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direito, Homem e bem comum: As primeirAs linHAs de umA

possí-vel reescritA do estAdo

lAW, HumAn rigHts And tHe common good: tHe first lines of A possible reWriting of tHe stAte

Guilherme Camargo Massaú1 Leonardo de Camargo Subtil2

1Doutor em Direito Público pela Universi-dade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Mestre em Direito pela Universidade de Coimbra. Professor no Programa de Pós--Graduação em Política Social (Mestrado) e da Graduação em Direito da Universidade Católica de Pelotas.

2Mestre em Direito Público pela Universida-de do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Atua como advogado.

Endereço:

Rua Claudemiro Bachini, nº 219 Areal

Pelotas - RS Cep: 96077-580

E-mail: [email protected]

palavras-chave: Estado; direitos huma-nos; república; soberania.

Key-words: State; human rights; repu-blic; sovereignty.

resumo:

A reescrita do Estado baseia-se no estímulo para se repensar o ente estatal a fim de adaptá-lo às no-vas e imediatas exigências contemporâneas. Essa reescrita visa conferir às instituições estatais uma dinâmica apropriada com o intuito ainda de en-frentar as novas exigências do mundo da vida an-tes de estabelecer a extinção ou inviabilidade do Estado. Pretende-se, desse modo, demonstrar que a resposta positiva não está na violência temerária da imposição, mas na força segura e envolvente da discussão democrática, formada pelo processo dialético das opiniões divergentes e do resultado consensual da ideia de bem comum, impregnado no Homem como valor máximo do mundo.

Abstract:

The rewriting of the State is based on the incentive to rethink the state entity in order to adapt it to new and immediate demands of today. This rewri-ting is intended to provide an appropriate dynamic to state institutions, in order to meet the new de-mands of the living world before establishing the termination or non-viability of the state. The aim is thus to demonstrate that the positive response is not reckless violence of the charge, but on the strength of safe and engaging discussion on demo-cracy, formed by the dialectical process of diver-gent opinions and the resulted consensus of the idea of common good, saturated in humans as the maximum value of the world.

70 71 Guilherme Camargo Massaú e Leonardo de Camargo Subtil

São Camilo - ES

Cadernos Camilliani, Cachoeiro de Itapemirim - ES, v. 13, n. 1, p. 69-80, jan./abr. 2012.

1. introdução

A reescrita1 do Estado tem como finalida-de repensar o ente estatal a fim finalida-de adaptá--lo às novas e imediatas exigências contem-porâneas, advindas de inúmeras direções

— local, nacional e global —, sem desprezar aquelas emergentes dos indivíduos.

Antes de estabelecer a extinção ou in-viabilidade do Estado, cabe questionar seu sentido, sua função e sua condição de as-sumir novos compromissos, ou seja, de re-orientar sua estrutura e seus mecanismos para oportunizar condições de efetivar a dignidade humana. O Estado deve se cons-tituir num instrumento com o intuito de produzir ou, pelo menos, servir de propul-sor da paz eterna no mundo.

O ente estatal repensado perde seus ele-mentos clássicos para adquirir outros a fim de debelar sua crise, ao converter, dentro dos novos elementos, a atuação sociopolí-tica e econômica. As consequências do li-beralismo e do socialismo no Estado liberal ou no Estado de Bem-estar social tendem a não ser as justificadoras do fortalecimento, de um lado, dos Direitos Humanos, e o en-fraquecimento ou extinção de outro.

A esfera pública possui o condão de for-mar a unidade da pluralidade, junto com a inserção da participação político-democrá-tica da composição do mundo-da-vida. Os efeitos da esfera pública, nesse sentido, formam uma cadeia de relações comunitá-rias voltadas à composição do bem comum.

Em face do processo de globalização (no sentido lato) e de uma esfera públi-ca inclusiva, o Direito deve ganhar formas cosmopolitas, com a finalidade de prote-ger o gênero humano e suas diversas ma-nifestações culturais. Soma-se, a isso, a imprescindibilidade de incluir todos os Ho-mens no manto protetor dos Direitos Hu-manos. As implicações disso recaem no re-conhecimento, por parte de cada Estado, dos Direitos Humanos de cada ser humano.

