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Direito Constitucional comparado e os seus elementos teóricos

2 PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS DO DIREITO

2.4 Direito Constitucional comparado e os seus elementos teóricos

No presente tópico analisar-se-á apenas o sistema constitucional, entendido como subsistema do ordenamento total, isto é, parte do sistema jurídico como um todo. Nunca é demais lembrar que a simples descrição dos diversos sistemas jurídicos não significa que estejamos fazendo Direito Comparado. Trata-se de questão de natureza epistemológica, já anteriormente demonstrada, importante para compreendermos a perspectiva da qual estamos falando.

O sistema jurídico estrangeiro é elemento indispensável para a análise do Direito Comparado. Mas a simples descrição não é suficiente, porquanto é necessário que se faça a

confrontação deste sistema jurídico estrangeiro em face do sistema jurídico nacional, ou frente a sistemas jurídicos diversos, para que possamos falar em Direito Comparado. Ou seja, com relação ao Direito Constitucional Comparado, o sistema constitucional estrangeiro é elemento indispensável. Partindo desse ponto de vista, é importante ressaltar que há controvérsias entre os autores acerca dos critérios de seleção dos sistemas. Vejamos a posição de alguns deles.

Paolo Biscaretti di Ruffia (1975), ao analisar diversas premissas metodológicas referentes ao Direito Comparado, admite estar diante de uma difícil questão, em razão de uma generalidade de critérios. Mas considera necessária para servir de orientação nas investigações comparativas. Neste passo, refere-se às posições de Pierre Arminjon, Baron Boris Nolde, Martin Wolff e René David.

Em sua análise, esclarece Ruffia que ao exame preliminar dos ordenamentos constitucionais contemporâneos, podemos comprovar sua origem recente. As distintas Constituições promulgadas nos diversos países, a partir de 1787, podem ser distribuídas em uma série concatenadas de ciclos constitucionais sucessivos. E prossegue ressaltando que

...las Constituciones contemponáneas que tienen su origen en los primeiros de los ciclos mencionados han sufrido posteriormente numerosas modificaciones (formales y no formales), de maneira que en la actualidad se caracterizam por lienamentos propios de otras Constituciones surgidas en épocas más próximas a nosotros...

En consecuencia, puede demonstrarse que la etapa del constitucionalismo clásico se desarroló en el mundo moderno entre 1787 y el fin de la primeira Guerra Mundial de acuerdo con cinco ciclos sucessivos, por medio de conceptos y de realizaciones que se perciben facilmente en sua progressividade lineal, incluyendo las siguintes Constituciones: revolucionarias del siglo XVIII (1789-1799), napoleônicas (1799-1815), de la Restauración (1815-1830), liberales (1830-1848) y

democráticas (1848-1918), entre ellas varias de caráter federal (1848-1874); pero a partir de

entonces las Constituciones se han orientado en direcciones diversas y contrastantes.

Así, al lado de las Constituciones de la democracia racionalizada posteriores a la primeira Guerra Mundial (1919-1937) y de la democracia social de la segunda pos-guerra (de 1946 a la actualidad) – todas ellas en el âmbito de la mencionada forma de Estado de la democracia clásica u

occidental -, a partir de 1918 han surgido las Constituciones de la democracia marxista o socialista, típicas de los países de la Europa centro-oriental y de algunos Estados de Asia, África o

América; en tanto que las Constituciones autoritárias presentan en la actualidad un valor más bien histórico, ya que habiendose desarrollado en Europa en el período que trasncurre entre las dos guerras mundiales, sobreviven actualmente sólo en alguns países del Tercer Mundo, bajo formas bastante diversas y privadas de toda influencia ideológica seria.

A las anteriores puede agregarse un conjunto de recientes Constituciones adoptadas por

los países en vías de desarrollo, las que se han inspirado en su mayoría en el constitucionalismo

clásico (de acuerdo con el modelo britânico, francês o norteamericano), aunque no les faltan aspectos derivados de las Constituciones socialistas, en un intento de recorrer con mayor rapidez, por esta vía, el largo camino que sobre el plano econômico y social espera todavia de manera inevitable a estos países – que com frecuencia solo han alcanzado su independência recientemente - , si los comparamos com los más evolucionados del mundo occidental o socialista europeo.

La cuádruple división que se há mencionado (...) supera en la actualidad las clasificaciones formales determinadas todavía por el diverso origen histórico de los textos constitucionales

respectivos, ya que describe una situacion contemporánea que no es posible pasar por alto. Los estudiosos del derecho constitucional comparado no pueden dejar de tener en cuenta las doctrinas político-económicas que han conducido a estas distinciones, las que determinan con frecuencia la adopción de concepciones totalmente antitéticas acerca de la natureza y de los fines del Estado.

