Imediata e ciclicamente, após a II Guerra Mundial, têm sido suscitados conflitos internacionais, na generalidade por via diplomática mas com demonstrações de força militar, provocados pela disputa e reivindicação de ilhas ou pequenos arquipélagos. As tensões têm sido mais agudas no Oceano Pacífico, nas águas internacionais das regiões vizinhas da China, da Formosa, do Japão, das Coreias e da Rússia oriental. Mas trata-se também da defesa de hipotéticos direitos históricos, de (sobretudo) interesses económicos ou de defesa e segurança militares
Frequentemente trata-se da delimitação de águas territoriais de países geograficamente muito próximos mas de claro distanciamento político.
121 RIBEIRO, Marta Chantal –Os limites resultantes do regime europeu da conservação dos recursos
Os direitos históricos são, com maior frequência, invocados pelos países, mas potenciais interesses económicos que poderão vir a beneficiar do melhor conhecimento científico das plataformas marítimas poderão estar subjacentes nas reivindicações.
A disputa diplomática, com a invocação do Direito Internacional (Marítimo) e de razões de ordem científica, tem prevalecido, mas em alguns casos, nomeadamente nas águas da Ásia-Pacífico por vezes chega-se à ameaça militar, com a presença e patrulhamento de navios de guerra e da Força Aérea.
Nos conflitos diplomáticos em que o potencial contencioso tem sido tratado no âmbito do Direito Internacional, cito os casos do arquipélago de S. Pedro e S. Paulo (Brasil), a ilha Heard e as ilhas McDonald (Austrália), as ilhas Serpente (Ucrânia), as ilhas Howland e Baker (EUA), a ilha Clippereton (França), as mediatizadas ilhas do círculo exterior do arquipélago do Japão. Também as ilhas Sacalina (Rússia – Japão), ocasionalmente voltam às páginas dos jornais. O arquipélago das Malvinas/Falklands, que foi palco de uma violenta confrontação militar, nos anos 80, entre a Argentina e o Reino Unido, é governado pelo Reino Unido mas a Argentina mantem as reivindicações.
Na disputa das ilhas Senkaku, a China, em 2012, entrou nas respectivas águas com cerca de 60 barcos de pesca, enquanto o Japão criava uma barreira defensiva com 30 navios. Por sua vez, a China protegia os seus barcos de pesca com a presença de corvetas e submarinos. Os EUA declararam não interferir, mas acrescentaram não permitir o bloqueio dos seus navios mercantes, reivindicando a passagem pacífica dos mesmos, conforme a lei internacional.
Boa parte das ilhas que são objecto de situações de conflito político, militar e económico não passam de ilhotas, recifes, rochedos e atóis desertos e de pequena superfície. Spratly, por exemplo é um conjunto de 750 ilhotas desertas, somando uma superfície de 5 kms2, dispersas por 425 mil kms2 de oceano. Para quem sobrevoa o Pacífico, entre o Camboja e as Filipinas (país que têm cerca de 7.000 ilhas) deparam-se, no meio do imenso oceano azul, ilhotas circulares de brancura de corais.
Recorde-se que no Mar do Sul da China, entre o conjunto Japão – China -- Coreias e a Península da Indochina, a Malásia, a Indonésia e Singapura, transita mais de um terço do comércio marítimo internacional. É a chamada auto--estrada marítima da Ásia -- Pacífico.
Tudo isto é agravado pela enorme presença de petroleiros e porta-contentores; existência actual e, porventura, futura, de plataformas petrolíferas e gasodutos; disputa
de áreas se soberania; existência de bases militares e navais de vários países; e localização da 7ª Frota Americana na Ásia Oriental.
Um parêntesis: ao escrever estas linhas ocorreram-me as palavras (“Marília de Dirceu”, 1792) do poeta luso-brasileiro, Tomás António Gonzaga, que nasceu em Miragaia, na Ribeira do Porto, no século XVIII -- está lá a lápide, em frente à Alfândega -- e que assim sintetizo: “Alexandre, Marília …”. Alexandre era o “Grande”, que se apoderara do mundo de então, desde a Grécia ao Egipto e à Índia, e por isso foi Imperador. Porque se se tivesse limitado a um pequeno roubo seria estigmatizado e condenado como ladrão, e certamente não ficaria para História. Mas passemos adiante.
O Direito do Mar também tem estado nas agendas governamentais e científicas de Portugal e Espanha, a propósito das ilhas Selvagens. Ilhas que, situadas no Atlântico, a 280 Kms. da Madeira e a 165 kms. das Canárias, integram a zona de segurança do Estreito de Gibraltar, sendo constituídas por dois pequenos grupos de origem vulcânica, a Selvagem Grande e a Selvagem Pequena e o ilhéu de Fora. Na ilha Grande, onde estão vigilantes do Parque Natural da Madeira, existe uma casa-alojamento, um farol, cisternas para recolha de água e uma rampa para acostagem de pequenos barcos. A soberania de Portugal em relação às Selvagens não é contestada pela Espanha, mas esta recusa, perante a Organização das Nações Unidas (ONU), que Portugal possa ter ali uma Zona Económica Exclusiva (ZEE), com 350 milhas a partir da costa. O Governo de Madrid declarou à ONU que apenas aceita que a zona seja declarado mar territorial, o que obrigaria Portugal a reduzir a sua zona para apenas 12 milhas.
