Excerto da Mensagem Presidencial de Floriano Peixoto ao Congresso Nacional, de 7 de maio de 1894, sobre a Questão do Direito de Asilo na 'Revolta da Esquadra':
Senhores Membros do Congresso Nacional, ( ... )
( ... ) Já sabeis que a revolta da esquadra, que começou neste porto em 6 de setembro do ano próximo passado, terminou a 13 de março último, refugiando-se o contra-almirante Saldanha da Gama, com 492 rebeldes, a bordo das corvetas portuguesas Mindello e Affonso de Albu
querque, que aqui se achavam para proteger os súditos de Sua Majestade Fidelíssima. No relatório do Ministério das Relações Exteriores, que vos será oportunamente enviado, achareis as particularidades desse extraor
dinário acontecimento. Digo extraordinário porque o comandante da força naval portuguesa, abusando do chamado direito de asilo, concedeu-o em circunstâncias que lhe deram incontestavelmente
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caráter de ofensa à soberania nacional.A esquadra rebelde, que, durante mais de seis meses, ao princípio só e depois com o auxílio das fortalezas de Villegaignon e da Ilha das Cobras, bombardeou diária e impunemente as fortalezas da barra e a cidade de Niterói, e freqüentes vezes a Capital Federal, estava no dia 13 de março cercada por essas fortalezas, pelas baterias de Niterói, pelas desta cidade e pela esquadra do Governo, que lhe impedia a saída. Foi no meio desse círculo de fogo, dentro da baía, no momento da ação, que o comandante da força naval portuguesa se julgou com
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direito de dar refúgio aos rebeldes, protegendo-lhes assim a retirada, que de outro modo não conseguiram. Não protegeu somente alguns homens, mas 493 dos que com
punham as guarnições das duas citadas fortalezas e navios apreendidos, que ainda poderiam operar contra o Governo do país.
Eu não devia sancionar com o meu silêncio tão ofensivo procedi
mento, nem mesmo limitar-me a um simples protesto. Reclamei a res
tituição dos rebeldes, não porque contasse com ela, mas porque tinha direito de a exigir, deixando ao Governo Português a responsabilidade das conseqüências de sua recusa.
Recebidos como foram os rebeldes, tinha esse governo obrigação de providenciar para que não pudessem renovar hostilidades contra o Go
vemo do país, e ele o prometeu, assegurando que não desembarcariam em território estrangeiro. Entretanto, as duas corvetas foram ao Rio da Prata e os rebeldes desembarcaram em território argentino para fazer quarentena, não sei se com o assentimento do comandante português ou sem ele. O certo é que desembarcaram, e consta que mais de duzentos evadiram-se para o território da República Oriental do Uruguai, talvez com o intuito de se unirem aos seus aliados do Rio Grande do Sul.
Tenho a satisfação de comunicar-vos que continuam inalteráveis as relações de amizade que mantemos com as nações estrangeiras, sendo que a respeito de Portugal o Governo trará oportunamente ao vosso conheci
mento a solução do incidente que acabo de referir. ( ... ) a) Floriano Peixoto
In: Câmara dos Deputados, Mensagens Presidenciais 1890-1910, Brasília, CO jCentro de Documentação e Informação, 1978, pp. 92-93.
Resposta do Ministério das Relações Exteriores, de 15 de março de 1894, a Nota da Legação Portuguesa, scbre Caso de Concessão a Insurgentes de Asilo a Bordo de Navios de Guerra Portugueses:
Ao Sr. Conde de Paraty .
Acuso o recebimento da nota que o Sr. Conde de Paraty, Encarre
gado de Negócios de Portugal, serviu-se dirigir-me hoje, comunicando que, na manhã de 13, um numeroso grupo de insurgentes solicitou e obte
ve refúgio e asilo a bordo dos navios de guerra de sua nação M indello e Affonso de Albuquerque.
O Governo Federal já tinha conhecimento dessa ocorrência; mas con
quanto reconheça que o ato dos Srs. Comandantes dos navios de guerra portugueses é inspirado em sentimentos humanitários, vê-se todavia obri
gado a reclamar a entrega daqueles indivíduos, por entender que, como criminosos que são, não estão no caso de gozar da proteção que obtiveram.
Tenho a honra de reiterar ao Sr. Conde as seguranças da minha mui distinta consideração.
a) Cassiano do Nascimento [M.R.E.]
In: MRE, Relatório Apresentado ao Vice-Presidente da República dos Estados Unidos do Brazil pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores - 1894, Rio de Janeiro.
Imprensa Nacional, 1894, Anexo n? I, doe. nQ 35, p. 48.
REPERTÓRIO DA PRÁTICA BRASILEIRA DO DIREITO INTERNACIONAL 195 Nota do Governo Brasileiro, de 5 de abril de 1894, à Lega
ção Britânica, sobre Caso de Concessão a Insurgentes de Asilo a Bordo de Navios de Guerra Portugueses:
Ao Sr. Hugh Wyndham.