También se podrá hablarse, según la preferência de los diversos autores, ya sea de formas

de Estado, de regímenes políticos o de formas de organización socieconómica, pero debe

considerarse que la contraposición sustancial de princípios, estructuras y condiciones ambientales admite con dificultad la comparación fructífera de normas e instituciones efectuadas en relación con los ordenamientos estatales de los países pertencientes a las cuatro categorias mencionadas.

Por el contrario, es posible realizar dentro de cada una de las mencionadas formas de

Estado uma serie de subdistinciones ulteriores, utilizando critérios diversos, como el de formas de

gobierno, que no se encuentran determinadas, como em el caso precedente, por las diferencias sustanciales de conceptos y estructuras.

La cierteza de las afirmaciones mencionadas se demuestra también por el hecho de que, com diferencias parciales y algunos matices, han sido acogidas hoy en dia por los comparatistas más actualizados do los países del ámbito socialista.31

Por sua vez, observa Jorge Miranda, apontando o difícil problema de traçar um quadro capaz de dar conta das múltiplas formas e instituições, que: “... não é fácil surpreender um quadro suficientemente largo e preciso não só das múltiplas formas e instituições como das grandes coordenadas do Direito Constitucional” (MIRANDA, 1997, p. 101). Atualmente são aproximadamente 200 Estados formalmente soberanos, todos com os seus ordenamentos particulares e revestidos na sua grande maioria por Constituições escritas.

Mas, é necessário levar ao fim tal tarefa, quer no âmbito de trabalhos comparativos, quer da exposição do estudo de temas da teoria da Constituição. Jorge Miranda (1997, p. 101) apresenta as perspectivas para alcançar tal tarefa. São elas: “o recurso à Teoria Geral do Estado, a tipologia das formas políticas, a observação de experiências constitucionais, a formação de sistemas e famílias de Direito Constitucional”.

Quanto às famílias32 de Direito Constitucional, seu método de formação, observa Jorge Miranda que este método consiste,

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RUFFIA, Paolo Biscaretti di. Introducción al Derecho Constitucional Comparado. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996, p. 91-94 apud DANTAS, op cit., p.158-161. Em nota de rodapé de n. 82, página 158, de seu livro aqui citado, fazendo referência aos ciclos constitucionais, o Prof. Ivo recorda que, entre nós, PINTO FERREIRA nos seus Princípios Gerais do Direito Constitucional Moderno (6ª edição, São Paulo: Editora Saraiva, 1983, vol. I, p. 55- 67) refere-se a diversos Ciclos Constitucionais, afirmando: “A doutrina dos ciclos constitucionais tem profunda importância para o direito público, melhor esclarecendo a sua essência e tendência evolutivas. O ciclo constitucional define-se pelo seu traço de originalidade e pela sua expansão no mundo das formas políticas, a exemplo dos ciclos constitucionais inglês, norte-americano, francês, alemão e soviético, como Constituições-tipos, que têm servido de figurino ou modelos a outras nações”.

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Jorge Miranda denomina de fases pelas quais se desdobra o processo intelectual de agrupamento dos sistemas em famílias de Direito constitucional. São elas: “1º) – Observação dos sistemas constitucionais (não de todos necessariamente, mas de uma maior parte e mais significativa, na sua realidade e diversidade); 2º) – Recolha de caracteres comuns e destrinça de caracteres diferenciadores; 3º) – Procura ou conformação de sistemas com caracteres semelhantes; 4º) – Sempre que essenciais os pontos de contacto, inclusão dos sistemas nas mesmas

por um lado, em examinar o Direito Constitucional de um país tal como se apresenta na sua realidade de um sistema dotado de vida própria e, por outro lado, em tentar agrupar sistemas semelhantes ou afins num pequeno número de famílias ou tipos constitucionais. (...) oferece uma tríplice vantagem. Baseia-se no Direito Constitucional como um todo, embora tenha de escolher os elementos sobre que vai incidir a comparação; torna-o integrado no sistema jurídico a que pertence; visa descobrir a continuidade institucional, mas, ainda mais, a coerência actual de valores, conceitos e normas.

É um método que abre tanto para uma dimensão temporal quanto para uma dimensão espacial (de tendência universalizante) como nenhum outro e que, assim, se situa bem entre as tentativas de agrupamento de ordens jurídicas a que procede o Direito comparado. Contudo, tem de ser usado com prudência, por se terem tornado menos firmes os contornos de sistemas e famílias num mundo em mudança (MIRANDA, 1997, p. 101).

