5.1 DIREITO DOS ANIMAIS E NECESSIDADES HUMANAS
A história da humanidade certamente não seria a mesma, não fosse a presença na Terra dos animais. Desde os tempos mais remotos, os animais têm contribuído, de alguma forma, para o desenvolvimento do homem. O homem pré-histórico sobreviveu graças aos animais: sua carne era usada como alimento e sua pele como abrigo no frio. Sem os animais, a espécie humana teria perecido.
Depois, pouco a pouco, os seres humanos descobriram outras formas de utilização dos animais. Os equídeos, a exemplo do que ainda hoje ocorre nas áreas rurais, passaram a ser utilizados como meio de transporte e força motriz. Também do sofrimento dos cavalos obtém-se a vacina antiofídica, que salva vidas humanas da morte por envenenamento decorrente de picada de cobras e outros animais peçonhentos. O processo de fabricação do veneno, como relata Edna Cardozo Dias, é tormentoso:
[....] consiste em se injetar veneno de cobra, escorpião ou aranha em cavalos, para a produção de anticorpos. O impacto do veneno é tão forte que ele precisa ser recebido em três dosagens. Os cavalos são amarados em um tronco, sem chances de defesa, e recebem em dias alternados as doses do veneno. Cheios de dor, arrastam-se até o cercadão, onde descansam alguns dias e voltam ao tronco para serem sangrados. Alguns dias de descanso e recomeça o martírio, que só termina com a morte do animal.(DIAS, 2000, p. 234)
As vacas e cabras, por sua vez, fornecem o leite, fonte de vida que alimenta tanto os recém-nascidos, quando as mães não os podem amamentar, como crianças, adolescentes, adultos e idosos. Dessa riquíssima fonte de alimento derivam todos os produtos do gênero laticínio: queijo, manteiga, nata, iogurte, requeijão, etc. Até os seus dejetos são largamente utilizados, quer como adubo natural, quer como componente de argamassa, para a construção de casas de barro, ou mesmo como combustível, para serem queimados depois de secos. Em
muitas regiões, o gado também é utilizado como força motriz para arar a terra, mover moinhos, pilões, etc.
As galinhas, a seu turno, oferecem-nos seus ovos, outra importante fonte de alimento, e também suas penas, para a confecção de travesseiros e acolchoados, que abrigam os humanos nos invernos rigorosos. Até os seus excrementos são adubos naturais bastante eficazes.
Das ovelhas retira-se a lã utilizada na indústria do vestuário. As abelhas nos presenteiam com o seu néctar - o mel – além do própolis, poderosíssimo antibiótico natural, e a cera. Do bicho da seda obtém-se os fios para a confecção desse finíssimo tecido. Na Tailândia, os elefantes transportam toras de madeira há anos.
Os cães, além de guardarem a propriedade contra intrusos, sejam eles humanos ou animais, são, sem dúvida os melhores amigos do homem: auxiliam na locomoção de pessoas deficientes físicas e visuais; na busca e salvamento de pessoas perdidas ou soterradas em avalanches e terremotos. São, ainda, reconhecidamente grandes pastores. Devido à sua grande capacidade olfativa, os cães atualmente têm sido utilizados até mesmo para detectar o transporte de drogas e de material explosivo.
Os gatos, a par da companhia que proporcionam aos humanos, afastam das casas os roedores, grandes transmissores de doenças. A eliminação da população felina provoca um desequilíbrio, infestando as cidades de doenças transmitidas pelos ratos, como a leptospirose.
Os pássaros deleitam-nos com sua beleza e seu cantar, mas também, a exemplo de alguns insetos, são semeadores e polinizadores, contribuindo para a preservação do meio ambiente, que o homem insiste em depredar.
Apesar de toda a contribuição que os animais trazem e já trouxeram ao desenvolvimento da civilização, o ser humano tem sido capaz de atraiçoá-los maltratando-os, mutilando-os, usando-os para testar produtos químicos, biológicos, e atualmente até implantando genes modificados, para testar seus resultados.
Mister se faz que a humanidade se conscientize de que não é dona do planeta, mas apenas uma das milhares de espécies nele existentes e que, por isso, deve viver em comunhão com os outros seres vivos. As outras espécies vivas já existiam na face da Terra antes de o homem surgir e certamente muitos outros continuarão a existir, depois que a raça humana for extinta.
Abaixo, abordamos duas realidades onde os direitos dos animais são bastante aviltados.
a) Expansão da criação de gado X desmatamento da Amazônia: como fica o direito animal diante desse impasse?
A pecuária se destaca no cenário ambiental por representar fonte de grande preocupação entre ambientalistas e defensores do direito animal. Para àqueles, em função da crescente pressão por novas fronteiras agrícolas que ameaçam áreas da floresta amazônica, para estes por representar o símbolo máximo de exploração animal, que, com o crescimento da demanda mundial, tende a utilizar-se de novas técnicas de criação ainda mais cruéis.
A pecuária extensiva bovina, numa perspectiva do antropocentrismo alargado, não atende aos postulados dos Princípios de Direito Ambiental (meio ambiente equilibrado, precaução, prevenção, poluidor-pagador), por isso, a pecuária intensiva é uma forma alternativa de adequação da atividade a esses princípios.
A pecuária intensiva bovina, porém, será viável apenas sob a ótica restrita da mitigação dos impactos ambientais, pautada no interesse humano em continuar a consumir carne, pois se considerarmos o bem-estar animal, esta técnica produtiva deverá ser extirpada do agronegócio brasileiro.
Assim, surge o Bem-estar Animal como via adequada (intermediária) entre os dois extremos interpretativos do antropocentrismo (Direito Ambiental) e biocentrismo (Abolicionismo Animal). No entanto, o Bem-estarismo Animal tende a legitimar a exploração dos animais não humanos, representando último suspiro ideológico para continuidade da produção de carne para consumo humano.
Sob a égide do Abolicionismo Animal, considerando-se a vedação de práticas cruéis (art. 225, §1º, inciso VII da Constituição Federal) e do compromisso moral para com os animais, a pecuária bovina (seja extensiva ou intensiva) jamais poderá ser admitida.
b) Uso de animais na pesquisa biológica
Os testes realizados em animais são uma das maiores causas de revolta dos protetores dos animais na sociedade atual.
O grande questionamento a respeito dos testes realizados em animais é sua real necessidade, já que nem sempre as reações observadas no organismo animal correspondem às reações do organismo humano. A dúvida sobre a validade dos testes está também relacionada à questão da ética. Que direito temos nós de utilizar os animais como objetos, causando-lhes sofrimento, medo e dor?
Atualmente, alternativas vem sendo buscadas para evitar o uso de animais. Uma das possibilidades é o cultivo de tecidos animais in vitro, que permitem a observação de toxidade nas células.
Como consumidores, muitas as pessoas vêm travando uma luta silenciosa, evitando as empresas que testam seus produtos em animais e escolhendo produtos livres de crueldade.