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DIREITO E MOVIMENTOS POPULARES: CONVERGÊNCIAS E PROBLEMAS

No documento Curitiba 2014 (páginas 34-38)

1. MOVIMENTOS POPULARES: QUESTÕES PRELIMINARES

1.2. DIREITO E MOVIMENTOS POPULARES: CONVERGÊNCIAS E PROBLEMAS

Independentemente da conceituação que se adote sobre os movimentos populares, há uma vasta literatura sobre o tema e alguma produção teórica em termos de pesquisa jurídica.

Quanto à sociologia dos movimentos sociais, acreditamos que não seja o caso resenhar a bibliografia pertinente, uma vez que já realizamos parte desta tarefa em outro momento.9 Por

9 Referimo-nos à nossa dissertação de mestrado: PAZELLO, Ricardo Prestes. A produção da vida e o poder dual do pluralismo jurídico insurgente: ensaio para uma teoria de libertação dos movimentos populares no

choro-outro lado, quanto à produção interna ao campo do direito, entendemos que seja suficiente indicar alguns dos caminhos seguidos pelos pesquisadores, a fim de nos localizarmos neste debate.

Ainda que não possamos nos aprofundar sobre a “problemática”, estamos certos da necessidade de uma vigilância epistêmica quanto a “determinar se o direito e a pesquisa jurídica distinguem a realidade quanto ao que ela é e quanto ao que dela se afirma”,10 à qual se refere Ricardo Nery Falbo. Não temos condições, nesta pesquisa, de realizar uma descrição empirista (que, até certo ponto, seria produtiva, devido a seu déficit no campo jurídico) do

“objeto real” que nos propomos a debater. Sendo assim, fica mais evidente nossa preocupação com um “objeto teórico” cujo significado processual se desdobrará no contexto das relações entre direito e movimentos populares. E mesmo não realizando, para continuar usando o léxico de Falbo, “análises conjunturais” específicas (a começar pelo contexto de economia globalizada no qual vivemos, sob a tônica de uma macroeconomia neoliberal em que o poder estatal perde força, a participação política se rarefaz e o mundo jurídico sofre abalos tais a ponto de tornar-se, sem nenhum enxavimento, “a economia o parâmtro para as decisões políticas e jurídicas”11) atentamos para o fato de que nosso caminho teórico levará a uma problemática conjuntural, qual seja, a de resgatar a crítica jurídica marxista desde uma

“conjuntura” latino-americana, desenrolando-se na noção de direito insurgente. Entendemos que nossa abordagem inova (o que até justifica a tese) na medida deste desenrolar, em que congregamos a crítica marxista ao direito e a perspectiva marxista latino-americana, assim como a crítica jurídica latino-americana e brasileira e alguns temas produzidos na seara da relação entre direito e marxismo. Nossa proposta de direito insurgente, portanto e neste senso, é conjuntural.

Pois bem, desde as primeiras teorizações da crítica jurídica os movimentos sociais tornaram-se presentes no discurso progressista do direito na América Latina (neste caso, remetemos especialmente para o capítulo 5 desta tese). Não obstante, apenas na década de 1990 ficou evidenciada uma relativa autonomização do debate, ganhando especificidade como objeto de investigações. Afora alguns precedentes havidos em torno, por exemplo, dos debates do pluralismo jurídico (de Boaventura de Sousa Santos, Roberto Lyra Filho e outros) ou do direito alternativo (que se tornou um movimento de juristas progressistas em fins da

canção latino-americano. Florianópolis: Curso de Pós-Graduação (Mestrado) em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, 2010, p. 293 e seguintes.

10 FALBO, Ricardo Nery. “Reflexões epistemológicas sobre o direito e a prática da pesquisa”. Em: Revista direito e práxis. Rio de Janeiro: UERJ, v. 2, n. 3, 2011, p. 226.

11 LIMA, Abili Lázaro Castro de. Globalização econômica, política e direito: análise das mazelas causadas no plano político-jurídico. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2002, p. 314.

década de 1980 e início da de 1990), a relação entre direito e movimentos sociais passou a ser relacionar direito e movimentos populares, mas, como dissemos, localizar nossa perspectiva nesse debate. Mais recentemente, inclusive, novos estudos vêm aparecendo, enfocando preocupações mais gerais15 ou mais particulares,16 e até mesmo questões de ordem epistêmica17 ou ainda mais práticas.18

Entendemos que, no geral, há uma temática que sempre aparece nesses estudos, que é a da “criminalização” dos movimentos sociais. Assim, este é o ponto de convergência teórico-prático que mobiliza os pesquisadores da relação entre direito e movimentos. Esta convergência realiza-se quase sempre em termos de denúncia do aparato do estado no que tange à repressão ou marginalização dos movimentos populares. Portanto, o direito se apresenta sempre que o poder de polícia aparece, e o judiciário costuma ser o local preferencial desses estudos. Ao mesmo tempo, vige uma certa posição idealizadora dos mesmos movimentos, o que tem suas justificativas no ímpeto de lhes reconhecer legitimidade como sujeitos de direito.