As esferas públicas, assim como o Estado, devem reconhecer a qualidade dos “es-trangeiros” (pertencentes a outro círculo público) que, em determinado momento,

provisória ou definitivamente, fazem-se presentes na esfera pública.

O cosmopolitismo é levado a sério pelo reconhecimento da pluralidade de esferas e pela quebra de hegemonia do ente esta-tal. Ao reconhecer a pluralidade de esferas (local, nacional e global), está-se diante do reconhecimento da pluralidade, sendo que nelas, internamente, ainda existem diferenças. A concepção do cosmopolitis-mo jurídico visa tratar com seriedade o ser humano como fim em si mesmo e contri-buir na formação do cosmos (tendencial-mente mais) igualitário.

O princípio republicano é convocado objetivando fortalecer a noção de coisa pú-blica, até mesmo dentro da esfera pública.

Ainda compreende-se a democracia como incontornavelmente formadora desse prin-cípio. Portanto, cumpre marcar a decisão legítima pelo processo democrático e estar em acordo com as exigências republicanas.

Tal forma de governo desempenha o papel de evidenciar a participação e o engaja-mento de cada indivíduo na formação e no desenvolvimento da esfera pública ao negar a possibilidade de um ou de alguns indivíduos decidirem soberanamente sobre o rumo a seguir.

Com efeito, o Homem é o ponto fun-damental e inquebrantável do sentido da vida, por isso deve ser respeitado como va-lor último. O princípio republicano e, con-juntamente, o processo democrático, não podem ser utilizados com o intuito de rom-per a barreira dos Direitos Humanos. Em-bora a soberania esteja com a maioria, ela não pode ultrapassar os limites da dignida-de humana fornecidos pelas dignida-delimitações dos Direitos Humanos. Apesar de a esfera pública reter a soberania e se encontrar impelida a respeitar a dignidade humana, o poder de suas decisões e de seus atos não pode ferir os demais espaços públicos:

locais, nacionais e o global.

2. A (re)AberturA do espaço público A abordagem do espaço público2, nes-se momento, consiste na possibilidade de

Direito, homem e bem comum: as primeiras linhas de uma possível reescrita do estado

São Camilo - ES Cadernos Camilliani, Cachoeiro de Itapemirim - ES, v. 13, n. 1, p. 69-80, jan./abr. 2012.

manutenção reflexiva da concepção de Estado (com peculiaridades), juntamente com a “verdadeira libertação” requerente da presença da esfera pública (BAUMAN, 2001). Nesse sentido, a principal questão reside em abrir espaços ao novo ou, ao reutilizar o existente, aproxima-se mais de uma mudança de racionalidade do que

“reconstruir um mundo novo em outro pla-neta” (ARENDT, 2003, p.18).

Essa postura requer operar com três elementos principais ao Estado: os Direi-tos Fundamentais/Humanos; o princípio republicano; a soberania. A esfera pública deve se constituir na abertura à dignida-de humana, tanto no âmbito social quanto no individual; o Estado desempenha um papel importante ao coordenar esses três elementos entre o local3 e o global. Esta-belecer o espaço público implica vencer a barreira dicotômica entre as esferas do privado e do público, ao conjugá-los em uma única esfera de respeito mútuo.

Para fundamentar essa perspectiva de

“reescrever” o Estado, deve-se partir do espaço público como ambiente do desen-volvimento humano, transformando-o no locus privilegiado do mundo-da-vida. Nes-se espaço, é necessário que recaiam os Direitos Fundamentais/Humanos, o princí-pio republicano e a soberania mitigada e, então, aparece o Estado, com a finalidade de exercer algumas funções peculiares, as quais levem em consideração a crise de seus elementos clássicos, no sentido de lhe atribuir novo fôlego com novos elementos.

3. A composição do espAço pÚblico:

olHAres cruzAdos com Arendt

A ideia de espaço público envolve uma variedade de questões teórico-práticas (e histórico-contemporâneas) de diferentes áreas do conhecimento, pois abrange todo o conhecimento humano. A título de exem-plos, citem-se a arquitetura dos prédios residenciais, o plano diretor das cidades, a infra-estrutura dos bairros, o acesso aos prédios públicos, enfim, inúmeros proble-mas a serem invocados. O fundamental,

neste momento, concentra-se na base es-truturante das relações humanas, por isso a necessidade de dotar o espaço público de condições para realizações sociopessoais.