Por último, Jorge Miranda reconhece a existência de quatro grandes famílias de Direito constitucional no século XX: a inglesa, a norte-americana, a francesa e a soviética.

Partindo de um entendimento tridimensional do Direito, Bidart Campos e Walter Carnota propõem um critério que denominam de Marcos Generales para o estudo do Direito Constitucional Comparado:

El derecho constitucional comparado que nosotros propugnamos no se encuentra enclausurado en las normas de la constitución documental. Por el contrário, fieles al realismo y al trialismo jurídico, visualisamos a un derecho constitucional de cara o solidário con la realidad existencial. Por eso podemos afirmar también que estado, en su sentido dinâmico, es sinônimo no sólo a régimen político, sino a constitución en su acepción material o real.

La preanotada dimensión existencial que le imprimimos al derecho constitucional comparado nos obliga a detenermos, siquiera brevemente, en los marcos en que se despliega su capacidad ordenadora y estructuradora.

Sabemos que el derecho constitucional de cada estado es su causa formal, es dicer, es aquel ingrediente aglutinante que lo informa, que le infunde organización y encuadre. Ahora bien, la pregunta clave a formular es ésta: qué es lo que se organiza, estructura u ordena?33

Ao analisar, “el território como uno de los suspuestos del régimen político”, “El supuesto humano o pobación”, “como cambia el ejercício del poder? Su influencia en el derecho”, esses autores, apresentam o Direito Constitucional Comparado como disciplina integradora. Assim escrevem:

Si hay una rama jurídica que está mejor posicionada para lograr síntesis integradora, es el derecho constitucional comparado. Captando analogias y diferencias, aprehendiendo datos culturales diversos, estableciendo patrones comunes, se logra el avance de los valores de libertad, de pluralismo político y social, y de solidariedad a los que debe aspirar toda comunidad.

famílias – sendo, porém, imprescindível proceder a análise histórica e sistemática; 5º) – Averiguação da possível existência de um sistema donde derivem historicamente os outros sistemas, por comunidade de origem, imitação, influência ideológica ou imposição; 6º) – Com os elementos comuns aos vários sistemas integrados em cada família, construção da unidade dogmática ideal correspondente a esta e sua consideração como sistema abstracto coerente”. Cf. MIRANDA, op. cit., p.107-109.

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BIDART CAMPOS, German J. e CARNOTA, Walter. Derecho Constitucional Comparado. Buenos Aires: Ediar, 1998, p. 29-50, Tomo I, apud DANTAS, op. cit. p. 165-166.

(...)

El derecho constitucional comparado, en cuanto confronta los ordenamientos jurídicos y los regímenes políticos existentes en el mundo, requiere de un conocimiento interdisciplinario de los marcos donde tales ordenamientos y regímenes se incardinan. El cuadro resulta amplísimo y, en consecuencia, difícil de ser abordado en su totalidad y plenitud. Modestamente hemos de procurar una prieta sínteses.34

Ao invés de descreverem sistemas constitucionais, esses autores utilizam-se da técnica que se volta para o estudo de determinados temas, como por exemplo, Classes de Constituições, Rigidez e Flexibilidade Constitucionais, Supremacia Constitucional, Constitucionalismos, Controle de Constitucionalidade, Mutações Constitucionais (DANTAS, 2006, p. 167), entre outros temas.

Ademais, frise-se que o Direito Constitucional Comparado é uma criação do século XX e representa um esforço teórico-conceitual no âmbito da Teoria Geral do Direito. Conforme demonstrado ao longo do texto, o Direito Constitucional Comparado tem objeto próprio, que é a comparação entre dois ou mais sistemas constitucionais. Sua problematização está relacionada com as diferenças e semelhanças entre sistemas jurídicos; utiliza-se de um método, que não lhe é exclusivo, que é o método comparativo. O objetivo principal do Direito Comparado é estudar – comparando – ordens ou sistemas jurídicos diversos, podendo-o fazer sob as perspectivas do macro ou microcomparação, entendidas estas expressões tanto no sentido da quantidade dos sistemas (vários sistemas = macrocomparação) quanto da quantidade de institutos (exemplos: a liberdade de expressão, a prisão civil por dívidas, visto sob a perspectiva de três ou mais sistemas, hipótese em que se pode falar em análise macro; ou em dois sistemas – microcomparação).

