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1.5 REVISÃO TEÓRICA

1.5.5 Direito e Interdisciplinaridade

Na busca de uma perspectiva mais abrangente para compreender algumas das crises do Direito, a exemplo do vertiginoso crescimento do número de normas ditas ambientas, dos questionamentos da sua legitimidade, aliados às questões relativas a sua efetividade, lança-se mão de um método mais amplo que permita ir além das conclusões reiteradamente apontadas no âmbito jurídico.

Tendo o Direito como um fenômeno social a problemática deste estudo passa também pela análise da questão da eficácia social do Direito Ambiental. A

investigação desta problemática pressupõe uma postura interdisciplinar. Para tanto convém analisar as possibilidades de diálogo do Direito com outros campos do saber.

Para Raynaut os objetos e assuntos de pesquisa interdisciplinar requerem uma relação com o mundo diferente, ou seja, que não se satisfaz em trabalhar com um segmento isolado. O autor denomina estes objetos, ou assuntos como ‘híbridos’, pois “são geralmente reconhecidos a partir de uma posição social que obriga a considerar a realidade tal como se apresenta na experiência comum, ou seja, como um conjunto de relações que não pode ser reduzido a priori ao recorte instituído pelas disciplinas” (2004, p. 26).

De acordo com Baptista

o Direito precisa analisar e (re) pensar as suas práticas e, para tanto, precisa se abrir às contribuições de outras áreas do conhecimento, sob pena de, por se fechar demais, não conseguir dar conta dos seus próprios institutos e, por conseguinte, dos seus problemas, dos seus paradoxos e das suas crises ( 2006, p. 1007).

Ao discutirem a configuração dos conflitos jurídicos-ambientais atuais, Cavedon e Vieira apontam que a “abordagem das questões ambientais e o seu tratamento pelo Direito exigem mais do que a lógica jurídica tradicional, fazendo-se necessário analisá-las a partir do seu contexto social, econômico, político e cultural e das inter-relações entre estes fatores e destes com o meio ambiente” (2007, p. 2).

Assim, ao investigar os problemas afetos ao Direito, ainda que se considere primeiro o contexto jurídico, há que se ampliar o foco de observação. Em outras palavras, há que se buscar a superação do paradigma da simplicidade. Edgar Morin nos leva a refletir sobre a insuficiência do saber fragmentado, desconectado dos demais campos do saber ao afirmar que “a consciência da multifuncionalidade nos conduz a ideia de que toda visão unidimensional, toada visão especializada, parcelada, é pobre” (2005, p. 69).

Buscando superar a perspectiva unidimensional, e a fim de se apropriar das contribuições da epistemologia e da sociologia há que se investigar também a partir destes campos do conhecimento como se dá a construção da ordem legal ambiental a que estamos submetidos. Para isso busca-se, além da epistemologia jurídica, contribuições da sociologia ambiental, da sociologia rural e da linguística que permitam ampliar a análise do problema.

Preliminarmente é necessário dizer que como ciência o Direito também se submete aos princípios do paradigma cartesiano/newtoniano. Enquanto Descartes nos dá os instrumentos, Newton apresenta-nos uma visão mecânica do mundo (MORIN, 2005). Esse modelo simplificador, embora tenha permitido o avanço da ciência, tem se mostrado insuficiente, especialmente quando nossa inquietação decorre dos fenômenos relativos à sociedade na qual estamos inseridos.

Nas palavras de Tercio Sampaio Ferraz Jr, o objeto da ciência dogmática do direito é o direito posto, o conjunto de normas, instituições e decisões que lhe compete sistematizar, interpretar e direcionar tendo em vista a solução dos conflitos que ocorram na sociedade. O direito ciência é, pois constituído de teorias sobre os ordenamentos vigentes e suas exigências práticas (2003, p. 81).

Em sua crítica ao positivismo Chaim Perelman (1996, p. 397) analisa que este, “ao conceder seus favores a uma epistemologia que favorece, em todas as circunstâncias, o método científico e despreza todo o resto, acaba chegando por esta razão a uma ontologia que retém unicamente os aspectos do real que os métodos das ciências positivas permitem reconhecer”.

Michel Maielli, por sua vez, em sua análise dos obstáculos epistemológicos a constituição de uma ciência jurídica, assinala que a especialização e as compartimentações funcionam como obstáculos invisíveis, pois o próprio investigador não se dá conta deles. Além disso, a atitude positivista no estudo do Direito que consiste no conhecimento extraído da experiência, ou seja, da observação que pretende ser neutra, constitui outro obstáculo epistemológico extremamente grave.

Para o autor uma postura positivista permite apenas confirmar e reforçar as ideias do senso comum, pois os institutos jurídicos são tomados pelo que eles são, ou melhor, pelo que eles parecem ser. Afirma ainda que a ideia de transparência do objeto de estudo é que deve ser questionada e deve-se “aceitar que as coisas são mais complexas do que aquilo que a observação deixa ‘ver’” (2005, p. 42-45).

Ainda conforme Miaille (2005) o positivismo jurídico é caracterizado pela crença na experiência. A ciência jurídica, só é ciência enquanto experiência empírica. O cientista desta área se atém ao exame dos institutos jurídicos como o casamento, o contrato, a personalidade jurídica, adstringindo-se ao que pode ver concretamente. A crítica proposta a este modelo questiona a existência destes institutos. A que servem? Como se constituíram desta forma como aparecem nos

códigos? Pretende ir além, pois não se limita a um exame dos efeitos da lei na sociedade. Cabe questionar, portanto, porque neste momento histórico estes institutos se cristalizaram e foram parar na legislação positiva.

Para superar o modelo positivista no estudo jurídico o autor propõe, com base na teoria da produção da vida social abordada por Marx, que não devemos

contentarmo-nos com a habilidade de que o direito está sempre ligado à existência da sociedade: uma reflexão científica tem de ir mais longe e dizer-nos que tipo de direito produz tal tipo de sociedade e porque é que esse direito corresponde a essa sociedade (2005, p.68).

Com este espírito a abordagem do problema desta pesquisa pretende contribuir com a discussão sobre a efetividade da legislação ambiental. Objetiva-se inferir sobre o processo de construção da norma, sua legitimidade e eficácia social, tomando como unidade real, primeiro o processo histórico de construção da Lei 9.605/98 e num segundo momento apresentar um estudo que contemplou os efeitos da lei no âmbito rural, tendo como amostra um grupo de agricultores do município de Pato Branco/PR.

2 ANÁLISE DA LEI 9.605/98