3.2 Esfera pública em Habermas
3.2.3 Direito e Democracia – 1992
Diante da constatação de que a obra Teoria do Agir Comunicativo não forneceu um modelo de análise robusto para explicar como a esfera pública poderia assumir um papel mais ofensivo vis-à-vis o Estado burocrático (FLYNN, 2014) é que Direito e Democracia se torna mais relevante.
Os entraves encontrados na obra Teoria da Ação Comunicativa levam Habermas a repensar a relação entre sistema e mundo da vida. Diante da perspectiva de sitiamento, Habermas pretende agora encontrar um duplo fluxo entre sistema e mundo da vida (LUBENOW, 2010).
Na obra “Direito e Democracia” Habermas confere a esfera pública um papel mais relevante, na tentativa de superar a perspectiva de sitiamento. A questão central aqui é como repolitizar a esfera pública. A esfera pública é
rediscutida sob a perspectiva da redescoberta da sociedade civil (LUBENOW, 2007, 2012b). Essa redescoberta está relacionada com estudos e observações sobre o avanço da sociedade civil em relação ao Estado, o crescimento de organizações e associações da sociedade civil e, consequentemente, o fortalecimento de uma esfera pública autônoma em relação ao Estado (LUBENOW, 2012b). Portanto, essas novas experiências democráticas e a nova dinâmica política foram essenciais para se repensar a politização da esfera pública.
Agora, o conceito de sociedade civil já não remete mais àquele, a saber, o que identificava sociedade burguesa como sendo a sociedade civil em geral. O novo significado corrente de sociedade civil remete às associações informais formadoras de opinião e da vontade, tais como associações culturais, de leitura e de debate, igrejas, instituições alternativas, entre outras. Esferas públicas autônomas, que não fazem parte do sistema político-administrativo, mas que articulam e organizam influência política por meios públicos de comunicação, participação e deliberação, contribuindo, assim, para a tematização, discussão pública e tomada de decisões (LUBENOW, 2012b, p. 202).
Aliada à redescoberta da sociedade civil, a categoria esfera pública é agora pensada dentro do modelo de circulação de poder de Bernhard Peters, o qual
[...] organiza os atores políticos e sociais em um eixo composto de um centro e vários anéis periféricos No centro estariam os complexos institucionais formais, como parlamentos, cortes, agências administrativas responsáveis pelas decisões legislativas e judiciárias, pela formulação de programas políticos, regras, medidas administrativas, decretos etc. [...] Próximas ao núcleo administrativo estariam esferas autonomamente organizadas, mas intrinsecamente ligadas ao governo (universidades, câmaras, associações beneficentes, fundações etc.). [...] Em um terceiro nível, estariam organizações que preenchem funções de coordenação em domínios sociais carentes de regulação (grupos de interesses, instituições culturais, grupos de ativistas ambientais, igrejas etc.) (MARQUES, 2008, p. 25).
Baseado no modelo de circulação de poder, a esfera pública é agora redefinida dentro de um modelo de eclusas. Nesse sentido, os processos de decisão do sistema político estão ancorados no mundo da vida por uma abertura estrutural, que são as eclusas (LUBENOW, 2010, 2012b). Essa abertura estrutural é “permitida por uma esfera pública sensível, permeável, capaz de introduzir no sistema político os conflitos existentes na periferia” (LUBENOW, 2012b, p. 204). Nessa mesma linha, Silva (2001, p. 127) salienta que “Habermas defende agora que o estado é influenciado, de modo indireto (legitimação) pela esfera pública, sendo já, não um produtor de opacidade, mas um potencial produtor de transparência.”.
Habermas observa, então, um processo de normatização “que se inicia pela formação da opinião e da vontade nas esferas públicas informais, acaba desaguando, pelo caminho procedimental, nas instâncias formais de deliberação e decisão” (LUBENOW, 2010, p.203). Essa institucionalização da opinião pública está ancorada em um conceito de democracia procedimental e deliberativa. “A esfera pública é a categoria normativa chave do processo deliberativo” (LUBENOW, 2007, p. 112).
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1981: Tese da colonização interna do mundo da vida:
Sistema político (coloniza) Mundo da vida Pressupostos:
(Produtos de opacidade) (Transparência desaparece) 1992: Relação entre a esfera pública e o sistema político:
Sistema político (influencia) Mundo da vida (esfera pública) Pressupostos:
(Opacidade desaparece) (Produtor de transparência)
Figura 6: Relações entre sistema político e mundo da vida Fonte: Silva (2001, p. 132).
Visto dessa forma, a esfera pública é o núcleo da democracia deliberativa na vertente habermasiana - permitindo a discussão sobre a democracia e as formas de gestão do Estado e de organizações da sociedade civil.
Habermas (2003) considera que da forma como a esfera pública foi tratada por ele até então, como estrutura comunicacional enraizada no mundo da vida através da sociedade civil, ela se configura, na verdade, como “um sistema de alarme dotado de sensores não especializados, porém, sensíveis no âmbito de toda a sociedade” (Habermas, 2003, p. 91). Assim, no contexto da teoria democrática, Habermas (2003, p. 91) considera que
[...] a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas, ou seja, ela não pode limitar-se a percebê- las e a identificá-las, devendo, além disso, dramatizá-las de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar.
Levando em conta essas considerações, Habermas (2003, p. 92) define esfera pública como:
Uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomados de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se considerarem em opiniões públicas enfeixadas em termos específicos.
Assim, pode-se considerar que “Esfera Pública” apresenta as seguintes características: é um fenômeno social; não pode ser entendida como uma instituição ou organização; não constitui um sistema; é possível delinear seus limites internos, mas externamente, se caracteriza pelos horizontes abertos, permeáveis e deslocáveis; reproduz-se por meio do agir comunicativo; está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa cotidiana; deixa ao cargo do sistema político a elaboração especializada; constitui uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento; a generalização da esfera pública é possível por meio da mídia e da internet; opinião pública que
forma a esfera pública não constitui um agregado de opiniões individuais pesquisadas uma a uma ou manifestadas provadamente (não pode ser confundida como Pesquisa de Opinião); na esfera pública luta-se por influência.