Sem pretensão de determinar rigidamente o marco de seu nascimento, pode-se apontar dois artigos os quais servem como marco importante do Direito Constitucional Comparado. O primeiro deles, intitulado Lévolution recente du problème des delegations legislatives, de autoria de Carl Schmitt, publicado em 1938 na coletânea de estudos em homenagem a Edouard Lambert; o segundo, A comparative study of the Austrian and the American Constitution, de Hans Kelsen, publicado no Journal of Politics, em maio de 1942, onde há tradução para a língua portuguesa com o seguinte título: “O controle judicial da constitucionalidade (um estudo comparado das Constituições austríaca e americana)”. Entretanto, vale ressaltar que esses autores não estavam preocupados com o estudo do Direito Constitucional Comparado como ramo do Direito

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Comparado ou do caráter científico deste, embora estivessem inaugurando e contribuindo com um novo espaço para a reflexão teórica e prática da atividade jurisdicional.

No Brasil, não obstante o pioneirismo e a originalidade, a produção bibliográfica acerca do Direito Comparado ainda é incipiente. Os primeiros trabalhos datam do final do século XIX, na Faculdade de Direito do Recife, com os escritos de Tobias Barreto, no contraponto feito entre teoria jurídica brasileira e teoria alemã, e os estudos sistemáticos de Clóvis Beviláqua (LOSANO, 2007, p. XV-XL), retratados na “Aplicação do methodo comparativo ao estudo do direito”, de 1891, e o “Resumo das Lições de Legislação Comparada sobre o Direito Privado”, de 1897. No início do século XX, Cândido Luiz Maria de Oliveira publica o “Curso de Legislação Comparada”. Posteriormente, tivemos a publicação do “Direito Comparado, Ciência Autônoma”, de Caio Mário da Silva Pereira, publicado em 1952, que representou um novo marco teórico na doutrina do Direito Comparado no Brasil. Como crítico dessa perspectiva, temos Cláudio Souto, com “Da Inexistência Científico-Conceitual do Direito Comparado”, escrito em 1956.

Após esta data, tantos outros trabalhos e autores, que são dignos de serem lembrados, também fazem parte do rol de publicações acerca do Direito Comparado, como por exemplo, Haroldo Valladão, com “O Estudo e o Ensino do Direito Comparado no Brasil: séculos XIX e XX”, publicado em 1971, na Revista de Informação Legislativa; José Cretella Junior, Droit Administratif Compare, de 1973, traduzida para a língua portuguesa em 1990, com o título “Direito Administrativo Comparado”.

No que diz respeito ao Direito Constitucional Comparado, a produção bibliográfica brasileira comporta pouco mais de uma dúzia de publicações nestes últimos anos, entre as quais, podemos citar, a título de exemplo, o artigo publicado por Ana Lúcia de Lyra Tavares, em 1999, intitulado de “Notas sobre as dimensões do Direito Constitucional Comparado”. A obra “Direito Constitucional Comparado. Introdução. Teoria e Metodologia”, de autoria de Ivo Dantas, publicado em 2000, que já se encontra em sua terceira edição. Cite-se também, entre outras referências, o livro “Um Pouco de Direito Constitucional Comparado”, de José Afonso da Silva, publicação de 2009; Ricardo Arnaldo Malheiros Fiúza, “Direito Constitucional Comparado” e “Estudos de Direito Constitucional Comparado”, organizado por Maria Garcia e José Roberto Neves Amorim.

Atualmente reconhece-se a importância do estudo do Direito Comparado, em geral, e do Direito Constitucional Comparado, em particular, como mais uma ferramenta no campo jurídico para ajudar na reflexão de grandes temas globalizados, uma vez que a ele se atribui visão mais ampla do direito, promovendo consciência integradora, em suas múltiplas diferenças e semelhanças existentes entre os vários sistemas jurídicos, rompendo com a postura que leva o direito a “um gueto jurídico nacional”, sem se preocupar com os desafios globais postos pela contemporaneidade. Os inúmeros e sucessivos encontros (multilaterais e bilaterais) entre as Cortes Constitucionais cada vez se intensificam com trocas de informações e experiências sobre como cada país lida com desafios, na verdade, universais. A Separação dos Poderes, a independência dos Tribunais Constitucionais ou Equivalentes, os casos de omissão legislativa, dentre outros, são os temas que vêm ocupando um espaço significativo na pauta de debates e simpósios, conforme já salientado na introdução do presente trabalho.

O tema do controle de constitucionalidade tem demonstrado sua importância no constitucionalismo contemporâneo e pode ser analisado numa perspectiva do Direito Constitucional Comparado. Eis o propósito do presente trabalho: demonstrar a superação da dicotomia entre o controle concentrado e o controle difuso; identificar as semelhanças e diferenças existentes entre o controle híbrido no Brasil e no sistema português. Se esse controle híbrido promovem aproximação ou convergência entre o controle difuso e o controle concentrado.

3 CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE E FORMAÇÃO DOS MODELOS