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4. FORMA DE SE EFETIVAR A COLAÇÃO E VALOR DOS BENS DOADOS

4.5. Direito Intertemporal

Conforme assinalado no item supra da Discussão Histórica, o valor de colação do bem foi o da data da liberalidade desde o Código de 1916 até o Código de Processo Civil de 1973, oportunidade em que passa a ser o da data da abertura da sucessão. A partir da vigência do Código Civil de 2002, volta a ser feita colação pelo valor da data em que se deu a doação, atualizado até o momento da abertura da sucessão.

As alterações em pauta geram a polêmica relativa ao direito intertemporal, uma vez que cabe identificar a legislação que será aplicável quando a doação se deu na vigência, por exemplo, do Código de Processo Civil, em que seria efetivada a colação pelo valor do bem ao tempo da abertura da sucessão, independentemente do valor que constasse na doação, mas o falecimento somente ocorreu na vigência do atual Código Civil, em que a regra já é outra, de colação pelo valor da data da liberalidade, atualizado.

Nesse caso, entende-se que o correto é a aplicação da lei vigente no momento da abertura da sucessão e, caso o falecimento tenha ocorrido na vigência do Código Civil de 2002, a colação deverá ser efetuada pelo valor do bem na data da doação, atualizado monetariamente até o falecimento do doador. Lembre-se que, se este, ao tempo da liberalidade, indicou valor ao bem inferior ao real, tal valor deverá ser impugnado pelo herdeiro prejudicado e, nesse caso, será feita avaliação por perito para indicar o real valor do bem, com as características que tinha naquele momento da doação.

286 “Acessão significa justaposição, aderência de uma coisa à outra, de modo que a primeira absorva a segunda. (...) trata-se de coisas móveis por sua natureza, tais como os tijolos, os canos etc., mas que, incorporadas em caráter permanente ao solo, adquirem a categoria de imóveis. Para que isso ocorra, entretanto, mister se faz a presença de um requisito, isto é, que a coisa assim incorporada não possa ser retirada sem que sofra modificação, fratura ou dano. Caso contrário, não se consuma a acessão”, conforme lição de RODRIGUES, Silvio. Direito civil. Parte geral, 31. ed., v. 1, p. 117-118.

É essa a regra geral do artigo 1.787 do Código Civil, determinando que regula a sucessão a lei vigente ao tempo de sua abertura, isto é, data do falecimento do de cujus. Não importa, dessa feita, a lei vigente ao tempo da doação, mas sim aquela aplicável no momento da abertura da sucessão, motivo pelo qual, no exemplo ora citado, dúvida não há de que a colação far-se-á pelo valor do bem no momento da liberalidade, a ser atualizado até o falecimento do doador, cabendo, se necessária, a avaliação do valor real do bem.

Há interessante julgado nesse sentido, do Superior Tribunal de Justiça, relativo a hipótese fática de doação de quotas sociais em benefício de descendentes na vigência do Código Civil de 1916 e do Código de Processo Civil de 1973, com seu artigo 1.014, parágrafo único, ocorrendo o falecimento do doador também na vigência dessas leis. O Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, contudo, entendendo que a situação justificava, aplicou a regra do atual Código Civil, de colação dos bens pelo valor da doação.

A decisão foi objeto de Recurso Especial, tendo entendido o Superior Tribunal de Justiça que a lei aplicável é aquela vigente na abertura da sucessão, que seria o Código de Processo Civil, dando provimento ao Recurso Especial para que a colação fosse feita pelo valor dos bens na data da abertura da sucessão. Com isso, afastou o novo Código Civil, que ainda não era aplicável na data do falecimento dos cônjuges doadores, em 1999 e 2000. Transcrevem-se, a seguir, a ementa e os trechos do voto da Ministra Nancy Andrighi:

Processo civil. Recurso especial. Inventário. Preclusão. Prequestionamento. Ausência. Colação. Avaliação do bem. Valor à época da abertura da sucessão. – Inviável o recurso especial na parte em que suscita questão federal não apreciada pelo Tribunal de origem. – Os bens trazidos à colação,

para efeito de acertamento das legítimas, devem ser avaliados com base no valor que possuírem à época da abertura da sucessão, conforme o disposto no art. 1.014, parágrafo único, do CPC, dispositivo esse que corresponde à norma vigente à época da abertura das sucessões examinadas nos presentes autos. Recurso especial parcialmente conhecido e provido.

Trechos do voto:

Dessarte, ao entender inaplicável o art. 1.014 parágrafo único do CPC determinando que se considerasse, para efeito de acertamento das legítimas, o valor que as cotas das empresas comerciais, doadas a título de adiantamento dessas legítimas, possuíam à época da liberalidade, atualizado

por meio de correção monetária, o TJSC negou vigência ao referido dispositivo legal. Dispositivo esse que, importa esclarecer, corresponde à norma vigente à época da abertura das sucessões examinadas nos presentes autos.

Ante a negativa de vigência ao art. 1.014 parágrafo único do CPC e a demonstração da divergência jurisprudencial quanto ao valor a ser considerado no momento da avaliação do bem colacionado, merece reforma o acórdão recorrido. (STJ, Recurso Especial no 595742-SC, 3a Turma, Rel.

Min. Nancy Andrighi, j. em 06.11.2003, D.J. 01.12.2003) (sem grifos no original).

Note-se que a regra do artigo 1.787 do Código Civil é um efeito do princípio da

saisine, que se soma àquele relativo à imediata transmissão pleno jure da herança aos

sucessores. Logo, pelo artigo em análise, a identificação da lei aplicável à sucessão e a capacidade sucessória ocorrem de acordo com a lei vigente na data do falecimento do doador, momento da abertura da sucessão,288 regra a ser seguida para se identificar o valor do bem a ser colacionado.

288 CAHALI, Francisco José; HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Direito das sucessões, 3. ed., p. 36.