Para tal, convocar-se-á como guia princi-pal o pensamento de Arendt, no entanto, as controvérsias exsurgentes internas e ex-ternas ao pensamento arendtiano não se-rão referidos ou aprofundados.

A esfera pública arendtiana recorre à experiência ímpar na história da Grécia Antiga ao capitular três atividades ligadas ao homo: o labor, o trabalho e a ação. O la-bor (animal lala-borans) caracteriza-se pela repetição e se restringe às necessidades vi-tais, significando a atividade sem começo nem fim viabilizadora da sobrevivência hu-mana. O trabalho (homo faber) está rela-cionado à fabricação de coisas, na criação do “mundo artificial”, tendo presumíveis o começo e o fim. A ação (práxis) refere--se às atividades interativo-interpessoais sem a intermediação de coisas materiais, delimitadas por começo definido, fim inde-terminado e imprevisíveis consequências.

Por isso, por meio da ação se organiza a atividade política. Cabe ressaltar a de-pendência entre tais elementos, cada qual possuindo uma função viabilizadora da ou-tra. A diferença marcante entre a ação e o trabalho reside na finalidade almejada por este, que passa a ser um meio utilitário para atingir a fabricação de alguma coisa.

O pensamento arendtiano baseia-se na ação, logo, a ação política é realizada com-os-outros. Mediante a força libertária da ação pode-se erguer no mundo o ines-perado, modificá-lo, apresentar algo novo.

Isso quer dizer que está centrado especifi-camente na ação o elemento substancial da política (CARDOSO JÚNIOR, 2005).

A ação requer algumas observações no tangente às condições de sua realização.

A práxis tem sua condição de possibilida-de com-os-outros, ela não é realizável no isolamento, é, sim, baseada na pluralida-de humana, ao contrário do trabalho, que pode ser realizado no isolamento. Abre-se a imprescindibilidade da interação com o outro, e a condição de diferenciação

en-72 73 tre os homens e os animais surge

afirmati-vamente. Essa diferenciação baseia-se na necessidade de compor um mundo comum, estruturado pela práxis e pela lexis, duas faculdades inerentes ao Homem, já que este só existe com-os-outros.

A esfera pública estabelece as medidas essenciais à própria percepção humana da realidade, cria o senso comum, além de garantir a cada individualidade — na inter-comunicação — por meio da presença do outro, a realidade do mundo e da própria subjetividade, pois a identificação de ele-mentos comuns, por meio dos sentidos, forma a solidez de ser-estar-no-mundo (com-os-outros).

Para isso, se requer liberdade, tendo esta como essência a isonomia existen-te apenas no espaço público. Nas rela-ções constitutivas da esfera privada, não há igualdade nem liberdade uma vez que prevalece o governo do senhor da proprie-dade. No espaço público, a livre reunião dos cidadãos, o convencimento e a liga mantenedora da unidade (a promessa ou o contrato mútuo) geram o poder políti-co, apresentando tal poder especificidades tais qual a sua dialógica, a promoção da comunicação e o respeito à pluralidade. O poder garantidor do espaço público não é coercitivo, ele provém da coincidência en-tre palavras e ações, ao revelar-se no dis-curso revelador da identidade e nas ações criativas. (CARDOSO JÚNIOR, 2005).

Existe igualdade política entre os go-vernantes e governados, o que assegura a liberdade e a isonomia política na par-ticipação das discussões sobre o interesse comum. A realização acerca destas só pode ser concretizada por meio da convivência pacífica entre os diferentes (cidadãos) e dos distintos pontos de vista, intermedia-dos pela persuasão. Essa concepção está engajada com a diferença entre minoria e maioria, mas em uma organização ho-rizontal, não a vertical dos contratualis-tas, na distribuição de poderes. Na polis, os cidadãos que tinham seus interesses a serem decididos eram afastados do pro-cesso decisório para manter a integridade

do processo político. A violência, como o direito do mais forte, não possuiu espaço nessa esfera, no entanto, era admitida na vida privada e nas relações internacionais (CARDOSO JÚNIOR, 2005).