A nosso ver, entretanto, é exatamente este o problema que a maior parte dos estudos, salvo algumas exceções, ocasiona. Independentemente de se valerem ou não da ênfase na criminalização aos movimentos sociais, eles irrompem por uma seara que desconsidera as disjuntivas constitutivas do fenômeno. Considerar as disjuntivas, porém, implica lançar mão

12 Ver SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. “Movimentos sociais – emergência de novos sujeitos: o sujeito coletivo de direito”. Em: ARRUDA JÚNIOR, Edmundo Lima de (org.). Lições de direito alternativo. São Paulo:

Acadêmica, 1991, p. 131-142.

13 Conferir PINTO, João Batista Moreira. Direito e novos movimentos sociais. São Paulo: Acadêmica, 1992.

14 Consultar FARIA, José Eduardo. Justiça e conflito: os juízes em face dos novos movimentos sociais. 2 ed. rev.

e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992.

15 Ver a coletânea de artigos reunida em HERKENHOFF, João Baptista. Movimentos sociais e direito. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004.

16 Ver a problematização do conceito de cidadania, em leitura jurídica, a partir dos movimentos urbanos de luta por moradia, em BELLO, Enzo. Teoria dialética da cidadania: política e direito na atuação dos movimentos sociais urbanos de ocupação na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação (Doutorado) em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2011.

17 É o caso da aplicação da “teoria dos sistemas” na relação entre direito e movimentos sociais: CAMPILONGO, Celso Fernandes. Interpretação do direito e movimentos sociais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

18 Conferir a publicação em que se disponibiliza material processual referente a um caso de criminalização de movimentos sociais, em FON FILHO, Aton (org.). Repressão aos movimentos sociais – habeas corpus – fatos, feitos e resultados. São Paulo: Expressão Popular; Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, 2010.

de um itinerário de explicações em que não é suficiente uma noção pressuposta de direito. E mais: sequer a crítica jurídica “tradicional” colabora para essa superação, já que continua polarizando-se a partir do debate clássico entre naturalismo e positivismo jurídico (no máximo, aparecem o pós-positivismo ou decisionismo). E mesmo que venham a se aventurar por outras teorias, o direito como norma ou faculdade acaba prevalecendo.

Esta predominância teórica só pode ser desfeita se o direito for visto de maneira relacional e específica, como forma jurídica, assim como os movimentos populares representam relações e aparecem como uma forma própria da modernidade capitalista. Nessa medida, a crítica marxista ao direito precisa ser reenvidada. Por outro lado, esta mesma crítica não deve descolar-se da realidade mais concreta na qual estamos inseridos, daí nossa insistência em uma mirada descolonial do poder. A superação – mais à frente diremos:

extinção – do direito passa pela transformação radical das relações sociais que o tornam possível e hegemônico. Esta mudança qualitativa não é passível de realização por mero ato volitivo dos homens em sociedade. Mas isso não implica que a luta política não jogue um papel central. Daí fazer sentido a reflexão que procuramos empreender aqui: a partir de uma preocupação geopolítica, enredar a análise crítica do direito, que o fere de morte, a um seu uso político, tendo por plano maior a insurgência.19 Subordinada a uma crítica insurgente, a relação entre direito e movimentos populares dá vez ao antinormativismo jurídico como fundamento que não se antitetiza a um uso tático do direito. Este é todo o caminho que seguiremos a partir de agora. O primeiro e próximo passo é referente a nosso ponto de partida geopolítico, para, a partir dele, adentrarmos na crítica marxista ao direito até que cheguemos ao direito insurgente.

19 Iniciamos este novo passo de nossa proposta já em PAZELLO, R. P.; GUTERRES, José Augusto. “Os atos de desobediência civil do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra - MST: direito à insurgência e direito insurgente”. Em: Prisma Jurídico. São Paulo: UNINOVE, v. 10, n. 2, julho-dezembro de 2011, p. 321-348.

No documento Curitiba 2014 (páginas 34-38)