Recebi em devido tempo a nota que o Sr. Hugh Wyndham, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Sua Majestade Britânica, serviu-se dirigir-me a 21 do mês próximo passado, comunicando-me, de ordem do Principal Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Sua Majestade, as razões pelas quais o seu Governo não acedeu ao con
vite, que lhe fez o representante do Brasil em Londres, para que interpu
sesse os seus bons ofícios em apoio do pedido do Governo Federal junto ao de Portugal para a entrega dos revoltosos que se refugiaram a bordo dos vasos de guerra daquela nacionalidade, então surtos neste porto. ( ... )
O Sr. Wyndham sabe que, por Decreto de 10 de dezembro do ano próximo passado, o ex-contra-almirante Luiz Philippe Saldanha da Gama foi incluído no número dos revoltosos da armada nacional, então consi
derados desertores, e declarado traidor à pátria, por intentar pelas armas destruir em seus fundamentos a República. Por tais crimes está sujeito às penas da lei militar.
São bem recentes os sucessos que se deram por parte dos rebeldes durante o período de seis meses, causando não só prejuízos às proprieda
des públicas como particulares, mas ainda vitimando a população inerme desta Capital.
Só depois que o Governo Federal dispunha de elementos que davam a certeza da vitória, o Sr. Saldanha da Gama apresentou, por intermédio do Comandante da esquadra portuguesa, uma proposta de capitulação, que não foi nem podia ser aceita.
Na manhã de 13, dia em que aqueles elementos foram postos em ação, os rebeldes, em número de 493, solicitaram e obtiveram refúgio a bordo das corvetas Mindello e Affonso de Albuquerque.
O Sr. Ministro não deixará de considerar que o ato do Comandante Castilho teve lugar em águas territoriais, em um porto fortificado e fe
chado pela esquadra legal na entrada da barra, tornando assim impossível a fuga dos mesmos revoltosos, e que, portanto, constitui um atentado à soberania nacional.
À vista do que deixo exposto, o Sr. Vice-Presidente ordenou-me de
clarar ao Sr. Wyndham que, não reconhecendo soberania oposta à da República no porto da Capital Federal, sente não poder anuir à amigável sugestão do seu Governo e por isso é forçado a insistir na entrega dos mencionados rebeldes.
Tenho a honra de renovar ao Sr. Ministro as seguranças da minha alta consideração.
a) Cassiano do Nascimento [M.R.E.]
In: lbiâ., Anexo n? 1, doc. nQ 42, pp. 57·58.
Nota do Ministério das Relações Exteriores, de 13 de maio de 1894, à Legação de Portugal, sobre Caso de Concessão a Insurgentes (por Ocasião da 'Revolta da Esquadra') de Asilo a Bordo de Navios de Guerra Portugueses:
Ao Sr. Conde de Paraty ,
O Sr. Conde de Paraty, Encarregado de Negócios de Portugal, serviu
se comunicar-me, por nota de 2 do mês próximo passado, que o seu Governo tinha expedido as ordens necessárias para que os insurgentes refugiados a bordo das corvetas Mindello e Affonso de Albuquerque fos
sem desembarcar o mais breve possível em território português, onde, guardados em depósito militar pelas autoridades competentes, seriam im
pedidos de intervir na luta política brasileira.
Não tenho respondido a essa nota, porque o Sr. Vice-Presidente da República julgou necessário aguardar o desenlace da situação criada pela viagem das duas corvetas ao Rio da Prata. S. E. está hoje de posse das informações que dali esperava.
Dos 493 indivíduos que aqui se refugiaram a bordo das duas corve
tas partiram para terra portuguesa, pelo Pedro IlI, somente 239; os outros evadiram-se e com eles o Sr. Saldanha da Gama.
Assim, pois, não obstante as seguranças dadas pelo Sr. Conde e pelo seu Governo, realizou-se o que o Sr. Vice-Presidente previa.
Os rebeldes desembarcaram em terra estranha, e em grande número, não temporariamente para voltarem ao seu refúgio, mas como evadidos, que conservam toda a liberdade de ação e podem, continuando em re
beldia, reunir-se aos seus aliados do Rio Grande do Sul.
Estou certo de que esse fato se deu contra a intenção do Sr. Augusto de Castilho, mas deu-se, sem dúvida, por falta de vigilância e veio agravar o ato da concessão de asilo, que o Sr. Marechal Floriano Peixoto, pelas circunstâncias em que se efetuou, considera como ofensa à soberania na
cional.
A revolta da Esquadra, iniciada neste porto em 6 de setembro do ano próximo passado pelo Sr. Custódio José de Mello e continuada pelo Sr. Saldanha da Gama, terminou, como o Sr. Conde sabe, em 13 de março do corrente ano. Durante esses longos seis meses, primeiro a Esquadra e depois ela e as Fortalezas de Villegaignon e da Ilha das Cobras bombar
dearam diariamente as Fortalezas que se tinham conservado fiéis ao Go
verno legal da República, a cidade de Niterói, capital do Estado do Rio de Janeiro, e freqüentes vezes a Capital Federal, ferindo e matando pes
soas inofensivas e destruindo a propriedade pública e particular. Durante esse longo tempo, não obstante a presença de navios de guerra estrangei
ros, os insurgentes apoderaram-se de navios e carregamentos pertencentes a nacionais e estrangeiros e paralisaram o comércio, causando prejuízos incalculáveis. E o Governo Federal, privado de recursos navais, teve de