A polis grega revestiu-se de contraponto visando focalizar a esfera pública, uma es-fera concebida, arendtianamente, para o exercício da autonomia humana. A questão política deve ser permeada apenas por crité-rios morais inerentes à própria esfera, refle-tindo a tentativa de salvar o âmbito político de determinantes interferências externas, como a moral alheia a ela e a economia.

Quando o pensamento arendtiano reti-ra o critério de isonomia do direito e da economia para localizá-lo na práxis, na lexis e na doxa, essas duas ações geram a isonomia. O ordenamento jurídico está investido na função de assegurar o espa-ço às atividades políticas, a fim de supor-tar a existência de um mundo comum a transcender às gerações, ao passo que a economia não interferiu na concepção de isonomia na esfera pública, pois os escra-vos poderiam ser abastados materialmen-te, nem por isso participavam da política (CARDOSO JÚNIOR, 2005).

Nesse espaço, a verdade estava com o consenso, não com o intelecto. A realidade era percebida por meio do senso comum, desenvolvido na dimensão epistêmica da esfera pública. A esfera privada, antípoda e conectada com a pública, encontrava-se sob a primazia da pública. A modificação dessa primazia começou com o desprezo da política pela filosofia, quando SÓCRATES é condenado e morto, e PLATÃO reage con-tra a política. (CARDOSO JÚNIOR, 2005).

Na Idade Média, com a preponderância da influência religiosa, a esfera pública deixa de ser valorizada em detrimento da privada já que, na família, não existem re-lações políticas. Soma-se o desinteresse do cristianismo pela coisa pública além de as comunidades tomarem como paradigma as relações familiares com o intuito de forma-rem as relações públicas, reduzindo drasti-camente o fenômeno político. Portanto, a vida ativa migrou da política para a religião.

Mas isso sofre uma radical mudança com a secularização ao convocar a ratio e ao conclamar a maioridade (KANT, 1999) do indivíduo. Com isso, a concepção de política retorna à cena, porém, com ou-tra roupagem e sentido diverso da polis grega. Esse sentido é/era constituído pela noção contratualista da volonté générale rousseauniana da defesa dos próprios in-teresses inseridos num ambiente comum.

Essa concepção parte de um estado civil organizado cuja finalidade era defender e viabilizar os interesses de cada indivíduo, na direção de coordenar a coexistência dos interesses de cada um, pois o estado de natureza seria regido pela lei do mais forte. O desenrolar do processo civilizató-rio demonstra a convergência para o polo do indivíduo (privado) e o afastamento do polo coletivo (público). O indivíduo é o inimigo do cidadão. O indivíduo engaja-se no seu interesse comum, a ponto de des-constituir o agir público ao tornar a esfera pública um palco para a busca de sua au-tossatisfação, sem ao menos incluir nela o bem-comum (BAUMAN, 2001).

Se na Idade Média todos eram “filhos ou à imagem e semelhança de Deus” (salvo as exceções), na modernidade a identidade não assemelha a Deus, embora se constitua em própria “divindade” — e a razão indivi-dual institui o Estado como o ente maior.

Os contratualistas afastam o eu do outro ao propor um soberano guardião da paz, li-berdade e segurança de cada indivíduo em relação ao outro, pois o outro representa o perigo da perda da vida, dos bens ou da liberdade no estado de natureza.

O Estado Liberal e o Social são meca-nismos de organização das relações entre espaços privados, pois o público se resume a ser o palco das relações privadas, sem ao menos criar as condições para o esta-belecimento de uma política que reflita a práxis e a lexis próprias de cada cidadão em direção ao bem-comum. Agora, o espa-ço público privilegia o âmbito privado, ao sustentá-lo com dinâmicas excludentes dos intrusos dos espaços privados alheios (mo-delo liberal) e, ainda, funciona como

su-porte mínimo, formal e materialmente, ao desenvolvimento privado (modelo social).

Com o declínio da esfera pública, a pri-vada assumiu a posição mais relevante no habitáculo coletivo, por isso ocorrem al-guns fenômenos de desconstrução da ideia de comum plural para a edificação da con-cepção da unificação da pluralidade.

Na tentativa de instituir as bases do es-paço público, invocar-se-ão três elementos capazes de estabelecer o âmbito público e estabilizar a função do Estado moderno.

