: Créase el Registro Público de Uniones Civiles, con las siguientes funciones:

a) Inscribir la unión civil a solicitud de ambos integrantes, previa verificación del cumplimiento de los requisitos dispuestos en la presente Ley.

b) Inscribir, em su caso, la disolución de la unión civil.

c) Expedir constancias de inscripción o disolución a solicitud de cualquiera de los integrantes de la unión civil”.

Essa lei reconhece a igual possibilidade da união entre pessoas do mesmo sexo também estar protegida pela Lei, pois considera União Civil: “a união formada livremente por duas pessoas independentemente de seu sexo ou orientação sexual”.186 E, em 30 de julho de 2010, em Buenos Aires, é realizado o primeiro

casamento gay.187

Em 2003, o Parlamento Belga aboliu as disposições que proibiam o casamento homossexual. A Bélgica é o segundo país no mundo a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Nos Estados Unidos, o Parlamento de Vermont estabeleceu um tratamento igualitário entre união homossexual registrada e casamento. Os efeitos jurídicos são semelhantes. E, em novembro de 2003, a Suprema Corte Judicial de Massachusetts afirmou a proibição de o Estado negar proteção aos homossexuais que desejam se casar. Algumas localidades criaram o sistema de parcerias domésticas registradas (Nova Iorque, Chicago, Seattle, Los Angeles, Califórnia, Michigan e São Francisco). Oportuno o relato do fato ocorrido em São Francisco (EUA) pela Profa. Maria Alice Zaratin Lotufo:

É conhecido o fato de o prefeito de São Francisco, Gavin Newson, em fevereiro de 2004, haver ordenado emissão de aproximadamente quatro mil certidões de casamentos, no que foi combatido pelo então governador do Estado, Arnold Schwarzenegger. Em agosto do mesmo ano esses casamentos foram anulados por força da decisão da Corte Suprema da Califórnia. No entanto, em maio de 2008, essa mesma Corte aprovou o casamento entre homossexuais.188

Na Espanha, a Lei 13/2005, sancionada em 1 de julho de 2005, modificou o Código Civil no que diz respeito ao casamento: permitiu sua realização entre pessoas do mesmo sexo e igualou os direitos dos homossexuais aos dos casais heterossexuais189. Dessa forma modificou o Código Civil, acrescentando um

186

“Artículo 1°. Unión Civil: A los efectos de esta Ley, se entiende por Unión Civil:

a) A la unión conformada libremente por dos personas con independencia de su sexo u orientación sexual. (...)”.

187

Foi noticiada pela imprensa brasileira: “Buenos Aires faz história com seu 1º casamento gay. Ernesto Larresse, 60, e Alejandro Vannelli, 61, não entendem por que Brasil ainda não aprovou medida”. Folha de São Paulo, 1 de agosto de 2010, Caderno Mundo.

188 LOTUFO, Maria Alice Zaratin. Aplicabilidade de normas protetivas às relações homoafetivas com

fundamento nos princípios da liberdade, da isonomia e da dignidade do ser humano. Tese de

doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 2008. p.32.

189 Ley 13/2005 de 1 de julio, por la que se modifica el Código Civil en matéria de derecho a contraer

segundo parágrafo ao art.44: “El matrimonio tendrá los mismos requisitos y efectos cuando ambos contrayentes sean del mismo o de diferente sexo”.

A Espanha foi o primeiro país de origem latina a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, apesar da forte influência da Igreja Católica Apostólica Romana sobre tal país. Conforme salienta Paulo Vecchiatti: “o clero católico fez tudo o que pôde para evitar a aprovação da lei, sem, contudo, obter êxito. E o fez não fundado em razões jurídicas, mas apenas em seus dogmas religiosos contrários à união homoafetiva”.190

Em novembro de 2006, a África do Sul se destaca como primeiro Estado Africano a legalizar a união civil e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em junho de 2007, foi aprovada pelo Congresso a Lei 100C-06, na Colômbia, que concedeu praticamente os mesmos direitos dos casais heterossexuais aos homossexuais que viviam juntos há mais de dois anos. Excluíram a adoção.

Em 2008, no Equador, foi aprovada a Proposta Constitucional de n° 444, a partir de Referendo realizado em 28 de setembro, quando se teve o reconhecimento civil das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Em 2009, no Uruguai, a aprovação pelo Senado do projeto de lei que autoriza, expressamente, a adoção por casais homossexuais.

Na verdade, a maioria dos países acabou regulamentando a união civil registrada e não o casamento com todos os seus efeitos.

que el matrimonio sea celebrado entre personas del mismo o distinto sexo, con plenitud e igualdad de derechos y obligaciones cualquiera que sea su composición. En consecuencia, los efectos del matrimonio, que se mantienem en su integridad respetando la configuración objetiva de la institución, serán únicos en todos los âmbitos con independência del sexo de los contrayentes; entre otros, tanto los referidos a derechos y prestaciones sociales como la posibilidad de ser parte en procedimientos de adoptión.

Asimismo, se ha procedido a una imprescindible adaptación terminológica de los distintos artículos del Código Civil que se refieren o traen causa del matrimonio, asi como de una serie de normas del mismo Código que contienen referencias explicitas al sexo de sus integrantes.

Em primer lugar, las referencias al marido y la mujer se han substituido por la mención a los cónyuges o a los consortes. En virtud de la nueva redacción del articulo 44 del Código Civil, la acepción jurídica de cónyuge o de consortes era la de persona casada con otra, con independência de que ambas sean del mismo o de distinto sexo.

Subsiste no obstante la referencia al binômio formado pelo marido y la mujer en los artículos 116, 117, 118 del Código, dado que los supuestos de hecho a que se refieren estos artículos solo pueden producirse en el caso de matrimonios heterossexuales.

Por outra parte, y como resultado de la disposición adicional primera de la presente ley, todas las referencias al matrimonio que se contienen en nuestro ordenamiento jurídico han de entenderse aplicables tanto al matrimonio de dos personas del mismo sexo como al integrado por dos personas de distinto sexo”.

Acerca do tema, preleciona Maria Alice Zaratin Lotufo:

O casamento ainda é uma instituição carismática, prestigiada pela sociedade e sacralizada pelas religiões. Ele tem a qualidade de conferir respeitabilidade à união sendo este um dos motivos da sua pretensão pelos parceiros do mesmo sexo. No entanto, a possibilidade de registrar a união civil pode lhes trazer, também, essa satisfação, sendo apenas uma questão de tempo.191

Apesar de vários países terem avançado no tocante às uniões homoafetivas, comenta Romualdo Flávio Dropa:

O fato destes países (Espanha, Canadá, Holanda e Bélgica) legalizarem o que já existe há muito tempo revela que a dinâmica dos costumes é muito mais fluida do que os textos legais, que existem, entre outros motivos, exatamente para oferecer algum tipo de equilíbrio à vida em sociedade. E quando se está diante de transformações já definidas e consolidadas não existe justificativa para que se mantenha atrelado a uma legislação anacrônica.192 Destaca Maria Berenice Dias: “Necessário mudar valores, abrir espaços para novas discussões, revolver princípios, dogmas e preconceitos”.193

Nos últimos anos, as sociedades mudaram muito. Dessa forma, é conveniente verificar certos valores do passado e adaptá-los às leis vigentes.

191 LOTUFO, Maria Alice Zaratin. Op.cit., p.33-34.

192 DROPA, Romualdo Flávio. O princípio fundamental da dignidade da pessoa humana e o

reconhecimento das uniões homoafetivas como entidades familiares. Dissertação de mestrado.

Jacarezinho (PR): Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro, 2005. p.166.