A posição da Espanha, dada a conhecer à ONU por via diplomática, foi encaminhada para a Divisão de Assuntos Oceânicos e do Direito do Mar das Nações Unidas.
A divergência tem a ver com a classificação das Selvagens que, no conceito de Portugal, são ilhas e no de Espanha, que as classifica como rochedos, não tendo condições para habitabilidade humana. Face ao Direito Internacional há ilhas quando garantem condições para habitabilidade e vida económica, e quando têm capacidade de armazenamento e utilização de água fresca, tendo possibilidade de manter uma comunidade mínima de 50 pessoas.
Entre os argumentos, de resposta, de Portugal, afirma-se que se as ilhas não têm vida económica é porque, desde 1973, foram consideradas Reserva Natural, integrando o Parque Natural da Madeira, o que implica um estatuto de preservação. Nas ilhas vivem, por períodos curtos e em rotação, vigilantes da natureza, sendo condicionada a visita de turistas (900 turistas e cientistas, em 2012).
Nas ilhas foram desenvolvidos 17 projectos científicos, suscitando 22 artigos científicos publicados em revistas científicas.
Até ao final dos anos (19)50 as ilhas, recorda Luísa Meireles122, eram “visitadas por
pescadores da Madeira, que caçavam as famosas cagarrras que ali fazem santuário. A sua carne era, até ao final dos anos 50, a principal fonte de proteínas dos madeirenses, enquanto as penas eram usadas para fazer colchões”. As cagarras são hoje, em 2014, uma espécie em vias de extinção, sendo a colónia existente nas Selvagens a de maior densidade em todo o mundo.
A posição da Espanha já vem, também, de 1978, tendo então protestado quando foi publicado o decreto que fixou a ZEE portuguesa.
Segundo Fátima de Castro Moreira,123 “é irrelevante o estatuto de ilhas ou rochedos” porque, segundo dossiê apresentado à ONU, a “extensão da PC foi efectuada com base no prolongamento natural da ilha da Madeira e não no das ilhas Selvagens”. Mas se o estatuto de ilhas ou rochedos, nas Selvagens, “é perfeitamente irrelevante (…) no entanto tal estatuto poderá vir a ser relevante, por exemplo, para a delimitação da ZEE” (Castro Moreira).
Para marcarem publicamente a soberania política de Portugal em relação às Selvagens, o ministro da República para a Madeira, Lino Miguel, visitou as ilhas em 1987, fazendo o mesmo, os presidentes da República, Mário Soares (em 1991), Jorge Sampaio (em 2003, acompanhado pelo presidente do Governo da Madeira, Alberto João Jardim) e Cavaco Silva (em 2013).
Nestas visitas houve objectivos comuns: reafirmar a soberania nacional; assinalar a importância científica, ambiental e estratégica do arquipélago; e, no caso da visita de 2013, assinalar o 50º aniversário (1963) da primeira expedição científica às Selvagens. Com estas visitas pretendia-se, politicamente, valorizar a investigação científica, relevando a importância do mar e do património natural.
Para além da núvem de revindicações políticas e históricas qual é a importância e riqueza económica das Selvagens? Socorri-me de um trabalho de síntese publicado por Virgílio Azevedo124, trabalho de síntese que teve por fonte a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC).
122 MEIRELES, Luísa – Expresso, 7/9/2013, p.11.
123 MOREIRA, Fátima de Castro – Notas de Direito Internacional a propósito das Ilhas Selvagens.
Mestre em Direito Internacional Público e doutoranda em Direito do Mar. Universidade Católica, Lisboa. 2013.
Esta fonte inclui uma infografia onde são apresentados os Limites e os Recursos Minerais da PCP.
A primeira expedição científica organizada que se deslocou às Ilhas Selvagens data de Julho de 1963. Incluiu um pequeno número de cientistas ingleses, belgas e franceses e portugueses, que observaram espécies nidificantes e recolheram uma colecção geológica e também espécies botânicas.
A partir de 1971, as Selvagens tornaram-se a mais antiga Reserva Natural do país. O navio hidrográfico “Gago Coutinho” iniciou em 2011 o levantamento da biodiversidade das Ilhas, no âmbito do programa Marbis, com utilização do robô submarino ROV.
A EMEPC é “ambiciosa” na enumeração das vantagens das Selvagens: grande biodiversidade em terra e no mar; espécies desconhecidas; recursos pesqueiros abundantes; numerosos organismos marinhos com interesse para indústria da biotecnologia; minerais metálicos no fundo do mar; investigação científica; turismo náutico e posição geoestratégica.
A informação existente, concreta, é tida como escassa mas o Ministério da Agricultura, Ordenamento e Mar considera “fortemente expectável a existência de crostas ferromagnesíferas, tipicamente ricas em cobalto, níquel e cobre”.
No que diz respeito a recursos vivos a EMEPC, na campanha de 2010, “identificou 20 novas espécies a 600 metros de profundidade e registou 100 espécies marinhas cuja presença na zona era até então desconhecida”.
Nos recursos pesqueiros são abundantes peixes como a garoupa, o sargo, a tainha, a boga, o atum e o peixe-espada preto.
Considera o MAM que “nos ecossistemas submarinos os organismos que aí se desenvolvem são verdadeiro manancial ecológico, científico e económico, com recifes, tapetes de algas calcárias e jardins de esponjas e de corais”.