Serão eles coordenados pelo Estado, no entanto, criados e desenvolvidos pela es-fera pública (com a dinâmica arendtiana), a qual é instalada no Estado nacional. Isso não implica o retorno do solipsismo esta-tal; pelo contrário, os aparelhos estatais serão apenas as estruturas de manutenção de um ponto de reverberação comum da dialética entre local, nacional e global, sempre em atenção aos Direitos Humanos, afinal, eles se constituirão no ponto jurídi-co fundamental do esforço de uma ordem inclusiva.

4. A cosmopolis jurídica: direitos Hu-mAnos/fundAmentAis — A indistinção

O ser humano encontra-se no centro do local, nacional e global, além de transitar entre eles. Na verdade, um Homem fisica-mente sempre se encontrará de imediato no (ou num) local ou a traspassar âmbitos locais, mas tal não implica o desprezo de seu ser quando confrontado com as dimen-sões nacional e global.

A sua condição humana garante-lhe os Direitos Humanos e, por conseguinte, o incontornável e indiscutível vínculo com as três dimensões, em graus distintos. A condição humana não pode desaparecer por estar em local diferente daquele de sua origem nem mesmo ser abalada por interferências desumanas nacionais, locais ou globais externas. Isso significa o reco-nhecimento universal do ser humano e a automática inclusão/aplicação dos Direi-tos Humanos, sendo a nacionalidade uma adjetivação apenas histórico-cultural

es-Guilherme Camargo Massaú e Leonardo de Camargo Subtil Direito, homem e bem comum: as primeiras linhas de uma possível reescrita do estado

74 75 pecífica a ser observada pelos outros no

momento de aceitarem/incluírem o “di-ferente” em seu espaço público comum.

Portanto, a nacionalidade, nesse esquema, não indica se tais direitos são Fundamen-tais ou Humanos.

Os Direitos Humanos sustentam a tese de que a dignidade da pessoa humana e a liberdade filosófico-moral ou jurídico--política são o núcleo e fundamento do entorno atmosférico de tais direitos (CAT-TANEO, 2002). A liberdade de pensamento desempenha uma função primacial nesse momento e a garantia jurídica dessa liber-dade está intimamente ligada à expansão da personalidade humana; ela expressa tal significado quando a capacidade de pensar autonomamente conjuga-se à possibilidade de comunicar o pensamento abertamente aos demais membros da coletividade.

O pensar autônomo acaba por se transformar no critério da verdade na ra-tio, assim coincidindo com a Aufklärung.

A perspectiva kantiana refere-se à deci-são, à responsabilidade pessoal no agir autônomo, e não a um problema do in-telecto, ou seja, diz respeito ao caráter.

A liberdade de pensamento ocasiona a adoção de uma postura iluminista, uma atitude de independência e de responsa-bilidade pelas suas ações.

Assim, o Estado deve harmonizar as re-lações da essência do Homem enquanto tal, com a do cidadão, na tentativa de con-ciliar as duas perspectivas; ele não pode se expandir a todos os estratos sociais sem colocar em risco a Constituição. O pensa-mento kantiano foca a liberdade — consis-tente no emprego público da ratio — como advento da Aufklärung na sociedade. É ne-cessário distinguir entre o uso público e o privado da razão: o primeiro é permitido a qualquer ser humano na qualidade de cida-dão, e o segundo diz respeito ao funcioná-rio do Estado no exercício de sua função.

O uso público indica o exercício da “dis-cussão universal”, segundo o qual o cida-dão ou estudioso pode questionar sobre as

“verdades” transmitidas a ele. Já no pri-vado, a razão está ligada ao exercício da

função oficial encaixada em determinados limites, por isso não cabem questionamen-tos. A tendência dessa perspectiva reside em germinar a semente da liberdade de pensamento, instigar a ação em liberdade de cada indivíduo e, com essa índole, o po-der político acaba por tratar o ser humano com dignidade. Para isso, cumpre traça-rem-se algumas condições imperativas.

Entre os imperativos kantianos, ressal-te-se o categórico. Tal imperativo possui

Entre os imperativos kantianos, ressal-te-se o categórico. Tal imperativo possui